Opinião

Madeira sem Jardim de flores

Soares e Jardim continuarão a não saber sair de cena, embora o primeiro tenha mais imprensa.

O fim do dito “jardinismo” merece uma análise. Estou seguro que este será um “case study”, de entre outros, na Ciência Política e nas técnicas de comunicação. Jardim marca indelevelmente a cultura democrática portuguesa desde Abril, para os seus maiores detractores ou para os seus “fiéis” seguidores.

Todavia, o mais importante é o simbolismo do combatente empedernido dos “cubanos”. Representa ele uma parte de Portugal: o populismo miscigenado com uma certa concepção de que se sabe ler a alma lusa. Se, como me dizia um amigo, Salazar e Almeida Santos o souberam fazer como ninguém, julgo que Alberto João também se junta a esta galeria, embora em feição regional. Nunca quis ser uma personalidade nacional, por convicção ou por destino. Por destino interessava-lhe um inimigo comum para fazer da Madeira uma ilha mais ou menos incaracterística, pejada de obras públicas, uma espécie de pequena Lisboa de oligarquias e onde o pensamento único se cultivou, ao lado da imagem do líder, por via de infindas teias de interesses que tiveram no emprego público denominador comum.

Dificilmente se crê que Jardim tenha acreditado no próprio Jardim. Pelo menos no mais trauliteiro, despojado do mínimo senso de convivência democrática. Mas enquanto a receita trazia dividendos, para quê mudar? A horda de apaniguados que o seguiam pelas praias do Porto Santo e os pais que levavam as criancinhas a tirarem fotografias com o D. Sebastião insular marcaram-me até hoje. Parece que o nosso Povo gosta mesmo de líderes musculados, de um inimigo quixotesco que já não é Castela, que não pode ser a Alemanha pela grande dependência e pelo beija-mão de Passos à “D. Pragmática”.

A Quinta Vigia foi lugar de resistência pela resistência. O “jardinismo” não tinha verdadeira ideologia. Supostamente visava-se refundar a República, alterar a Constituição com mais poderes para as Regiões Autónomas, e que mais? Cientes do fogacho de pseudo-ideias, os deputados ao Parlamento foram quase sempre peões nas mãos do grande líder que se dizia dos últimos sociais-democratas mas que, paradoxalmente, se aproximou em excesso da discursividade norte-coreana.

É evidente que por entre a torrente de lava à qual nem as asneiras explícitas faltaram e um certo “sr. Silva”, muitas verdades disse: a podridão da estrutura do Estado, a existência de lóbis (embora errando os alvos). E o PSD foi-se servindo de Jardim para amplificar o que muita gente pensava, como se a figura de um “tipo útil” mesclada com a de “enfant terrible” viesse mesmo a calhar, ainda que em troca de um monumental défice a fazer “pendant” com a monumentalidade das obras públicas cujo “ex libris” final é a generosidade de certas partes da estátua do CR7.

Alberto João foi sempre democraticamente eleito. Facto. A maioria dos eleitores identificava-se com a sua política. Parece que sim, mesmo que as teias de relações num pequeno território também ajudassem, a par de uma imprensa “domada”. O que terá mudado, então, para que Jardim percebesse que estava na hora, finalmente? Para além do tempo não ser eterno, sobretudo em política, há uma nova geração de madeirenses muito mais viajados, sabedora da inexistência da dicotomia maniqueísta “nós”/“coloniais safados” ou do estafado “eu ou o caos”. E a luta da sucessão provoca sempre feridas difíceis de sararem. Jardim não deixou no seu lugar de líder do PSD-Madeira um “delfim”, mas um opositor, ainda que mais ou menos recente. Albuquerque percebeu o terreno e adiantou-se às demais feras ululantes em volta da carnificina que se prepara em torno do legado jardinista. Legado que Eça teria magistralmente descrito (acredito mesmo que as duas figuras, se a História não tivesse destas maldades, partilhariam lautos banquetes regados a “cubanos”, desta vez os charutos).

É verdade que os Carnavais vão perder graça sem o líder bonacheirão e que os comícios do Chão da Lagoa, bem regados, deixarão as “boutades” e os “sound bites” que nos faziam rir. A política portuguesa fica ainda mais cinzenta, pois Alberto João era um arco-íris, mesmo quando a asneira era palmar. Genuíno no modo de ser e estar ou adaptado ao que o seu Povo queria ouvir, ao menos no início do regime pós-democrático, ou um misto de ambos (mais provável), não deixaremos totalmente de ouvir a sua voz. Mesmo que com muito menos palco, não creio que Jardim vá ficar de mantinha nas pernas a afagar o seu gato com uma estranha crise de identidade. Soares e Jardim continuarão a não saber sair de cena, embora o primeiro tenha mais imprensa.

Em boa verdade, Soares, Marinho e Pinto e Jardim formam uma espécie de rábula “três estarolas”, populista, demagógica, quase demencial, mas com imensa piada. São políticos em parte desalinhados, sem a formatação dos “jotinhas”, inconvenientes, incorrectos, mas tudo menos redondos e chatos. E rir faz muita falta neste país sombrio, como Gil Vicente intuíra com o “ridendo castigat mores”. Especialmente neste início de ano frio e em que o riso aquece a alma, gosto de pensar nestas três personagens como colheitas seleccionadas de “Glühwein”. Saúde!

Professor universitário