Opinião

São os custos do trabalho os principais culpados da crise no “Sul” da Europa?

Uma das principais causas apontadas para a crise dos países do “Sul” da Europa (eufemismo para os países menos desenvolvidos da Europa Ocidental), entre eles Portugal, é que nestes houve um grande aumento dos custos salariais desde a criação do Euro.

Esta é a visão do economista alemão Hans-Werner Sinn. Segundo ele, a credibilidade que a moeda única trouxe aos países do Sul da Europa levou a um grande influxo de capitais para estes países. Este influxo de capitais criou uma pressão inflacionária e consequente aumento dos custos de trabalho e, como resultado, os países do Sul da Europa perderam competitividade face aos países do Norte da Europa. Esta linha de pensamento levou à conclusão de que uma das medidas que estes países tinham que tomar para ultrapassar a crise era a de efectuar cortes salariais.

É certo que os países do sul da Europa tiveram um crescimento rápido dos salários depois da entrada no Euro, principalmente em relação à Alemanha visto esta ter seguido uma política de contenção salarial para facilitar a reunificação depois da queda do muro de Berlim. No entanto tal não foi o caso se analisarmos um período mais longo e principalmente se considerarmos o que realmente interessa em relação aos custos de trabalho, ou seja os custos reais do trabalho: a relação entre o crescimento destes e a produtividade. Foi isto mesmo que os economistas Javier Ordóñez, Hector Sala e José I. Silva analisaram para o conjunto de países do Euro no período de 1979 a 2012 (ver artigo “Real Unit Labour Costs in Eurozone Countries: Drivers and Clusters”).

Os números apresentados por estes economistas mostram claramente que, ao contrário do que se pensa, foi nos países do Sul da Europa que os custos reais do trabalho menos aumentaram. Na realidade, nos países da periferia os custos reais do trabalho diminuíram entre 15% (Itália) e 21% (Espanha), tendo Portugal tido uma redução de 20%. Nos países do Norte da Europa a redução foi apenas entre 5% (Bélgica) e 13% (Áustria). Neste sentido não é inteiramente correcto afirmar que a principal causa da crise nos países do Sul da Europa foi um aumento desmedido dos custos do trabalho.

Tendo desmistificado a ideia de que o principal problema dos países do Sul da Europa são os custos de trabalho, estes autores vão em busca de outras causas. Para isso eles partem do pressuposto de que os custos de trabalho reais dependem dos investimentos feitos em capital e em tecnologia. A ideia é que a produtividade do trabalho pode aumentar via aumentos no investimento capital (por exemplo, quando uma fábrica compra uma máquina nova) ou então através do progresso tecnológico (por exemplo, quando uma empresa inventa um produto inovador).

Os autores deste estudo demonstram que os países do Sul da Europa, relativamente aos países do Norte da Europa, tiveram um maior aumento do investimento em capital (38% nos primeiros versus 21% nos segundos) mas um menor aumento da intensidade tecnológica (18% nos primeiros versus 39% nos segundos). Dito de outro modo, os países do Sul da Europa seguiram um modelo de desenvolvimento baseado no investimento em capital em vez do investimento em tecnologia. Ora segundo a teoria de crescimento endógeno (de Paul Romer e Robert Lucas), só o investimento em tecnologia pode conduzir a um crescimento económico sustentável no longo prazo. Isto é especialmente verdade quando o investimento em capital se centra principalmente em capital não produtivo, como os imóveis. Este parece ter sido o caso em muitos países do Sul da Europa, o que levou à conhecida bolha no mercado de habitação.

Estes resultados, como tal, questionam não só o excessivo corte nos custos de trabalho dos programas de austeridade, mas também os critérios de Maastricht e os próprios fundos europeus. Como se sabe, os critérios de Maastricht de acesso ao Euro focaram-se apenas na convergência nominal. Ou seja, por um lado na convergência dos preços (inflação, taxas de juro, e estabilidade da taxa de câmbio) e, por outro, no equilíbrio das contas públicas. A convergência real, por sua vez, exigiria que se tivesse também focado no PIB per capita, taxa de desemprego, produtividade do trabalho, e índices de preços comparados. Convergência real acontece quando um país mais pobre tem um crescimento do PIB mais rápido que os países mais ricos como resultado por exemplo de maior crescimento na produtividade do trabalho. Deste modo, ao desvalorizar a convergência real que se obtém principalmente através do progresso tecnológico, os critérios de Maastricht podem ter incentivado ainda mais os países do Sul da Europa a seguir um modelo de desenvolvimento baseado no investimento em capital.

Se para além disto considerarmos que os fundos europeus foram principalmente direccionados para investimento em capital físico (como se comprova pelos investimentos em estradas feitos em Portugal), então estes fundos podem ter servido para enviesar ainda mais o modelo de desenvolvimento dos países do Sul da Europa para o investimento em capital, em detrimento do investimento em tecnologia. Dito de outro modo, os fundos europeus deviam ter dado mais prioridade à convergência real, através do investimento na educação, na inovação tecnológica e na produtividade do trabalho em vez de em infraestruturas.

Em suma, os chamados países do Sul da Europa têm seguido nas últimas décadas um modelo de desenvolvimento baseado no investimento em capital em detrimento do investimento em tecnologia. O Euro e os fundos estruturais exacerbaram esta tendência ao tornarem o investimento em capital ainda mais barato e acessível para estes países. Este modelo de desenvolvimento foi em parte responsável pela crise que os países Sul da Europa ainda hoje atravessam, visto que os custos de trabalho nestes países tiveram nas últimas décadas uma redução em relação aos países do Norte da Europa. Só com um modelo de desenvolvimento baseado no progresso tecnológico os países Sul da Europa poderão alguma vez aspirar a um crescimento sustentável no futuro.

Norwegian School of Economics

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