Papa: "Não se pode provocar nem insultar a fé das outras pessoas"

O líder da Igreja Católica defende que há limites para a liberdade de expressão, mas considera que o acto de matar pessoas em nome de uma religião "é uma aberração".

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Francisco chegou às Filipinas para uma visita de cinco dias Stefano Rellandini/Reuters

Depois de ter condenado os ataques terroristas da semana passada em França, referindo-se aos seus responsáveis como "fundamentalistas religiosos", o Papa Francisco quis deixar claro, nesta quinta-feira, que no seu entender há limites para a liberdade de expressão e que "ninguém pode insultar a fé das outras pessoas".

A bordo do avião que o levou do Sri Lanka até às Filipinas, para uma visita de cinco dias, Francisco disse que "todas as religiões que respeitam a vida e a pessoa humana têm dignidade", quando questionado por um jornalista francês sobre a liberdade religiosa e os limites da liberdade de expressão.

Na pergunta de Sebastien Maillard, do jornal La Croix, não estava nenhuma referência directa aos ataques terroristas contra o jornal Charlie Hebdo e uma mercearia kosher em Paris, mas o Papa fez questão de sublinhar que era sobre isso que ia falar: "Falemos com clareza. Vamos falar sobre o atentado em Paris."

"A liberdade religiosa e a liberdade de expressão são ambos direitos fundamentais", começou por dizer o Papa, antes de proferir uma outra declaração definitiva: "Não se pode matar em nome de Deus. Matar em nome de Deus é uma aberração."

Apesar de tudo, defendeu o Papa Francisco, há limites para a liberdade de expressão: "Temos a obrigação de dizer a verdade abertamente, mas sem ofendermos."

Para o líder da Igreja Católica, ninguém pode estranhar que se responda com violência quando se "ridiculariza as religiões dos outros", um argumento que ilustrou com a ajuda de Alberto Gasbarri, responsável pela organização das visitas papais.

"É verdade que não devemos reagir com violência, mas se o dr. Gasbarri, que é um grande amigo, ofender a minha mãe, deve estar preparado para levar um soco. É normal. Não se pode provocar, não se pode insultar a fé dos outros. Não se pode ridicularizar a religião dos outros", afirmou o Papa Francisco.

"Há muita gente a difamar as religiões, a ridicularizar as religiões dos outros, e isso provoca as pessoas", reforçou. "Há um limite. Todas as religiões que respeitam a vida e a pessoa humana têm dignidade. E eu não posso brincar com ela. É um limite."

Na segunda-feira, o líder da Igreja Católica tinha comentado os ataques terroristas da semana passada sem qualquer referência ao tema da liberdade de expressão.

"Ainda antes de eliminar seres humanos em assassinatos horríveis, o fundamentalismo religioso elimina o próprio Deus, transformando-o num mero pretexto religioso", disse o Papa Francisco na Santa Sé.

Na primeira edição depois do massacre de quarta-feira da semana passada, o jornal satírico Charlie Hebdo voltou a pôr na primeira página uma caricatura do profeta Maomé, mas também reservou espaço para referências à Igreja Católica e ao Papa Francisco.

O novo director, Gérard Biard, assina um editorial repleto de críticas ao que considera ser a hipocrisia de algumas reacções após o ataque terrorista, e diz que o maior motivo de riso na redacção foi o facto de os sinos da catedral de Notre Dame terem repicado em honra do jornal.

"Na última semana, o Charlie, um jornal ateu, fez mais milagres do que todos os santos e profetas juntos", escreve Biard, sublinhando, com ironia, que o jornal conquistou "muitos novos amigos".

O editorial termina com uma referência directa ao Papa, lembrando a entrada de oito mulheres do movimento feminista Femen na Catedral de Notre Dame, em Fevereiro de 2013, num protesto que serviu para marcar a renúncia do Papa Bento XVI: "Queremos enviar uma mensagem ao Papa Francisco, que também 'é Charlie' esta semana: não aceitamos que os sinos de Notre Dame repiquem em nossa honra a não ser que sejam tocados pelas activistas da Femen."