Crítica

O Último Dia de Pier Paolo

A genuína admiração de Abel Ferrara por Pasolini não salva este de ser o seu mais decepcionante filme em muitos anos.

Cineasta da labiríntica penumbra nova-iorquina, ainda recentemente revisitada num filme que a distribuição portuguesa parece ter saltado (o notável Welcome to New York, olhar oblíquo sobre o “caso Strauss-Kahn”), Abel Ferrara estava longe de ser um nome óbvio para surgir ao leme de um filme sobre Pier Paolo Pasolini. Mesmo se é bem conhecida a dívida que Ferrara, no entanto tão americano, tem para com os principais vultos do “cinema de autor” europeu: quem viu o filme de Rafi Pitts sobre ele, integrado na série Cineastes, de Notre Temps, não pode esquecer o momento em que Ferrara tem um ataque de fúria perante um artigo de jornal que, listando os “herdeiros” de Godard, se esquece de o mencionar (“a mim, que sou o mais legítimo herdeiro do Godard!”).

Seria possível, mas resultaria num exercício um pouco forçado (a bater na tecla da “força revolucionária do bas-fonds” ou coisa que o valha), ver em Ferrara um dos “mais legítimos herdeiros” de Pasolini. O que não impede que se acredite, a 100%, na sinceridade da sua admiração pela lendária figura do realizador de Saló. Mas saber disso, e acreditar nisso, no facto de não se tratar de um oportunista a aproximar-se da figura de Pasolini com sensacionalismo (totalmente ausente do filme, vide a cena da morte, terrivelmente banal, sem nenhum alimento para teorias conspirativas), só amplia a decepção que o filme constitui, seguramente o mais decepcionante filme de Ferrara em muitos anos.

Porquê? Porque, apesar do mimetismo conseguido por Willem Dafoe (uns óculos escuros fazem maravilhas, acredita-se logo que Dafoe é Pasolini e não se pensa mais nisso, mesmo que o inglês e o italiano se alternem nos diálogos de maneira que desafia a suspension of disbelief) o filme é pouco incisivo enquanto retrato frio e analítico da sua personagem, sem com isso ganhar uma aura especial enquanto crónica calorosa de uma devoção ou de uma admiração. Como “estudo” sobre Pasolini é pobre, como “elegia” também. E em elegias pensamos, as de Sokurov sobre figuras da história e da cultura universais, ou os “últimos dias” de Kurt Cobain tal como filmados por Gus van Sant. Como eles, também Ferrara procura um certo hieratismo (o “mito” enquanto “mito”, justamente) com os intervalos suficientes para que, através deles, passe a figura do homem e do seu quotidiano – que acaba por ser o mais conseguido do filme, as cenas em família (com a mãe, e a criada) e as cenas de refeição (como aquela em que aparece Maria de Medeiros na pele de Laura Betti), ou toda a longa sequência, filmada, repete-se, sem sensacionalismo nenhum, que precede o assassinato num baldio dos arredores de Roma. Insistindo numa estrutura fragmentada, à base de cenas maioritariamente curtas, entre o “real” e a “ficção” (uma espécie de “filme no filme” construído a partir de excertos do Petrolio e interpretado pelo mais pasoliniano dos actores, Ninetto Davoli, força da natureza que está sempre à vontade em qualquer contexto), Ferrara nunca consegue encontrar o traço de união, ou o centro, que impeça essa estrutura narrativa de parecer lassa e frequentemente aleatória. O filme vai desaparecendo à frente dos nossos olhos, sem nunca ter chegado bem a ser aquilo que se adivinha que pretendia ter sido. Vale a pena ver, por Ferrara e por Pasolini, mas quer para ferrarianos quer para pasolinianos será decepção quase certa.

P24 O seu Público em -- -- minutos

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