Esgotos usados como suplemento vitamínico para as alfarrobeiras

A rega dos golfes com efluentes tratados ainda é uma miragem. Agora, o projecto chegou às alfarrobeiras.

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Pedro Cunha

A alfarrobeira está em vias de mudar de hábitos, deixando de ser uma árvore do sequeiro para passar a ser regada como se fosse uma laranjeira. O primeiro projecto que reutiliza os efluentes de uma Estação de Águas Residuais (ETAR) na rega das árvores está a ser ensaiado no barrocal de Salir, no concelho de Loulé. A ideia surgiu a partir de uma investigação desenvolvida na Universidade do Algarve (Ualg), mas quando os conhecimentos saíram do laboratório para serem aplicados no terreno ergueram-se as tradicionais barreiras administrativas.

“Desculpem, mas isto é uma humilhação impressionante, trabalhar nestas condições”, desabafou nesta quinta-feira o agrónomo que desenvolveu uma tese de doutoramento nesta área, no final da apresentação deste caso de estudo num seminário realizado na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), onde se discutia a “reutilização das águas residuais tratadas”. Manuel Costa queixou-se do “calvário” que sofreu ao longo de três anos para recolher o parecer de 13 entidades diferentes a pronunciarem-se sobre se seria viável plantar alfarrobeiras “num sítio onde já havia alfarrobeiras — só que, agora, vão passar a ser regadas”.

O seminário reuniu vários especialistas na área das águas, procurando difundir junto dos promotores empresariais ligados ao turismo a ideia de que regar com efluentes tratados significa investir na sustentabilidade do planeta. Nesse contexto, o representante das Águas do Algarve, Joaquim Freire, disse que a empresa está em condições de responder ao  desafio que lhe foi colocado há uma dezena de anos e na altura muito vocacionado para os campos de golfe. “Das 63 Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) que temos na região, todas elas estão, à partida, em condições de fornecer água para reutilização”. No entanto, para que tal venha a acontecer, disse, é necessário um “tratamento adicional, o que implica investimento”. Por outro lado, o investigador da Ualg, Carlos Guerreiro, lembrou que os efluentes, mesmo tratados, contêm microrganismos “não tolerados” por alguns golfistas. Porém, ressalvou, “se o cliente for que a água não terá qualquer problema, penso que isto é um problema que se ultrapassa facilmente”. Dos 34 campos existentes do Algarve, apenas dois golfes — Salgados, em Albufeira, e São Lourenço, na Quinta do Lago — utilizam águas residuais para rega.

Já no que diz respeito aos pomares de alfarrobeiras, Manuel Costa só encontrou vantagens em utilizar efluentes tratados. Os sais minerais — azoto, fósforo e potássio — presentes na água da ETAR, disse, funcionam como uma espécie de suplemento vitamínico para as árvores. No caso da ETAR de Salir, adianta, os ganhos equivalem à poupança de “um saco de adubo por dia” num pomar de dez hectares. Por outro lado, enfatiza, “estamos a resolver um problema ambiental”. É que a ETAR, até agora,  despejava os efluentes na ribeira da Benémola, onde nasce o principal aquífero da região — o de Querença/Silves.

Da parte da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Paulo Cruz, técnico da delegação regional da APA, recordou que regar com efluentes implica uma autorização desta entidade, depois do parecer emitido pela Saúde Pública, Ministério da Agricultura e outras entidades. “Dão pareceres contraditórios revelando total desconhecimento da matéria”, criticou Manuel Costa, em declarações ao PÚBLICO, revelando oposição à “cultura dominante na administração pública — segue-se o caminho mais fácil, o de chumbar ou dificultar tudo o que aparece de novo”.
O barrocal algarvio fornece por ano, em média, dez milhões de arrobas de alfarrobas, o equivalente a 14% da produção mundial.

Quanto aos pedidos de licenciamento para a construção de mais campos de golfe no Algarve, as condicionantes inscritas na Declaração de Impacto Ambiental (DIA) que foram emitidas já obrigam a que a rega seja feita com águas residuais tratadas, quando tal seja possível. O primeiro campo a utilizar este sistema da reutilização foi o dos Salgados, em Albufeira, porque enfrentava o problema das salinização da água captada pelos furos. Mais recentemente, o campo de São Lourenço, na Quinta do Lago, passou a misturar os efluentes tratados pela ETAR (60%) com água das captações subterrâneas (40%). Em Silves, o empresa que explora o campo da Amendoeira,  alegando dificuldades económicas, pediu à APA para adiar o cumprimento dessa medida, exigida na DIA.

Um dos motivos para as empresas não utilizarem os efluentes na rega de jardins e golfes, tem a ver com o seu custo. A água tratada para esse fim, fica três ou quatro vezes mais cara do que aquela que é captada dos furos, cujo preço ronda os 10 cêntimos por metro cúbico.

A este propósito, Joaquim Freire lembrou que, em Espanha, as boas práticas ambientais neste domínio foram estimuladas com o envolvimento do Estado no “financiamento ao tratamento adicional dos efluentes, de forma a que sejam usados nos  golfes”. No Algarve, apesar de há sete  anos, a empresa Águas do Algarve ter procurado encontrar clientes para se lançar nessa nova área de negócio, disse, foi diminuta a receptividade do mercado.