Opinião

Grande Charlie

Não tendo nada de necrológico, como tinham prometido, a edição celebra o humor dos colegas assassinados.

A Charlie Hebdo de anteontem fez rir várias vezes, com cartoons bem desenhados e desobedientemente escritos. Gostei das primeiras páginas possíveis das quais nos livraram: três delas são tão boas como a escolhida.

Gozam com eles próprios e com as multidões que foram Charlie. Mas, lá está: a edição não podia ser normal. Ainda bem. Não tendo nada de necrológico, como tinham prometido, a edição celebra o humor dos colegas assassinados e faz questão de identificar e contra-atacar os palermas que culparam os humoristas do Charlie Hebdo; os neo-conservadores dos EUA; os sionistas e os próprios serviços secretos franceses.

Defendem também com clareza generosa — mas não como quem tem de se explicar aos 4 milhões que lêem a Charlie Hebdo pela primeira vez — que serão sempre ateus e laicistas. O laicismo é a coisa mais importante. É esse o fundamento da libertação napoleónica e republicana: é a garantia, dogmática, da liberdade de gozar com todos os preconceitos.

Sim, a Charlie Hebdo é obviamente anti-racista, anti-fascista, anti-clerical e anti-autoritária. Tem bom coração: custa-lhes mas estão dispostos a aguentar as represálias.

No eBay UK vendiam-se edições do Charlie Hebdo por 100 euros (a mais barata, com 31 exemplares já vendidos) ou 200 euros (a mais cara, com os mesmos 31 exemplares já vendidos).

Na viapresse.com onde assinei a Charlie Hebdo, no dia do massacre, um ano inteiro (52 números) custava (e continua a custar) 86,40 euros.