Para melhor entendermos o mundo

Um ano de apostas na não-ficção para os leitores que querem interpretar a actualidade e também de literatura polémica

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A escritora e jornalista russa Svetlana Alexievitch fotografia do arquivo de Svetlana Alexievitch
Karl Ove Knausgård debate-se com a morte física do seu pai, mas também com a sua própria morte como escritor
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Karl Ove Knausgård, segundo volume de A Minha Luta dr
Lobo Antunes já integrou várias vezes a lista do Prémio Médicis
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António Lobo Antunes terá novo romance em Outubro Nuno Ferreira Santos

Na sua primeira edição deste ano, o Babelia, suplemento literário do jornal espanhol El País, anunciava na capa: “o ensaio volta a estar em primeiro plano”, como os leitores querem “dar sentido a um mundo desconcertante”, procuram “chaves” na filosofia, na política e na ciência.

Recentemente o editor Manuel Alberto Valente defendeu a mesma ideia. “Neste momento assistimos cá, como lá fora, a uma certa mudança no paradigma editorial e a uma maior atenção dos leitores à não-ficção do que havia até aqui”, disse na sessão de apresentação das novidades do grupo Porto Editora. “Vejam o êxito que está a ter um livro difícil como o é O capital no século XXI, de Thomas Piketty que vai com quase 10 mil exemplares vendidos só em Portugal, o que para um livro daqueles é notável”.

Quando se olha para o que vai ser publicado em Portugal nos próximos meses, essa tendência parece ter sido levada em conta. Na editora Gradiva, até ao final do ano, ficará praticamente concluída a recolha e a edição de toda obra publicada até ao momento do académico Eduardo Lourenço e que estava dispersa. Começa com Do Brasil: Fascínio e Miragem este mês; Sobre a Pintura em Março; Salazar como Questão em Maio; Requiem por Alguns Vivos em Julho; O Cinema como Mitologia Cultural em Setembro; Estudos Camonianos (título provisório) em Novembro.

Também entre os lançamentos editoriais marcantes dos próximos meses, ainda sem título em português, está aquele que foi considerado o livro estrangeiro mais importante publicado em França em 2013 obtendo o Prémio Medicis para livro estrangeiro: La Fin de L’Homme Rouge, da escritora e jornalista de investigação Svetlana Alexievitch, que o ano passado apareceu como forte candidata ao Nobel da Literatura. Está a ser traduzido do russo pela Porto Editora que o publicará em Abril. “A escritora é um fruto da situação criada com a Perestroika e com a queda do império soviético. Ela é uma russa, na verdade nascida na Ucrânia e de família bielorussa. Este livro é o retrato do homem soviético antes e depois da Perestroika, conta-nos como era a vida quotidiana de um cidadão soviético antes da Perestroika e o que passou a ser depois”, diz o editor. Na Relógio D’Água, em Fevereiro, será publicado O Que Quer a Europa?, de Slavoj Žižek e de Srecko Horvat com prefácio de Alexis Tsipras.

De um dos comentadores económicos mais influentes do mundo, o editor do Financial Times Martin Wolf ver-se-á no Clube do Autor, The shift and the schocks, um livro sobre aquilo que aprendemos - e ainda temos de aprender - com a crise financeira. E na Bertrand, este mês, sairá A Ética das Finanças, de Robert J. Shiller, Nobel da Economia em 2013, uma visão analítica do sistema financeiro e de como este deve funcionar. Também os autores dos best-sellers Freakonomics e Superfreakonomics, Steven Levitt e Stephen Dubner estão de volta com Pense como um Freak, na Presença.

Um livro “híbrido” da espanhola Rosa Montero, escrito depois da morte com cancro do companheiro com quem a escritora viveu 21 anos e inspirado no diário que Marie Curie escreveu depois da morte do marido, A Ridícula ideia de não voltar e ver-te sai este mês na Porto Editora. Começa com a frase: “Como no he tenido hijos, lo más importante que me ha sucedido en la vida son mis muertos”. Em Maio, na mesma editora, vai ser publicado 1889, do jornalista e escritor brasileiro Laurentino Gomes, livro que encerra a sua premiadíssima trilogia e que recebeu o Prémio Jabuti para o Melhor Livro de Não-ficção 2014.

O quinto volume da História de Portugal - Os Filipes de António Borges Coelho sairá em Maio na Caminho e para Setembro ou Outubro, e editora prevê Diários da Prisão, de Luandino Vieira.

Em ano de centenário da revista Orpheu, haverá uma programação na Assírio & Alvim com uma forte presença dos modernistas e na Colecção Pessoa, dirigida por Jerónimo Pizarro na Tinta-da-china, sairá em Março 1915, o Ano do Orpheu – edição fac-similada.

As vidas deles

Uma biografia de Agostinho da Silva (1906-1994), intitulada O Estranhíssimo Colosso, realizada pelo académico António Cândido Franco é esperada na Quetzal, em Fevereiro. E na Planeta, em Abril, será contada a história do narcotraficante Pablo Escobar pelo seu filho em Meu Pai, de Juan Pablo Escobar. No mesmo mês, na Planeta sairá a autobiografia do actor que se tornou uma lenda dos Monty Python: Então, de qualquer maneira... de John Cleese.

Na Colecção de Viagens, dirigida por Carlos Vaz Marques na Tinta-da-china será lançado em Janeiro Era Uma Vez em Goa, de Paulo Varela Gomes e em Março, o clássico Viagem à Volta do Meu Quarto, de Xavier de Maistre. Em Setembro, na Antígona sairá La Nebbiosa (título original) do guião-romance de Pier Paolo Pasolini que estava inédito na sua versão integral. “Do guião inicial, repleto de referências políticas e sociológicas, (quase) nada ficou, nem mesmo o título, no filme realizado por Pino Serpi e Gian Rocco e proibido a menores de 18 anos, exibido numa única sala de Milão”, segundo o editor.

Deu polémica

Entre os lançamentos mais importantes deste primeiro semestre está Submissão, o romance polémico de Michel Houellebecq a publicar pela Alfaguara (ver capa). A colectânea de contos da autora duas vezes distinguida com o Man Booker Prize, Hilary Mantel, e que também causou polémica no Reino Unido, O Assassinato de Margaret Thatcher sairá em Março na Jacarandá. E o mais recente romance de Martin Amis, The Zone of Interest, uma abordagem satírica dos campos de concentração, será publicado pela Quetzal.

Muitos prémios chegarão este ano às livrarias portuguesas. Os mais recentes livros do Nobel da Literatura 2014, Patrick Modiano, L’Herbe des nuits e Pour que tu ne te perdes pas dans le quartier são lançados pela Porto Editora. A obra que recebeu o Man Booker Prize 2014, A Senda Estreita do Norte Profundo, de Richard Flanagan está prevista para Fevereiro na Relógio D’Água. O Prémio Femina 2013, A Estação da Sombra, de Léonora Miano, sairá na Antigona em Abril. O prémio Alfaguara 2014, O mundo de fora, de Jorge Franco e Así empieza lo malo, o novo romance de Javier Márias, considerado pelos críticos do Babelia como a obra mais importante publicada em Espanha o ano passado sairão na Alfaguara.

O segundo volume de A Minha Luta, de Karl Ove Knausgård: O Homem Enamorado vai ser lançado pela Relógio D’Água em Maio e a Sextante termina a publicação da saga de Edward St Aubyn com o quinto volume Por Fim, em Abril.

Na Quetzal, sem data, sairá Cifra, do chinês Mai Jia uma das apostas do ano. Na Gradiva esperam-se os romances de Ian McEwan (The Children Act, Março), de Kazuo Ishiguro (The Burried Giant, Abril), de Peter Carey (Amnésia, Agosto) e de Umberto Eco (Número Zero, Maio). Na Marcador ainda sem título em português sairão os romances Imperial Bedrooms, de Bret Easton Ellis e Beautiful You, de Chuck Palahniuk.

Dois livros que só serão publicados nos Estados Unidos na próxima rentrée, em Setembro, estão já agendados para sair em Portugal na Dom Quixote. O colossal City on Fire, de Garth Risk Hallberg, que tem mil páginas e foi a sensação da Feira do Livro de Londres de 2013, será publicado ainda sem data e em Outubro podemos contar com Purity de Jonathan Franzen.

Portugueses na ficção e poesia

Quanto às novidades de autores portugueses sabe-se que a autora de culto Teresa Veiga, regressa à ficção com um livro de contos, a sair em Março na Colecção de Ficção de Língua Portuguesa da Tinta-da-china. António Lobo Antunes terá novo romance em Outubro, Da Natureza dos Deuses (D. Quixote). Haverá novo romance de Mia Couto, ainda sem título, na Caminho em Junho ou Outubro. Novo romance de Pepetela e livro em prosa de Nuno Júdice (D. Quixote).

Esperam-se também novos dois novos romances de João Tordo bem como um romance e uma nova enciclopédia da estória universal de Afonso Cruz (na Alfaguara). Novos romances de Pedro Vieira (Quetzal), de Jorge Reis-Sá (Guerra & Paz), dos prémios LeYa João Ricardo Pedro (D. Quixote) e Nuno Camarneiro (Se Eu Fosse Chão, D. Quixote em Abril), Inês Pedrosa (Desamparo, em Fevereiro na D. Quixote) e um novo romance de Ana Margarida de Carvalho, Grande Prémio de Romance e Novela APE, na Teorema.

Em Outubro, publicar-se-á na D. Quixote, a Antologia Poética de Adonis com tradução e Organização de Nuno Júdice. Em Fevereiro, na Relógio D’Água sairá Milreos, de João Miguel Fernandes Jorge e na Assírio & Alvim, um novo livro de poemas de Adília Lopes, Manhã. Em Março, uma edição da Obra Poética de Sophia de Mello Breyner Andresen na mesma editora incluirá alguns poemas inéditos que integram o espólio da autora em depósito na Biblioteca Nacional.