Maria Ana Bobone: “O fado é a minha casa mas não impede outras facetas no meu canto”

A fadista Maria Ana Bobone concretizou um sonho antigo. Gravou um disco em inglês com sabor country, folk e pop-rock: Smooth.

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“A ideia-base foi explorar o meu lado de compositora, que tende para este tipo de música” Frederico Van Zeller

Vinte anos depois de Alma Nova, o seu disco de estreia, a fadista Maria Ana Bobone mostra-nos uma nova alma, mas à margem do fado e em inglês. Chama-se Smooth (daí que a estação de rádio homónima lhe tenha dado imediato apoio) e revela influências country, folk e pop-rock.

“A ideia-base foi explorar o meu lado de compositora, e eu quando componho tendo naturalmente para este tipo de música. Corresponde, além disso, a uma vontade que sempre tive de explorar outros géneros musicais.” Que, aliás, vinha da sua infância e juventude: “Desde pequena que gosto de música country, de folk, e depois há as influências pop da juventude, das festas. Em minha casa, apesar de eu ter uma família bastante musical, não havia muitos discos. Havia, por exemplo, Peter, Paul & Mary, mas não havia jazz. E até aos 12 anos estudei em inglês, portanto para mim é coisa muito natural falar e cantar em inglês.”

Tudo se conjuga, portanto, para justificar esta aventura. Mas há ainda outro argumento. “Sempre participei em projectos um pouco marginais ao fado, como nas colaborações que fiz com o Ricardo Rocha e o João Paulo Esteves da Silva. O meu disco anterior, Fado & Piano, é já uma personalização muito própria do fado, recuperando a ideia do fado de salão com uma linguagem actual. Ajudou-me a dar este passo.”

Primeiro gravou um tema e divulgou-o na internet: If the stars were to waltz, com música dela e letra do contrabaixista Rodrigo Serrão, co-produtor de Fado & Piano. Gravou-o em dueto com Mikkel Solnado e as reacções incentivaram-na a continuar. “Ninguém estranhou, nem mesmo o público que está habituado a ouvir-me cantar fado. Há quem me pergunte por que não cantei em português, mas o inglês permitiu-me uma abordagem diferente. A língua tem esse papel. No fundo, não parece a mesma cantora.”

Contra a leucemia
Quando começaram as gravações, no início de 2014, pensavam fazer uma continuação de Fado & Piano (que, aliás, já tinha uma canção em inglês, Love Ballad, com letra de Fernando Pinto do Amaral e música de Pedro Caldeira Cabral). “Mas depois de muito falarmos, chegámos à conclusão que era isto que eu queria fazer agora.”

Outra coisa que ajudou foi um convite da APCL (Associação Portuguesa Contra a Leucemia) para uma actuação de beneficência. “Eles ficaram encantados com a atitude e quisemos continuar essa ligação. Como a APCL precisava de um hino e nós tínhamos a canção My wings semiconstruída, o Rodrigo adaptou a letra para uma mensagem mais de esperança, de voar, de libertação, e surgiu essa música [que foi adoptada como hino pela APCL, para a qual revertem também as receitas da venda do disco]. Depois veio outra, e mais outra, e o disco foi surgindo.”

Rodrigo Serrão diz, por seu turno, que apesar de ter dado muito trabalho, foi muito fácil. “A única preocupação de um produtor quando faz um trabalho deste género é perceber a identidade da artista e ajudá-la a chegar onde ela quer chegar. É engraçado que a maior parte dos músicos no disco são do fado e, quer para ela quer para nós, foi muito natural abordar estas linguagens.” Maria Bobone acrescenta, rindo: “Acho que todos eles têm alter-egos aqui a falar.”

Nascida no Porto, a 5 de Dezembro de 1974, para Maria Ana Bobone Smooth foi mais uma experiência musical, e muito satisfatória. Mas que não a afastará do fado, garante. “Continuarei sempre a cantar fado, porque é a aminha casa, no fundo, foi sempre onde eu morei artisticamente. Mas isso não impede que haja outras facetas no meu canto.”