Crítica

Música pelo caminho

A adaptação all-stars do musical de Stephen Sondheim não é um grande filme, mas é o melhor filme musical em modo clássico que Hollywood faz em muito tempo

Os leitores mais velhos lembrar-se-ão das histórias infantis que chegavam às lojas de discos em versões brasileiras – resultando em situações como aquela história do Capuchinho Vermelho onde o caçador, depois de matar o lobo, dizia “o tiro foi bem na testa, não comerá mais crianças nos caminhos da floresta”. Isso basta automaticamente para não se levar a sério o título português de Into the Woods – Caminhos da Floresta – mesmo dando de barato que até joga com o filme, filme esse que é um berbicacho para traduzir (o que justifica os encómios à excelente legendagem de Susana Ramalho). É que Into the Woods é um musical – e um musical de Stephen Sondheim, talvez o último autor de canções do período áureo da Broadway ainda em actividade, e certamente aquele que mais inovou e renovou o género ao longo da sua carreira. As canções não estão integradas na narrativa – elas são a narrativa nesta história que explora e subverte os contos de fadas tradicionais, que desmonta o conceito de “viveram felizes para sempre” e se coloca todinho no abismo que fica entre “sonho” e “realidade”.

O processo de Sondheim e do seu libretista James Lapine é um de tese (o conto de fadas), antítese (o que acontece quando é levado a sério) e síntese (como fazer a ponte entre sonho e realidade). O Príncipe Encantado é uma fachada sem conteúdo, a Gata Borralheira uma indecisa que não sabe para onde se há de virar, o Capuchinho Vermelho uma reguila a descobrir prazeres proibidos, e a própria Bruxa Má só queria ter uma filha para amar. O modo como Sondheim e Lapine articulam referências e desconstruções dentro da forma rígida do musical é de tal modo notável que bastaria tratar o material com respeito para fazer uma adaptação decente. Felizmente, foi isso que aconteceu: Rob Marshall, antigo coreógrafo promovido a realizador tarefeiro sem especial personalidade, filma o musical de modo sóbrio, convencional mas discreto. Não se limita a ilustrar sem alma nem inventa em excesso, e respeita a dimensão teatral, performativa, do material, mantendo-se atento ao que realmente interessa – as canções e os actores, aos quais dá o espaço e o ritmo suficientes para existir.

Já se sabe, a tendência do filme musical americano sempre foi a de ir buscar actores dramáticos e pô-los a brincar ao musical mesmo quando não sabem cantar, mas o casting de Caminhos da Floresta é particularmente inspirado, com os britânicos James Corden e Emily Blunt a roubarem o filme nos papéis centrais do Padeiro e da sua mulher e a surpresa de Anna Kendrick a fazer uma Cinderela impecável (para despachar a coisa: Meryl Streep vai bem, mas é daquelas coisas que ela faz com uma perna as costas). Claro que o que aqui há de genuinamente espantoso não vem do cinema, antes da peça original, e ninguém confundirá o classicismo pragmático de Caminhos da Floresta com experiências mais radicais e menos unânimes como o Moulin Rouge de Baz Luhrmann. Mas também não faz mal, porque fazer um filme que não dá cabo de Into the Woods já é em si uma mais-valia. Mesmo com um título português tão infeliz.

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