Jardim sai de cena. E agora, qual a alternativa?

Jardim apresenta esta manhã o pedido de demissão de presidente do governo regional. No beco sem saída em que se barricou, isolado interna e externamente, sem “milhões para fazer inaugurações e ganhar eleições”, vai provocar eleições antecipadas.

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Daniel Rocha

Com o PSD completamente rendido a Miguel Albuquerque, a aposta é na renovação da maioria absoluta, a obter em eleições a realizar no mais curto prazo, para não perder a dinâmica mobilizadora da disputa interna e do congresso. Espectadora e expectante, a oposição divide-se em busca de uma alternativa.

“Nos últimos meses a oposição regional ficou sentada no sofá à espera que o PSD-Madeira se despedaçasse em facções. Enganou-se redondamente”, comentou Albuquerque no congresso da unanimidade. “Enquanto a oposição esperava na sua zona de conforto”, no partido maioritário soou o “toque de rebate”. Um sublime “elixir de renovação” invadiu o centro de congressos da falida fundação social-democrata, onde os militantes transferiram o unanimismo de Jardim para o novo líder, e cerraram fileiras para não perder a hegemonia do poder que mantém desde 1976.

Hesitantes, num jogo do rato e do gato, os partidos da oposição entretiveram-se nos últimos tempos a discutir na praça pública projectos de coligação. Sem abdicar de interesses sectários e de ambições pessoais de seus dirigentes. Convictos de que a saída de Jardim de cena, mais cedo ou mais tarde, garantiria, per si, um passeio triunfal em direcção à Quinta Vigia.

“O PSD mudou de cara, mas não mudou de corpo”, alerta José Manuel Rodrigues, desde 2011 líder do CDS/PP, o maior partido da oposição regional. “Mudou de líder, mas o partido mantém-se o mesmo e que os que construíram a máquina laranja que usou e abusou do poder ao longo de 40 anos, continuam a reinar no partido. Corremos o risco de continuar a ter muito jardinismo, apesar da saída de Jardim”, diz Rodrigues, advogando que só um resultado eleitoral diferente e uma aposta numa alternativa poderá “conduzir a Madeira a um novo ciclo político, económico e social”.

O CDS/PP tinha desafiado o PS para uma coligação que, excluídos os seus líderes regionais, fosse liderada por um individualidade independente de reconhecida competência e credibilidade. Agora, eventualmente a espreitar uma oportunidade para concretizar a nível regional a coligação que governa o país, considera desejável que das próximas eleições não resulte uma maioria absoluta de um só partido. “Basta de maiorias absolutas que se confundem com poderes absolutos”, alega.

O convite do CDS/PP foi liminarmente recusado pelo segurista Victor Freitas, líder do PS, que não abdica da sua candidatura a presidente do governo regional, mesmo depois de nas eleições internas ser derrotado pelos apoiantes de António Costa que reclamavam também a realização de primárias para escolher o concorrente à Quinta Vigia.

O nome de Freitas é também rejeitado pelos pequenos partidos que pretende confederar e liderar nas legislativas. “Saber reconhecer as nossas limitações é fundamental para se conseguir dar passos”, aconselha Gil Canha, do PND, desafiando o dirigente socialista a pôr a “mão na consciência” e “não atrapalhar” a construção de uma alternativa credível. “Se o PS  apresentasse outro cabeça-de-lista que fosse consensual, os outros partidos estariam disponíveis para enfrentar esse combate político”, garante o antigo vereador da câmara do Funchal.

Embalado pelos resultados das autárquicas, em que o PSD perdeu sete das 11 câmaras com que dominava todo o poder local no arquipélago, Freitas admitiu então concretizar uma coligação para, indo ao encontro da expectativa da oposição regional, poder apear os sociais-democratas do poder. Mas deixou cair a ideia, optando simplesmente por advogar um indefinido projecto de mudança tendo por objectivo “uma Madeira democrática, aberta e plural”.

Também o PCP se excluiu de qualquer aliança, em decisão tomada em congresso. Concluídas as eleições internas do PSD, “coloca-se agora a clara urgência da libertação da região da política de direita, a urgência da ruptura e da alternativa, visando um novo rumo para a Madeira”, diz o líder comunista Edgar Silva. Tal libertação, frisa, “não passa pela substituição de uns por outros no comando da política de direita”.

Com a saída de Jardim que, na opinião de Hélder Spínola, deputado do PND, “soou mais a expulsão”, abre-se um novo ciclo “necessariamente muito distinto daquele a que a Madeira esteve habituada”. O desfecho da sua governação e do PSD foi “uma autêntica vacina na sociedade madeirense”, de tal forma que os militantes “escolheram para seu novo lidera quele que, recentemente, mais atacou as opções políticas” do próprio partido.

Agora, frisa Spínola, com a saída de cena de Jardim, que com o seu “estilo truculento e boçal ofuscava outros valores que a Madeira possui”, esta região “terá de fazer um outro caminho” porque a sociedade madeirense “aspira por um novo modelo de desenvolvimento, sustentável, equilibrado, com alicerces e horizonte”. Por isso considera expectável que os madeirenses queiram “aproveitar esta oportunidade para ver, pela primeira vez na vida, outros partidos políticos a governar a região”, um desafio que a oposição “terá de saber aproveitar”, não “de forma isolada”, mas através de um projecto “comum, aglutinador, capaz de atacar os graves problemas sociais e económicos que a Madeira enfrenta”.

Tal desafio, defende também José Manuel Coelho, deputado do Partido Trabalhista, passa pela constituição de “alargada coligação de esquerda tendo sempre como horizonte os ideais da Revolução de Abril”, para “reconquistar a autonomia perdida” e pôr cobro às “ideias da subserviência  aos caciques do obscurantismo jardinista que foi o sucedâneo do fascismo, da falta de liberdade e de democracia do regime da Salazar e Marcello Caetano”.