Kremlin tenta calar Navalni com subtileza ao mandar o irmão para a prisão

Blogger e opositor de Vladimir Putin foi detido e mandado para casa, por tentar participar em protesto contra a condenação a três anos e meio de prisão - no seu caso, pena suspensa - num processo que lança suspeitas sobre a empresa francesa Yves Rocher.

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Polícia de intervenção acorreu em força à manifestação, com o Kremlin em fundo Tatyana Makeyeva/REUTERS
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Alexei e Oleg Navalny no tribunal, depois de conhecida a sentença DMITRY SEREBRYAKOV/AFP
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A polícia fez mais de 100 detenções ALEXANDER NEMENOV/AFP
A selfie de Navalny no metro
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A selfie de Navalny no metro DR
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Navalny quando tentou chegar à manifestação Anton Belitskiy/REUTERS

Alexei Navalni, o opositor mais temido pelo Kremlin, foi detido pela polícia quando tentava chegar à praça de Moscovo onde se realizava uma manifestação para protestar contra a sentença a três anos de prisão por fraude a que ele e o seu irmão mais novo foram condenados esta manhã. Ele ficou com pena suspensa, mas Oleg foi mesmo para a prisão, numa decisão vista como uma forma de chantagem para o manter calado e controlado.

Navalni foi detido e levado para casa – e não para a prisão. “Não tem importância nenhuma prenderem-me. Não posso fazer nada que vocês não possam”, escreveu o blogger no Twitter, já dentro do carro da polícia que o levou para longe da manifestação.

Embora tenha uma pulseira electrónica, Navalni anunciou que ia violar a prisão domiciliária e ia à manifestação na praça Manezhnaia. Tirou uma selfie, no Metro, e colocou-a no Twitter. “Sim, prisão domiciliária, mas hoje quero mesmo estar convosco. Por isso vou. #Manezhka”, escreveu.

Mais de 18 mil pessoas tinham dito, no Facebook, que iriam à manifestação na praça perto do Kremlin. Mas terão sido bastante menos. Nesta altura, muita gente sai de Moscovo, para as festas do fim do ano. As estimativas nas redes sociais diziam que rondavam apenas alguns milhares de pessoas.

Na praça, havia grupos anti-manifestação, com bandeiras vermelhas e fitas laranja e negro de São George, um símbolo dos nacionalistas russos e pró-Kremlin. Os apoiantes de Navalni gritavam “Libertem Navalni” e “Rússia livre”. Cantaram “No Putin, no war”, ao ritmo de No Woman, No Cry, de Bob Marley. Também lançaram insultos ao Presidente russo, Vladimir Putin. A polícia deteve mais de uma centena de manifestantes e depois começou a empurrar as pessoas para dentro do metropolitano.

 Punição
“Não têm vergonha do que estão a fazer? Por que estão a pô-lo na prisão? Para me punir ainda mais?”, gritou Alexei Navalni, chocado de ter sido lida a sentença que ditava o envio imediato do irmão para uma colónia penal.

A sentença parece uma tão subtil como cruel forma de manter Alexei Navalni calado e sem actividade política. “O Governo não está só a prender os opositores políticos – estamos habituados a isso. Desta vez estão a destruir e a torturar as famílias de quem se opõe a eles”, afirmou no tribunal, quando o seu irmão foi levado para a prisão.

Tornando o irmão Oleg um refém, não transformam em mártir o advogado e blogger que se tornou notado por investigar e denunciar na Internet a corrupção das elites e dos empresários próximos do Kremlin, com palavras cruas.

Porque Navalni é um adversário temido: o seu carisma e dotes oratórios tornaram-no a figura mais forte da oposição nas manifestações populares de 2011. Embora esse movimento de protesto não tenha avançado, o Kremlin hesita na forma como o tratar.

Prendê-lo transformá-lo-ia num símbolo – como o milionário Mikhail Khodorkovski, que passou dez anos na prisão. O mais eficaz seria simplesmente silenciá-lo – essa parece ser a opção seguida.

Os irmãos Navalni foram julgados num processo que transpira irregularidades: foram acusados de terem cobrado abusivamente 27 milhões de rublos (400 mil euros) à empresa de cosméticos francesa Yves Rocher, através de um contrato para distribuir os seus produtos entre 2008 e 2012. Esta sobrefacturação teria sido possível graças ao emprego de Oleg Navalni nos correios russos.

Foi o ex-director da Yves Rocher em Vostok, Bruno Leproux, quem assinou o contrato com a empresa dos irmãos Navalni, a Glavpodpiska, e foi também ele quem solicitou a abertura de uma investigação sobre os preços que cobrava, desencadeando o processo. Mas não se sabe o que levou a Yves Rocher a fazer esta queixa. O que a empresa francesa assegura é que as suas próprias auditorias concluíram que os preços da Glavpodpiska eram afinal abaixo dos praticados pelo mercado e que não tinha sofrido prejuízo algum. O director financeiro da Yves Rocher testemunhou em tribunal que voltaria a assinar hoje um contrato igual.

Há, por isso, muitas suspeitas de que a Yves Rocher, ou o então director de Vostok, tenha sido pressionado ou se tenha deixado manipular pelas autoridades russas, interessadas em calar Navalni. “Não sei quais os meios de pressão que terão sido usados, mas terá sido importante implicar uma empresa estrangeira. Isso dava ao processo uma solidez aparente”, disse ao Le Monde Serguei Guriev, economista russo refugiado em Paris.