Duas atitudes

PS e PSD acolheram de forma diferente a decisão do BCE. Porque será?

Já não é estranha a discrição da maioria se se tiver em conta que Passos sempre foi um fiel aliado da Alemanha contra as políticas consideradas demasiado ‘intrusivas’ por parte do Banco Central Europeu. Ainda não passou um ano desde que o primeiro-ministro disse, no Parlamento, que seria “errado” o BCE comprar dívida pública em larga escala, que tal seria “impossível, inconcebível” (…) e que, a acontecer, ele seria “totalmente contra porque o BCE não se pode meter nessas coisas”. É óbvio que depois de posições destas não seria fácil a Passos manifestar grandes euforias. Tanto mais que tal poderia soar a uma espécie de cedência a medidas que no léxico e na construção da imagem do primeiro-ministro significa acolher facilidades. E isso é um luxo a que ele não pode, nem quer, permitir-se.

A atitude do PS foi inversa. A ideia foi justamente dar o máximo relevo à decisão do BCE e sublinhar o seu desencontro com as posições sempre defendidas por Passos. Ao afirmar que este sofreu uma “pesada derrota política”, António Costa quis exibir perante o país um chefe do Governo derrotado pela História, contrariado pela realidade e isolado interna e externamente, quer por sondagens desfavoráveis, quer pelo contexto das posições europeias. Pode desde já prever-se que a austeridade como único caminho apresentado aos portugueses para sair da crise ganhou força e vai ser uma munição importante para o PS e a restante oposição durante a campanha eleitoral. Por seu lado, a maioria vai esgrimir com o argumento de que, sem austeridade, a “bazuca” do banco central não seria possível. Mas uma coisa é certa: a clarificação das políticas europeias também não dá margem aos socialistas para protelarem por muito mais tempo a apresentação das suas medidas para o país. Até porque os partidos da coligação, agora mais perto de se concretizar, vão exigir-lho todos os dias. Nem que seja para ajudarem a esquecer esta derrota.