Crítica

O mundo é um palco

A Palma de Ouro de Cannes é um filme magnífico sobre gente que procura reencontrar o equilíbrio num mundo gelado.

A palavra que melhor define aquilo de que o espectador se deve munir ao entrar para Sono de Inverno é “paciência”. O que é suficiente para assustar o mais incauto, mas não deve ser tomado como negativo: o espectador precisa de paciência porque o filme de Nuri Bilge Ceylan é como os medicamentos de acção lenta, que levam tempo até produzirem o efeito desejado.

No caso de Sono de Inverno, é preciso tempo para nos envolvermos nos pequenos dramas quotidianos num canto remoto da Turquia e começarmos a desatar os nós passivos-agressivos que o novo filme do realizador turco, premiado com a Palma de Ouro em Cannes 2014 e inspirado livremente em contos de Anton Tchekov, nos apresenta.

É preciso tempo para perceber a dimensão do que se passa neste Hotel Othello, escavado nas montanhas da Anatólia, durante um inverno rigoroso com poucos turistas. O tempo é a chave de Sono de Inverno como já o fora do anterior Era uma Vez na Anatólia (2011, também inspirado por Tchekov) – o tempo que decorreu antes de entrarmos na sua história, o tempo que se encarregou de destruir os sonhos das suas personagens, que se deixaram aprisionar como em âmbar e se debatem em desespero sem saber como lhe escapar. À superfície, o filme é a história de um casamento a dar as últimas, entre um actor reformado que gere o hotel e as propriedades familiares e a sua esposa mais jovem que se entretém com obras de caridade. Mas é também sobre o mal-estar da irmã do actor, que se ressente do papel secundário a que o destino a condenou; sobre um dos inquilinos do actor, cujo orgulho o impede de aceitar a generosidade sem segundas intenções; e sobre o actor que continua a ver o mundo como um palco e acredita genuinamente que basta parecer para esconder o que se é. E é, também, sobre o abismo que progressivamente se alarga entre ricos e pobres, crentes e ateus, citadinos e rurais, intelectuais e trabalhadores. Sobre a Turquia moderna na encruzilhada polarizadora a que Recep Tayyip Erdogan a levou, mas que é também um espelho da polarização social que alastra um pouco por todo o mundo. 

Parece muito? Parece certamente ambicioso. Talvez em demasia – afinal, Nuri Bilge Ceylan faz hoje parte de uma certa elite do cinema de autor global, que dramatiza as crises existenciais dos nossos dias de modo algo sisudo, e que parece pregar aos convertidos de uma posição de conforto. Mas isso não leva em conta o rigor quase maníaco com que Ceylan estrutura metodicamente tudo o que aqui se passa, com a precisão de relojoeiro com que dispõe as peças, com a atenção que empresta a cada um dos seus actores, com o modo como torna o cenário, fotografado por Gökhan Tiryaki com uma beleza de cortar a respiração, em personagem a tempo inteiro da sua história. A paciência com que entramos em Sono de Inverno será sobejamente recompensada pelo fim de mais de três horas de projecção que passam a voar – porque as passámos com gente de carne e osso que, se calhar, até reconhecemos do mundo à nossa volta.