Pressão nas urgências obriga Ministério da Saúde a reabrir 569 camas

Secretário de Estado reconhece que medidas tomadas ainda não foram suficientes para resolver problemas na espera. Mas recusa falar em "caos generalizado" e avança que mudanças na triagem vão ajudar a dar melhor resposta.

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Os hospitais têm relatado falta de macas e de camas para internar os doentes Enric Vives-Rubio

Leal da Costa, que respondia a uma pergunta do PÚBLICO durante uma conferência de balanço sobre o combate à gripe neste Inverno, que decorreu na Direcção-Geral da Saúde, admitiu que ainda há trabalho a fazer, mas rejeitou que as falhas e problemas no atendimento derivem de “cortes, não contratações ou despedimentos”, criticando quem diz que “isto é deliberado pelo Ministério da Saúde para acabar com o Serviço Nacional de Saúde e ressuscitar os privados”. O também médico recusou, ainda, falar num “período de emergência ou caos generalizado” nos serviços de saúde e deu exemplos de picos de gripe mais elevados no passado, como nos governos de António Guterres.

Dados que também foram mostrados pelo director-geral da Saúde, Francisco George, e pela subdirectora-geral da Saúde, Graça Freitas, a mostrarem outras épocas com mais casos e mais mortalidade e a salientarem que as doenças respiratórias afectam sobretudo as pessoas com mais de 75 e de 85 anos, sublinhando que é nessas camadas que se têm registado mais casos graves até pelo “frio anormal” que se tem feito sentir e que coincide com a circulação do vírus da gripe. Nas últimas semanas, os dados das autoridades apontam para um excesso de mortalidade de quase 2000 pessoas desde o início de Janeiro, sendo esta a ferramenta normalmente utilizada para perceber quem morre de gripe no Inverno ou nas ondas de calor no Verão. 

Apesar de refutar a palavra emergência, no seu discurso, Leal da Costa referiu-se algumas vezes à “crise a que assistimos”, falando do futuro como “quando esta crise passar” ou adiantando que “temos tido reuniões semanais desde que começou esta crise”. O governante informou que, além das 569 camas reabertas, há mais 471 prontas. O problema está na localização das vagas. “Nem todas estas camas que podemos abrir são exactamente onde gostaríamos que elas estivessem”, disse, falando numa “disposição assimétrica” dos hospitais perante as necessidades do país. Por isso, assumiu que recorrer pontualmente à oferta privada pode ser uma solução.

Sobre os casos que têm sido relatados de doentes que morreram nas urgências de hospitais após tempos de espera acima do recomendado, Leal da Costa apelou a que se aguardem os resultados das investigações. “Lamentamos todas as mortes e não deixaremos de encontrar eventuais falhas sistémicas ou pessoais que serão devidamente corrigidas”, garantiu, mas afirmou que “convirá não gerar alarmismos” – referindo-se a um caso noticiado nesta terça-feira de um doente que teria morrido no hospital de São Francisco Xavier, em Lisboa, após uma longa espera quando a pulseira laranja que recebeu corresponderia a um máximo de dez minutos.

O secretário de Estado reforçou o que já antes o ministro da Saúde tinha vindo dizer. O doente de 92 anos foi atendido nove minutos depois de dar entrada na unidade, com Paulo Macedo a criticar o “alarmismo” e “falsidade” com que o caso foi divulgado. “Estar a somar casos que não têm nada uma coisa a ver com outra é, de facto, lançar alarmismo e falsidade”, disse o ministro da Saúde, citado pela Lusa durante uma visita a Leiria, reforçando que “há um conjunto de óbitos muito significativo em qualquer serviço de urgência durante todo o ano em todos os hospitais e, ainda mais, há um número muito significativo (...) de óbitos por pessoas que entram na urgência” e separando os óbitos da “falta de assistência”.

10 mil mortes por ano nas urgências
“Não vale a pena fazer um exercício alarmista de que estão sempre a morrer pessoas na urgência. Não vamos atrás da procura mórbida de cada morte que acontece”, completou Leal da Costa, reconhecendo ainda assim que as denúncias são importantes para o sistema de saúde melhorar. A este propósito, Leal da Costa avançou alguns dados, dizendo que do total anual de cerca de 105 mil mortes em Portugal, há 50 a 60 mil que ocorrem nos hospitais. “Todos os anos nas urgências morrem cerca de 10 mil portugueses (…). Isso tem de acontecer assim, pela maior gravidade das pessoas que normalmente acorrem a um serviço de urgência”, acrescentou, defendendo que perante os cinco milhões de episódios de urgência que os hospitais públicos recebem todos os anos a “mortalidade é relativamente baixa”.

Mesmo assim, um dos planos da tutela passa por rever alguns dos procedimentos de trabalho nas urgências. Fazer uma nova triagem aos doentes que esperam há demasiado tempo é uma das medidas, já antes anunciada, à qual o Governo quer juntar até ao final do ano uma melhoria informática que permitirá acompanhar a triagem de Manchester de outra forma. Até agora o sistema permite saber os tempos médios de espera para cada cor de urgência (vermelha, laranja, amarela, verde e azul) e a ideia é que, a partir do final de 2015, permita acompanhar o tempo de espera de cada doente isolado. O objectivo é fazer agir mais cedo, mas também permitirá extrair outras análises, como relacionar o tempo de espera com o desfecho do caso do doente.

As declarações de Leal da Costa foram feitas no mesmo dia em que a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) avançou, em comunicado, que neste ano já foram autorizadas 130 contratações de profissionais de saúde. Em 22 dos casos as novas entradas são de médicos especialistas, sendo que quatro vão para o Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro e quatro para o Centro Hospitalar de Leiria. As restantes 108 contratações são de enfermeiros, com 55 a irem reforçar o Centro Hospitalar de Lisboa Central e sete para o Hospital Fernando da Fonseca (Amadora-Sintra).