Opinião

O inimigo e a resposta

O terrorismo fundamentalista guarda estreita relação com os abundantes factores de cretinização que proliferam na nossa sociedade.

Uma rua de Paris. Um ser humano jaz no trottoir, baleado. Ecoam os seus gritos de dor misturados com breves palavras pedindo clemência. Indefeso, o homem ergue os braços em sinal de rendição endereçado à figura negra que dele se aproxima e lhe rouba a vida num gesto despido de hesitação.

As imagens desta morte filmada ficarão para sempre na nossa amargurada memória como símbolo do desprezo pela vida. A figura negra do assassino inclemente tem a força iconográfica da representação clássica da Morte. Parece uma personagem encenada, como na ficção cinematográfica de Bergman. Horas mais tarde, o homem de negro dirá ao mundo que não é um assassino, mas sim o executor de um acto de justiça em nome do profeta Maomé. O homem de negro agiu como sendo um braço da justiça e da bondade divinas, exactamente como as crianças na obra-prima de M. Haneke, Das weisse Band (O Laço Branco). Mente e açoita a Vida.

Perante a evidência da relação de um acto violento com uma crença, múltiplas personalidades vieram a terreiro proclamar que “este fanatismo nada tem que ver com a religião muçulmana” (F. Hollande). Fogem à verdade. Mentem.

A fé não faz do homem um ser melhor. É necessário dizê-lo com clareza: sempre que o conteúdo de uma asserção é aceite como verdade sem exigência de prova racional, instituindo o primado do irracional; sempre que a palavra de um profeta é acolhida como verdade inquestionável; sempre que se promove a crença numa entidade absoluta, numa qualquer divindade pessoal a que se atribuem qualidades absolutas; sempre que se faz acreditar em aparições, milagres e outros alegados factos sobrenaturais, abre-se a porta ao fanatismo, à acção cega, ao terror. Aduba-se a terra onde germina o Mal. Qualquer que seja a nobreza de um cânon, de um preceito, de uma norma, de um juízo, o fracasso é certo a partir do momento em que tal seja acriticamente imposto ou dogmatizado. A consciência desse perigosíssimo defeito de atitude tem que ser reavivada infinitas vezes, sem tréguas, num esforço ético-intelectual contínuo. A Razão crítica nunca alcança definitivo triunfo. Tem que ser construída e reconstruída a cada instante.

Quando no passado dia 8, em França, se travava batalha contra a barbárie em defesa da civilização, tive curiosidade de saber que informação estava a chegar nesse relevante momento ao cidadão português através da TV. Sabendo que a grande maioria da população não tem acesso a canais por cabo, fiz zapping nos restantes quatro. Em nenhum deles encontrei emissão dedicada aos aconteceres de impacto planetário que se desenrolavam em solo francês. TVI, SIC e (para maior espanto) RTP, de serviço público, consideraram que a defesa da Liberdade e dos valores republicanos era assunto menor, não justificando emissão especial. Num dos canais, no preciso momento em que se desenrolava fase crucial do combate pela Liberdade, o incauto cidadão deparava com uma sessão de cartomancia (!) conduzida por uma senhora que propalava o sobrenatural com tiques burgueses de uma exuberância insuportável. Naquela hora grave, o cubo mágico lusitano expelia cretinização, estupidificação, confusão, infantilização, e trivializava, intoxicava, exibindo o triunfo do irracional, do kitsch, da futilidade, da superficialidade, do prazer imediatista. Afirmação do vazio. Não deveria também isto aterrorizar-nos? Não será outro tipo de “terrorismo”? É, pelo menos, o investimento televisivo na construção do homem-massa de Ortega y Gasset, esse ser soft, destituído de gravitas. Ser que, como bem alertou o filósofo espanhol, constitui permanente ameaça ao humanismo europeu.

Não houve nenhuma reacção protestativa por parta das elites da pátria! Onde estão? Com o seu silêncio, com a sua apatia, com a neutralidade insonsa e a falta de nervo do “politicamente correcto”, elas pactuam e traem! É a traição das elites intelectuais, morais, artísticas, políticas.

Interessa perceber que na profundeza dos fenómenos que tenho vindo a evocar está o decaimento do amor à vida, a mentira, o resvalar para fora da vida na verdade. O império do superficial, do kitsch, o triunfo do vazio, tudo isso é a mentira obstrutora do amar a vida que Camus sabiamente enfatizava no final de L’homme revolté. Apoucar esse Amor é libertar o Mal.

Chegou a hora de compreendermos que o terrorismo fundamentalista guarda estreita relação com os abundantes factores de cretinização que proliferam na nossa sociedade, e até já no espaço nobre da escola. Como Espinosa nos ensinou, a estupidez nega a Liberdade. Esta é o que nos livra da estupidez. O homem de negro não é o único inimigo da civilização. Também os coloridos em tons rosa a corroem, espalhando lixo.

A essência da crise em que naufragamos não é financeira, é cultural. Impõe-se urgente resposta à ofensiva da barbárie – ofensiva múltipla, espelhada no fundamentalismo islâmico, bem como também no fascismo islamofóbico, no kitsch, nos agentes da cretinização, na indecência do austeritarismo imoral. Por isso, a resposta necessária é essencialmente cultural/formativa e não policial/repressiva. Dá-se empunhado as armas da razão crítica, da escola, do conhecimento, da arte; empunhando o lápis e não a espada ou a metralhadora. É disparando essas armas culturais que se impede a germinação do homem-massa e se semeia o ser que é pessoa de carácter, protagonista das boas elites; ser que vive na verdade, no bem e no belo.

Filósofo