O mundo será salvo pela beleza, repete Carlos Martins

Homenagem a Bernardo Sassetti tanto quanto uma busca de espaço e respiração, Absence é um disco edificado sobre ausências – do pianista mas também de notas. Carlos Martins fabricou uma música contemplativa e de horizontes largos, a pensar no Sul.

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LUÍSA FERREIRA

Primeiro, era uma música que guardasse espaço para a respiração, enquanto movimento de aproximação ao silêncio. Depois, transformou-se numa música que transporta um espaço destinado à ausência. Entre saxofone, contrabaixo, guitarra e bateria, deveria haver um piano. Não havendo, devido ao golpe da morte de Bernardo Sassetti, Carlos Martins quis deixar esse espaço intocado. Um vazio propositadamente largado no meio dos instrumentos, uma forma de luto ou de adeus registado agora em Absence. É uma ausência que se ouve.

E é isso que justifica o tema derradeiro, Um sonho bom (cante II), onde o piano de Sassetti se escuta finalmente, como que lembrando que antes não estava lá e convidando a regressar ao início de Absence, cavando mais fundo essa ausência. Um sonho bom, à semelhança de alguns outros temas ainda por publicar, ficara arrumado numa gaveta depois de abortada a sua edição original pela Valentim de Carvalho, antes ainda de Carlos Martins ter lançado Água (2008). É um tema curto, jogado por duas forças, em que piano, saxofone e contrabaixo tocam unidos pela progressão melódica, enquanto bateria e guitarra soam “num ciclo interno próprio”, como lhe chama o saxofonista. “Escolhi este tema para o disco porque tem um lado contemporâneo, uma produção sonora um tanto abstracta”, justifica. Mas há uma subtileza no piano que convenceu igualmente Carlos Martins a fechar o disco com Um sonho bom. Entre a bruma da abstracção, com as notas quase em repouso no seu estado final, ouve-se uma discreta citação do pomposo tema de John Williams para a banda sonora de A Guerra das Estrelas. “É algo que o Bernardo faz com puro deleite de gozo”, diz Martins. “E achei que a ligação às estrelas, onde ele provavelmente viaja nesta altura, era óptima para estabelecer a relação com um disco que é dedicado a ele. E a nós.”

Essa dedicatória alargada prende-se, de facto, com aquilo que estava já na génese musical de Absence. Num almoço com Sassetti, pouco antes da sua morte em Maio de 2012, os dois assentaram na feitura de um álbum em busca de respiração e de espiritualidade. Depois, já à frente do quarteto – Carlos Martins, Carlos Barretto, Alexandre Frazão e Mário Delgado – e após alguma discussão, o músico dispensou as composições mais jazzísticas e avançou para estúdio em Novembro aplicando contenção, poucas notas, em contraciclo com o ritmo vertiginoso em que o quotidiano está engrenado. “Achei que devíamos fazer um disco sobre o que estamos a fazer agora, no meio desta confusão que é a velocidade estonteante do mundo, o descontrolo absoluto nestas questões das dívidas, a vida das pessoas tão dependente e tão precária”, diz. Absence corresponde, assim, a um gesto de inspiração. De desaceleração cardíaca, de recolhimento, de um pé fora do carrossel para recuperar fôlego e lucidez. “O mundo será salvo pela beleza”, recupera Carlos Martins de Dostoiévski.

A auto-educação

É agarrado a essa máxima do escritor russo inscrita em O Idiota que o saxofonista decreta a decisão de parar. “Parar”, portanto, no sentido de cortar com o fluxo ensurdecedor de informação que anestesia o mundo, mas também de interromper uma lógica de gravações que se sucedem umas às outras apenas porque é altura disso. “Não quis ir atrás de mais um disco”, confessa Carlos Martins. “E não quis limitar-me a fazer algo que se parecesse com mais um grupo de jazz americano ou europeu. Quis fazer aquilo que é nosso, ligado à música que vimos desenvolvendo.” O mal, acredita, está num país que exagera nos movimentos miméticos. “Somos mais troikistas do que a troika, mais americanos do que os americanos, e depois seremos mais suecos do que os suecos.” No território do jazz, defende o saxofonista, em grande parte devido à “visão escolar”, tanto o mainstream como o avant-garde replicam modelos norte-americanos.

Também no seu caso, assume Carlos Martins, houve um tempo de “tentar tocar à John Coltrane”, mas hoje parece-lhe natural que se oiçam no seu fraseado a música de Elis Regina, as flautas indianas, os quartos de tom do cante alentejano ou os desenhos melódicos de Jan Garbarek. A ambição ascética e o recorrente tom lírico e etéreo de Absence, aliás, apesar das secções mais sombrias de Caminho da manhã ou Constanze, coloca esta música na rota de parte do catálogo da editora alemã ECM e num tempo e num espaço inéditos na sua carreira, inaugurando uma nova fase. Uma fase purificadora, regeneradora, desbravadora, que o coloca num outro caminho. “Música conforme a tinha escrito antes, se alguém quiser que a toque porque eu não vou voltar atrás”, declara. “O que não quer dizer que não siga em frente por caminhos muito mais exploratórios, que nada têm que ver com este disco. Antes pelo contrário. Não quero fazer o que já está feito, quero tentar errar em relação a isso.”

O desafio em Absence está perfeitamente identificado pelo esforço em contrariar o instinto colectivo. O vazio palpável do piano de Bernardo Sassetti, decidido em conjunto pelo quarteto de forma emocional, teve de ser preservado à custa de uma auto-educação forçada e mantida por Carlos Martins. Porque a tentação normal de músicos, sobretudo quando extremamente evoluídos tecnicamente, é tapar um vazio, ocupá-lo, colonizá-lo com a sua acção. O esforço foi, por isso, de contenção, limpando a música o mais possível, eliminando takes musicalmente imaculados mas que não respeitavam a almejada ausência de notas. Para a qual admite que não estavam preparados – significando, no fundo, que silenciosamente este era um processo de lidar com a perda. Daí a necessidade de um ambiente “muito sulista, muito etéreo e muito relaxado”, sugerido também pelo poema Caminho da manhã, de Sophia de Mello Breyner. “Um lado de intuir o invisível que só existe no Sul”, considera Martins.

Esse Sul, essa lassidão, esse horizonte a perder de vista do poema entrelaçaram-se na percepção do músico da cultura mediterrânica e na memória da sua vida até aos 17 anos no Alentejo. E fundiu novamente o primeiro tema, Caminho da manhã, com o último, Um sonho bom, cuja melodia sinuosa do saxofone é afinal cantada no Alentejo com os versos “não penses por eu cantar/ que a vida alegre me corre/ eu sou como o passarinho/ tanto canta até que morre”.