Crítica

O autor prêt-a-porter

O realizador de Longínquo era, talvez, um cineasta mais humilde e mais justo para com os seus limites do que o de Sono de Inverno: filma para inscrever o seu nome numa espécie de estilo prêt-a-porter do cinema de autor.

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Há todo um filme a percorrer – e quase três horas e meia dele – para chegar a algo que ele podia ter sido.

Até lá desenham-se, com redundância, círculos à volta de um objectivo: destruir as virtudes intelectuais e morais de um intelectual – cenário: a Anatólia coberta de neve. Essa estratégia cobre-se de outra, e também com alguma violência: com este filme, Nuri Bilge Ceylan parece interromper a incontinência formalista dos seus últimos trabalhos, apoiando-se agora, fundamentalmente, nos diálogos, que percorrem a moral, a religião e todo o mundo, sendo através das palavras que as personagens se constroem e destroem.

Se pensarmos que a personagem principal é um homem vaidoso, dominante e capaz de oprimir com a elegância (personagem para o qual o realizador olha, aliás, com respeito e gravidade), podemos ouvir aqui o embate surdo da auto-reflexão, algo que se ouvia já em outros filmes do realizador, como em Climas, em que Ceylan e a sua mulher interpretavam um casal. Isso vibra, é um facto. Mas o dispositivo de diálogos e situações é utilizado aqui da mesma forma incontinente como, antes, Ceylan utilizava os travellings, confirmando-se que o realizador de Clouds of May (1999) e Longínquo (2002) era, talvez, um cineasta mais humilde e mais justo para com os seus limites, que ele talvez acreditou que terem sido alargados pelos rituais dos festivais de cinema, até ao momento em que passou a mesmo a querer inscrever o seu nome numa espécie de estilo prêt-a-porter do cinema de autor.

Era uma vez na Anatólia, por exemplo, acabava por ser uma involuntária demonstração da impossibilidade de ser Theo Angelopoulos; aqui mostra-se que não é possível ser Ingmar Bergman apesar de Sono de Inverno ser, fundamentalmente, um conjunto de cenas de uma vida conjugal. Um movimento de câmara – a sequência final – a afastar-se de uma casa, o céu a desfazer-se em neve, lá dentro um casal... era isto. não era?