Autarca francês de direita recusa sepultura a criança cigana

"O que aconteceu é ignóbil. Uma coisa nunca vista", disse Eve Desjardins, da associação Citoyens Solidaires de Wissous.

O autarca disse que o cemitério tem falta de espaço
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O autarca disse que o cemitério tem falta de espaço AFP

O autarca de Champlan, nos arredores de Paris, recusou na quarta-feira que uma criança cigana fosse sepultada no cemitério local, apesar de a família viver num acampamento naquela região. O responsável justificou que a bebé, recém-nascida, foi declarada morta numa cidade vizinha, em Corbeil-Essonnes, devendo por isso ser sepultada lá.

Para a associação local de solidariedade de Essone, que denunciou o caso, trata-se de uma posição de "racismo, xenofobia e estigmatização", como disse o seu presidente, Loic Gandais.

A criança, a quem foi dado o nome de Marie Francesca, nasceu a 14 de Dezembro e foi vítima de "síndrome de morte súbita" na noite de 24 para 25, disse Gandais à AFP. Então, a menina foi levada para o hospital de Corbeil-Essonnes, onde foi declarada a morte, a 26 de Dezembro.

A família, através de uma empresa funerária, solicitou que fosse sepultada em Champlan, por ter aí o seu acampamento, mas o presidente da câmara, Christian Leclerc (DVD, Direita Diversa), recusou. Após a polémica, disse que foi um caso de falta de espaço. "Temos poucos espaços disponíveis. Temos um projecto para ampliar o cemitério mas é muito caro", explicou. "Temos de gerir muito bem os lugares, de acordo com as circunstâncias, e ter em conta se a família vive aqui", acrescentou.

A criança foi sepultada em Wissous, uma localidade vizinha. "Por razões humanitárias não podíamos recusar", disse, por seu lado, o autarca de Wissous, Richard Trinquier, da UMP (direita, partido agora liderado pelo ex-Presidente Nicolas Sarkozy).

Em França, os familiares ou próximos de um morto devem pedir autorização para o enterro à autarquia de que faz parte o cemitério escolhido. O funeral pode ter lugar onde a pessoa morreu, onde morava, ou ainda onde exista um jazigo de família.

"O que aconteceu é ignóbil. Uma coisa nunca vista", disse Eve Desjardins, da associação Citoyens Solidaires de Wissous.

Marie-Hélène Brelaud, da Associação de Solidariedade de Essonne para com as famílias ciganas, disse que a família da criança está "abatida" com a morte de Marie Francesca e com tudo o que se passou. "Não há palavras para descrever o horror desta decisão que mostra que não apoiamos os ciganos quando estão vivos nem quando estão mortos", disse ao jornal Le Parisien.