Charlie, um jornal contra todos há 45 anos

Nascido em 1970, o Charlie Hebdo respondia a ameaças com renovadas provocações. Depois do atentado de 2011 que destruiu a redacção, a primeira página decretava que "o amor é mais forte do que o ódio".

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Homenagem em Paris às vítimas do ataque DOMINIQUE FAGET/AFP
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Em Setembro de 2012, no auge das violentas manifestações no Médio Oriente e Norte de África contra o filme anti-islão A Inocência dos Muçulmanos, o jornal satírico Charlie Hebdo lança uma acha para a fogueira: na primeira página, um rabino empurra um mullah em cadeira de rodas, numa alusão a Amigos Improváveis, sucesso de bilheteira em França sobre a amizade entre um aristocrata tetraplégico e um jovem senegalês de um bairro problemático.

Sob o título Amigos Improváveis 2, essa caricatura do Charlie Hebdo era também um desafio à eterna questão sobre os limites do humor, na forma de um balão com o aviso "Não se deve brincar com isto!". Neste caso, não se devia brincar com as multidões que nessa altura cercavam embaixadas no Iémen, Sudão, Egipto, Paquistão ou  Líbia, mas também em França, em protestos que fizeram mais de 50 mortos, entre os quais o embaixador norte-americano Christopher Stevens, num ataque ao consulado dos EUA em Bengasi.

Mas "não brincar com isto" era a única coisa que não valia a pena pedir aos caricaturistas e redactores do Charlie Hebdo. Todos eles sabiam o que estava em jogo. Muitos, como o director Stéphane Charbonnier (Charb), Bernard Velhac (Tignous) ou os mais velhos Jean Cabut (Cabu) e Georges Wolinski, pagaram com a vida o preço de se manterem fiéis à ideia sintetizada um dia pelo humorista norte-americano George Carlin: "Penso que o dever de um humorista é descobrir onde se traça a linha, e ultrapassá-la deliberadamente."

Dias antes da edição que pôs na capa um rabino e um mullah, o Governo francês apelou à direcção do Charlie Hebdo para que pensasse melhor sobre o assunto, com receio de que a violência das manifestações no Médio Oriente e no Norte de África se alastrasse ao coração da Europa.

"No contexto actual", disse então o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Laurent Fabius, "e perante a transmissão deste vídeo absurdo [A Inocência dos Muçulmanos], há emoções fortes em muitos países muçulmanos. É mesmo sensato ou inteligente deitar gasolina na fogueira?"

A resposta do chefe de redacção, Gérard Biard, resumiu anos de confrontação com o poder político, de batalhas judiciais com celebridades, de lutas pelo que ele e os seus colegas no Charlie Hebdo entendiam ser a liberdade de expressão num Estado laico: "Somos um jornal que respeita a lei francesa. Se houver uma lei diferente em Cabul ou em Riade, não vamos sequer dar-nos ao trabalho de respeitá-la."

O assunto foi tão sensível que o Governo francês proibiu um protesto marcado para 22 de Setembro desse ano, por todo o país, três dias depois de a revista ter saído para as bancas. Mais uma vez, a resposta do Charlie Hebdo mostrou que o negócio do jornal não era apenas a confrontação: "Porque é que proíbem essas pessoas de se expressarem?", perguntou o director. "Nós temos o direito de nos expressarmos e eles também têm o direito de se expressarem."

A gravidade do ataque desta quarta-feira uniu as vozes de líderes políticos a milhões de tweets e posts nas redes sociais, sob o lema "Eu Sou Charlie", a frase que ocupa agora a quase totalidade do site do semanário (para além disso, só um link para uma página com a mesma frase escrita em sete línguas, a primeira das quais árabe).

Um espinho na política
O Charlie Hebdo nunca teve uma relação fácil dentro de portas, numa França dividida entre a tradição da sátira e a reserva da vida privada, especialmente se estiverem em causa líderes políticos.

O próprio nascimento do semanário, em 1970, das cinzas de outra dor de cabeça chamada Hara-Kiri, é um testemunho dessa fricção.

O sucesso do Hara-Kiri, uma publicação mensal fundada em 1960, deu origem a uma versão semanal em 1969, chamada Hara-Kiri Hebdo, que não chegou a viver dois anos. A culpa foi da edição que assinalou a morte do então Presidente Charles de Gaulle, em Novembro de 1970, na sua propriedade em Colombey-les-Deux-Églises, uma semana depois da morte de 146 pessoas num incêndio na discoteca Club Cinq-Sept.

Os cartoonistas do Hara-Kiri juntaram as duas coisas e o que saiu foi um título que levou o Governo francês a interditar o semanário: "Bal tragique à Colombey: 1 mort" (Baile trágico em Colombey: 1 morto).

Para contornar a proibição, a equipa do Hara-Kiri juntou-se à volta de um novo projecto semanal, a que chamou Charlie Hebdo – um nome inspirado numa outra revista da época, a Charlie Mensuel, e uma piada pouco discreta com o nome do recém-falecido Presidente francês. Ainda em Novembro de 1970, dias depois de o antecessor Hara-Kiri ter sido banido, o Charlie Hebdo saía para as bancas com a manchete "Não há censura em França".

Caricaturas de Maomé
Depois de um interregno entre 1981 e 1992, devido a dificuldades financeiras, o Charlie Hebdo alcançou fama mundial ao republicar as caricaturas de Maomé feitas pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten, em 2006.

Cinco anos mais tarde, em Novembro de 2011, a redacção da revista é destruída com uma bomba incendiária, depois de ter lançado uma edição com o nome Charia Hebdo (um trocadilho com a palavra "sharia", a lei islâmica), e apresentada como obra do próprio profeta Maomé.

Apesar de os momentos mais controversos – e trágicos – terem sido provocados por sátiras ao extremismo islâmico, o Charlie Hebdo nunca poupou nada nem ninguém. Uma semana depois de ter sido alvo de um atentado, em finais de 2011, a equipa do semanário respondeu com uma capa em que se vê um cartoonista a beijar um muçulmano na boca, debaixo do título "O amor é mais forte do que o ódio".

Charb, o director sem medo, disse então ao jornal Le Monde que não iria suavizar nem o seu discurso nem os seus desenhos: "É preciso continuar até que o islão seja tão banal como o catolicismo." Na mesma altura, Gérard Biard, o chefe de redacção, explicou o que está nos genes do Charlie quando o assunto é a religião: "Somos um jornal que é contra as religiões assim que elas entram nos domínios público e político. Não é suposto que uma pessoa se identifique através de uma religião, pelo menos num Estado laico."