Doente morreu após espera de várias horas na urgência de Santa Maria da Feira

Família diz que doente, com vómitos, morreu pouco depois de ser atendido, cinco horas após dar entrada. Hospital de São Sebastião, em Santa Maria da Feira, não confirma tempo de espera.

Foto
Ao doente foi dada uma pulseira amarela, e mais tarde a laranja, de prioridade mais elevada Adriano Miranda

Um homem morreu no serviço de urgências do Hospital de Santa Maria da Feira, neste domingo. A notícia divulgada pela SIC Notícias foi confirmada pela directora do gabinete de relações públicas do Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga (CHEDV), Sílvia Silva, que não esclareceu qual a causa da morte do doente.

“O hospital confirma a morte de um doente no serviço de urgências. O Conselho de Administração do CHEDV vai abrir um processo de averiguações”, disse ao PÚBLICO, justificando não estar autorizada a dar mais informações até estar concluído o inquérito: nem a hora a que o doente deu entrada – e que a família diz ser 16h30 – nem a hora a que morreu – que os mesmos familiares dizem ter sido às 21h30.

“O utente em questão foi admitido no serviço de urgência do hospital, tendo sido triado com a prioridade de amarela de acordo com o protocolo de triagem de Manchester”, informa o hospital em comunicado. A pulseira amarela é a terceira numa escala de prioridade com cinco cores. “Perante o agravamento do seu estado de saúde foi feita nova triagem, tendo então sido atribuída a cor laranja. Nesta situação o utente foi imediatamente observado por um médico especialista de medicina interna", acrescenta a nota do hospital.

Já a família do homem de 57 anos pondera apresentar queixa-crime por negligência contra a unidade hospitalar e contra os médicos que estavam ao serviço nessa noite. Segundo Ângelo Pereira, um dos sete irmãos da vítima, o hospital recusou-se a fazer a autópsia. “Não querem autopsiá-lo, querem que sejamos nós a pagar 1400 euros. Sabemos que podemos ir ao Ministério Público e pedir que o nosso irmão seja autopsiado”, conta ao PÚBLICO. “Sabemos que não é o dinheiro que o vai trazer de volta, mas queremos saber as causas da morte e por que não foi atendido”, acrescenta.

Esta terça-feira, a família voltará ao hospital para apresentar queixa no livro de reclamações e reunir-se-á com um advogado para saber o que poderá fazer nesta situação. O pedido de autópsia é ponto assente e o funeral deverá realizar-se esta quarta-feira. Ângelo Pereira confessa que não percebe por que motivo o irmão ficou cinco horas à espera de ser atendido, com vómitos e náuseas, e garante que uma das médicas que estava ao serviço lhe disse que “achava muito bem que fizéssemos a reclamação porque não havia médicos suficientes para tantos doentes”.

A família tem testemunhas de outros doentes que estavam nas urgências naquela noite, alguns dos quais se terão revoltado com a situação. “Uma pessoa que vai para o hospital, que acaba por falecer, está cinco horas à espera num corredor… não é um animal que ali está. Chama-se um médico, chama-se um enfermeiro, chama-se uma médica, e ninguém nos liga nenhuma. Como se pode deixar uma pessoa cinco horas num corredor?”, pergunta. Antes, Ângelo Pereira, à SIC Notícias, já tinha explicado que uma das irmãs tentou, várias vezes, sensibilizar médicos e enfermeiros para a necessidade de o doente, com vómitos, ser atendido. Sem sucesso. “Só lhe diziam que tinha de esperar pela sua vez”, relatou.

Também de acordo com a familia, os vómitos recomeçaram pelas 21h. "Foi aí que os médicos vieram buscá-lo. Um minuto ou dois depois, veio uma médica dizer-nos que ele tinha falecido, que tinham feito tudo o que era possível mas não conseguiram salvá-lo”, contou Ângelo Pereira.

O doente que morreu tinha 57 anos, era solteiro, tinha sido sapateiro, estava agora desempregado. Vivia com a irmã mais velha e uma sobrinha. Não apresentava problemas de saúde. Há cerca de 10 anos, tinha tido indícios de um ligeiro AVC.  

A situação da falta de recursos humanos no Hospital da Feira tem merecido a atenção de vários partidos políticos que já questionaram o Governo. Recorde-se que, no ano passado, a Ordem dos Médicos revelou publicamente a falta de 40 médicos em 14 especialidades na unidade hospitalar feirense que serve seis concelhos.  

Na passada segunda-feira, também o Hospital de São José em Lisboa anunciou a abertura de um inquérito à morte de um doente que terá estado à espera seis horas na madrugada de sábado, 26 de Dezembro. Na altura, a  administração hospitalar estava a aguardar o resultado da realização de uma autópsia anátomo-clínica.