Hollande: “Gregos são livres de decidir o seu destino” mas devem respeitar compromissos

Declaração do Presidente francês depois de Der Spiegel ter escrito que Merkel acha "possível de gerir" saída da Grécia do euro.

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Estará mesmo Angela Merkel disposta a deixar a Grécia sair do euro? Murizio Gambarini/AFP
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François Hollande diz que não se deve teorizar sobre eventual saída da Grécia do euro Remy de la Mauviniere//AFP

A pressão sobre a Grécia continua: fontes do Governo de Berlim citadas pela revista Der Spiegel dizem que Angela Merkel vê como “inevitável” uma saída da Grécia do euro se as eleições antecipadas de 25 de Janeiro derem a vitória ao Syriza, partido que defende a reestruturação da dívida. E que a chanceler alemã pensa que uma saída da Grécia, que conta com apenas 2% da economia europeia, seria “possível de gerir”.

O Presidente francês afirmou nesta segunda-feira que países como a Espanha e a Grécia pagaram um preço elevado para permanecer no euro e que cabe aos gregos decidir se querem continuar com a moeda única. Mas defendeu que um futuro governo grego deve manter os compromissos já assumidos.

Numa longa entrevista à rádio francesa France Inter radio, em que abordou vários temas, François Hollande disse ainda que não cabe ao resto da Europa avançar hipóteses sobre a saída da Grécia com base em possíveis resultados eleitorais. “Neste momento, não devemos teorizar sobre se, com base na votação grega, vão continuar ou não como membro da zona euro. Os gregos são livres de decidir o seu destino. Mas, tendo dito isto, há alguns compromissos que foram feitos e esses têm de ser respeitados, claro”.

As declarações de Hollande surgem depois de, no domingo, a revista alemã Der Spiegel ter dito que o Governo alemão está a antecipar uma saída grega do euro no caso de as eleições legislativas serem ganhas pelo partido Syriza, que tem vindo a defender uma reestruturação da dívida.

Fontes do Governo de Berlim citadas pela revista dizem que Angela Merkel vê como “inevitável” uma saída da Grécia do euro se as eleições antecipadas de 25 de Janeiro derem a vitória ao Syriza. E que a chanceler alemã pensa que uma saída da Grécia, que conta com apenas 2% da economia europeia, seria “possível de gerir”.

Esta é a mais recente declaração de responsáveis europeus no que o Syriza já classificou como “uma operação de terror”. O Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, por exemplo, já disse que preferia ver “caras conhecidas” no novo Governo grego e não “forças radicais”. O Presidente checo, Milos Zeman, afirmou mesmo numa entrevista que a Grécia deveria sair do euro.

Segundo a revista Der Spiegel a mudança de posição de Merkel em relação à Grécia é partilhada também pelo ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble. Os dois pensam que a crise do euro já passou a fase pior, que os riscos estão limitados e que depois de se considerar que “Portugal e Irlanda estão reabilitados”, “o perigo de contágio é limitado”. Ainda assim, existe o perigo de contágio para outras dívidas públicas de países do euro em dificuldades, cujo custo para se financiarem aumentaria, e apesar do pouco peso do produto interno bruto (PIB) da Grécia no total da zona euro, boa parte da dívida grega está nas mãos de países como a Alemanha (65 mil milhões) e outros países europeus como França, Itália e Espanha - estes seriam perdidos, lembra o diário El País.

A política interna alemã mudou desde as últimas eleições gregas, com o surgimento do partido Alternativa para a Alemanha, que por décimas não elegeu deputados nas legislativas de 2013 e que defende o fim da política de resgates aos países em dificuldades. Em Berlim, discute-se se o artigo na Spiegel é apenas um meio de pressionar a Grécia ou se há mesmo uma mudança de opinião em Berlim.

“A CDU não deveria intrometer-se com ameaças nas eleições democráticas de um país europeu”, reagiu o líder parlamentar dos sociais-democratas alemães (SPD), parceiros de coligação de Merkel. “Parece-me contraproducente.”

O vice-chanceler e ministro da Economia, Sigmar Gabriel (líder do SPD), disse que “o objectivo do Governo alemão, da União Europeia e do Governo em Atenas é manter a Grécia no euro” e que “não houve e não há planos para o contrário”. “Por isso”, continuou”, não podemos ser chantageados e esperamos que o Governo grego, seja este liderado por quem for, cumpra o que foi acordado com a UE.”

Oficialmente, a chancelaria diz apenas que “o Governo tem como dado adquirido que a Grécia cumprirá os seus compromissos”.