Editorial

2015, o fim das promessas infantis

Passos e Costa dão-nos pelo menos esperança de que 2015 não seja um comboio de promessas infantis.

Os debates quinzenais da Assembleia da República são vistos em média, no cabo, por uma pequena multidão. Não chega às 100 mil pessoas. Das que viram o último debate de 2014, nas vésperas de Natal, algumas ter-se-ão divertido com os “momentos marisco” da sessão — Ferro Rodrigues a falar do “mexilhão”, Nuno Magalhães de “lagostas”. Terá valido um sorriso, pouco mais.

Em 2015 vai ser preciso muito mais do que piadas na vida política. O ano vai fechar com uma eleições particulares: serão as primeiras legislativas a seguir ao fim da troika, as primeiras com António Costa à frente do PS e as últimas com Cavaco Silva em Belém.

A campanha eleitoral ainda está em “modus” suave, mas quando começar a sério todos tememos que a longa maratona eleitoral que nos espera se transforme na mãe-de-todas-as-demagogias. Portugal tem duas visões irreconciliáveis. Inspirados nos indicadores que mostram a economia a recuperar, há os que defendem a continuidade de políticas. Mas muitos vêem nesses mesmos números a prova de que a trajectória tem de mudar. O abismo entre estes dois mundos presta-se à demagogia e a promessas eleitorais ridículas. O país pede hoje propostas políticas claras, promessas realistas e sem demagogia. A discrepância entre as palavras e os actos é uma das principais razões para a “pouca estima” que os cidadãos sentem hoje pelos políticos. Todos nos lembramos: na campanha de 2011 Passos Coelho prometeu que não cortaria o subsídio de Natal dos funcionários públicos e três meses depois anunciou o corte; do mesmo modo que na campanha de 2009 José Sócrates prometeu não aumentar os impostos e oito meses depois aumentou.

A política, um cruzamento da gestão dos problemas de hoje com a visão para resolver os problemas de amanhã, já não aguenta mais promessas. Esse tempo acabou. Nas suas sábias cartas, Cícero escreveu que “é a nossa visão que deve manter-se constante, não as nossas palavras”. É uma ideia corajosa, mas que se aplica à necessidade de saber e conseguir fazer compromissos em nome do bem comum. Hoje, as palavras dos políticos têm de voltar a ter valor. Ocupados a improvisar a cada nova crise — “a chutar bolas para fora, como os jogadores de futebol”, diz o pensador político Daniel Innerarity — os políticos têm de reconhecer que a instabilidade e a complexidade do nosso tempo não lhes permite continuar a fazer promessas vazias. Sobretudo as que implicam resultados concretos, como postos de trabalho. Politizar, diz Innerarity, “é situar as coisas num âmbito de discussão pública, arrebatá-las aos técnicos, aos profetas e aos fanáticos”. Uma das novas tarefas dos políticos é acabar com as promessas ocas. Neste momento, Passos e António Costa mostram cuidado em não fazer promessas irrealistas. Ambos pagam um preço por isso. E ambos dão-nos a esperança de que este ano de campanha não seja, pelo menos, um comboio de promessas infantis.