Morreu Pino Daniele, inventor do blues napolitano

Cantor e compositor, renovador da canção napolitana por via do blues, Pino Daniele morreu aos 59 anos, vítima de enfarte.

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Pino Daniele num concerto em Nápoles, em 2013 Mario Laporta/AFP

Enchia estádios em Itália e salas conceituadas por todo o mundo. Cantor e compositor, Pino Daniele morreu na noite de 4 para 5 de Janeiro na sua casa na Toscana, vítima de enfarte, segundo as agências. Tinha 59 anos, promovia a reedição de um dos seus discos mais relevantes, Nero a Metà, com a banda original com que o gravou em 1980 e no seu site já se anunciava para Dezembro de 2015 uma tournée (que não fará) pela Alemanha.

Nascido Giuseppe Daniele a 19 de Março de 1955 no centro histórico de Nápoles, numa família modesta (o seu pai trabalhava no porto), Pino Daniele iniciou a carreira musical em 1976, como baixista na banda Napoli Centrale, colaborando ainda com o saxofonista napolitano James Senese, dez anos mais velho do que ele. Não tardou a gravar o seu primeiro LP, em 1977, que muitos consideram ainda hoje uma obra-prima: Terra Mia.

Apesar de não ter os mesmos traços de trovador que evidenciavam outros músicos seus contemporâneos, como Francesco Di Gregori, Fabrizio de André ou Lucio Dalla, Pino Daniele mostrou no seu primeiro disco algum “engajamento” social, com canções como Napule è, ‘O Padrone ou Libertà. Mas as suas influências musicais eram sobretudo o blues, o soul, o rock ou o funk, que misturava às raízes napolitanas, a ponto de se tornar criador de um género que ele apresentava como “taramblu”, mescla de tarantela e blues.

Os dois sucessores de Terra Mia foram álbuns vigorosos e muito elogiados pela crítica: Pino Daniele (1979) e o emblemático Nero a Metà (1980), este último lançado no mesmo ano em que ele fez as primeiras partes dos concertos de Bob Marley em Itália. Foi o seu trampolim para a fama. Desse ano em diante, partilharia palcos e discos com nomes como Wayne Shorter, Gato Barbieri, Mel Collins (King Crimson), Don Cherry, Richie Havens, Naná Vasconcelos, Trilok Gurtu, Robbie Krieger (The Doors), Phil Manzanera (Roxy Music), Jan Akkerman (Focus), Chick Corea, Ralph Towner, Pat Metheny, Al Di Meola, Salif Keita, Eric Clapton e os italianos Francesco Di Gregori, Franco Battiato, Eros Ramazzotti, Jovanotti ou Laura Pausini. Isto enquanto enchia estádios em Itália e salas como o Olympia de Paris ou o Apollo de Nova Iorque.

A sua carreira foi transitando, nos anos 2000, dos “taramblus” mais inspirados do início para um “melo-rock” mainstream, arrefecendo o entusiasmo da crítica mas ampliando o seu público. O regresso de Nero a Metà, relançado em Junho de 2014 numa edição especial com extras, trouxe de novo à ribalta os seus anos de ouro, que lhe renderam, numa tournée italiana (em Verona, juntou a banda original de 1980 a uma orquestra de 50 elementos), mais aplausos e o Prémio Mediterrâneo para “Arte e Criatividade”.

No dia 4 de Janeiro, Pino Daniele sentiu-se mal, na casa onde vivia, na Toscana, sendo de imediato conduzido ao Hospital de Sant’Eugenio, em Roma, onde viria a morrer, às 22h45m, segundo nota hospitalar. Para a história da música italiana, onde é considerado um dos principais compositores-intérpretes, deixa três dezenas de discos e a recordação de uma voz que, sob a inspiração primordial do blues, renovou a canção napolitana.