Hospitais das Misericórdias fazem urgências para "ajudar" o SNS

Para já, são dois os hospitais de Misericórdias que estão a receber doentes de hospitais públicos.

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Desde esta quinta-feira há já dois hospitais das Misericórdias a receber doentes do Serviço Nacional de Saúde Paulo Pimenta

Os hospitais das Santas Casas da Misericórdia de Riba de Ave e da Póvoa de Lanhoso estão disponíveis desde as 0H00 de quinta-feira para atender doentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS), de forma a ajudar a aliviar os serviços de urgência dos Centros Hospitalares do Alto Ave e do Médio Ave. Os doentes que se dirigirem a estas unidades têm apenas que pagar a taxa moderadora ou, se forem isentos no SNS, não pagam nada, tal como acontece nos hospitais públicos, explica Salazar Coimbra, da direcção do Grupo Misericórdias Saúde.

Estes dois hospitais do sector social também disponibilizaram, no total,  21 camas para internamento de doentes provenientes dos centros hospitalares públicos vizinhos, adiantou Salazar Coimbra, que também é director clínico do Hospital de Riba de Ave e administrador da Misericórdia local.

O recurso ao sector social era uma das medidas previstas pelo Governo para aliviar a pressão que se tem feito sentir sobre os serviços de urgência hospitalares, numa altura em que o país enfrenta o surto de gripe sazonal. Foi, aliás, a Administração Regional de Saúde (ARS) do Norte que convocou os responsáveis dos hospitais das misericórdias para perceber a sua disponibilidade para “ajudar” as unidades do SNS, especifica Salazar Coimbra..

Depois de um levantamento, decidiu-se que começavam a funcionar de  imediato neste modelo os hospitais das Misericórdias de Riba de Ave e da Póvoa do Lanhoso, cujos serviços  "já estão abertos em permanência com dois médicos a tempo inteiro, radiologia e meios complementares de diagnóstico”, segundo diz. Está ainda a ser estudada a possibilidade de a Unidade de Saúde de Castelo de Paiva (actualmente só com um médico a tempo inteiro) fazer o mesmo, de forma a dar apoio ao Hospital da Feira, mas para isso o terá que ser reforçada em recursos humanos, revela ainda.

Estes dois hospitais já "funcionam como serviços de urgência básica", garante Salazar Coimbra, sublinhando que só o de Riba de Ave tem atendido, nos últimos tempos, mais de 240 doentes por dia (quando a média de 2014 foi de 141). Como será viável, então, dar resposta a mais doentes que venham dos hospitais públicos? Os serviços serão reforçados com mais um médico a tempo inteiro, precisa. Caso de trate de um doente grave, “será activado o INEM para o vir buscar, já devidamente estabilizado”, assegura.

Como é que isto foi possível se a hipótese de recurso ao sector privado, que chegou a ser equacionada, foi, para já, posta de lado? “Uma coisa é o sector privado, outra o sector social, há legislação que dá cobertura [a este tipo de acordos de complementaridade com as instituições de solidariedade]”, explica o director clínico, que afirma que a factura dos doentes do SNS que aqui forem tratados será paga pelo Ministério da Saúde.

Idosos abandonados
Outra das medidas previstas para libertar camas hospitalares e aliviar a pressão sobre as urgências, nesta época de grande procura, passava por transferir com maior celeridade os doentes idosos, já com alta mas que ficam abandonados nos hospitais, para lares de instituições de solidariedade social. Mas esta possibilidade está a revelar-se mais complicada.

Actualmente, alguns dos idosos abandonados nos hospitais vão para os lares das IPSS e das Misericórdias através da Segurança Social, mas o processo muitas vezes é dificultado, se não mesmo impossível, por falta de vagas.

O Ministério da Saúde pediu recentemente ajuda à União de Misericórdias Portuguesas (UMP) e à Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade Social (CNIS) para este efeito. Apesar de demonstrar toda a disponibilidade para colaborar, o presidente da CNIS, Lino Maia, nota que é preciso firmar um novo acordo de contrapartidas, o que já está a ser preparado, mas apenas deverá estar concluído em Abril. Nessa altura, os doentes que já têm alta mas foram abandonados poderão ser transferidos directamente dos hospitais para lares das instituições de solidariedade, mas o que se pretende é que seja o Ministério da Saúde a pagar a factura, “durante alguns meses”. Este acordo já não irá, porém, a tempo de dar resposta aos casos dos últimos dias. “O Verão também é complicado”, nota Lino Maia.

“Esta é uma matéria urgente e que tem que ser tratada já”, defende Manuel Lemos, presidente da UMP. Manuel Lemos acredita que o acordo que já existe com a Segurança Social  para este efeito serve e pode começar a ser aplicado rapidamente, ainda que “com um enxerto”. “É possível começar já a transferir pessoas desde que devidamente avaliadas pela Segurança Social. Mas cada caso é um caso”, reflecte.