Opinião

Quando se gere sem estratégia, a bola bate sempre na barra: o caso do Beira-Mar

A última década do século XX marcou o início de uma nova era para o futebol profissional na Europa, traduzida na crescente institucionalização de um modelo em que passou a ser encarado como uma indústria. Apesar disso e não obstante a reconhecida importância social e cultural da modalidade e a assinalável mediatização que registou nas últimas duas décadas, a verdade é que o sector continua a ter uma pequeníssima parcela da riqueza gerada nos países. O mesmo acontece com o futebol português, mas a sua realidade tem sido bem mais dramática, sobretudo devido a estratégias desportivas e económicas erráticas que foram e continuam a ser prosseguidas na gestão de vários clubes de carácter profissional

Depois da caricata e triste situação da UD Leiria, em 2011-12, são cada vez mais recorrentes as notícias sobre as dificuldades financeiras que assolam alguns dos clubes/SADs, que de resto estão bem patentes nos processos especiais de revitalização em curso. Nesse grupo incluem-se alguns históricos como Vitória de Setúbal, Vitória de Guimarães, Belenenses, Boavista, Beira-Mar, Leixões e Olhanense, cujas dívidas nos PERs perfaziam cerca de €150 milhões dos quais €24,8 milhões eram reclamados pela Autoridade Tributária e Segurança Social. Neste contexto, a questão que se impõe é a de saber como foi possível que vários clubes tenham ficado em falência técnica. Embora as suas idiossincrasias possam explicar parcialmente essa situação, a verdade é que o denominador comum aos sucessivos prejuízos reside em políticas levadas a cabo sem qualquer orientação estratégica de base.

Exemplarmente elucidativo é o caso do Sport Clube Beira-Mar, um clube que, aos 92 anos de existência, ocupa o 11.º lugar no histórico da I Liga, com um total de 27 participações no principal campeonato português, e que tem no seu palmarés a conquista da Taça de Portugal de 1998-99. Apesar deste historial, a gestão pouco prudente de algumas direcções conduziu ao acumular de prejuízos (€4,6 milhões no final de 2009-10) e à hipoteca do seu património imobiliário (piscinas, pavilhão, entre outros bens), contribuindo decididamente para a agudização de uma situação financeira de que ninguém parece ver saída. Enfim, um desfecho comprovativo de que “quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável” (Séneca).

Em 2011, a criação da SAD para o futebol foi vista pelos sócios como a tábua de salvação, sobretudo com a entrada em cena do investidor 32Group, que prometia uma era de grandes feitos desportivos, o compromisso de pagar €3,5 milhões ao clube, a salvaguarda do pavilhão e a modernização da gestão do futebol profissional, entre outras promessas. Volvidos dois anos, os resultados da gestão dita profissional são elucidativos: despromoção à II Liga, utilização de 43 jogadores, três treinadores (um dos quais sem as habilitações para treinar uma equipa de futebol profissional), o incompreensível empréstimo ao Sporting do titular Joãozinho, perda do pavilhão, gastos com pessoal superior ao volume de negócios e prejuízos acumulados de €2,2 milhões (não engloba o gasto de €3,5 milhões com a responsabilidade com o passivo do clube).

Entretanto, a passagem de testemunho ao investidor Sr. Omar Scafuro, em Dezembro de 2013, não trouxe quaisquer mudanças positivas, teve apenas a novidade da renegociação do passivo de €4,6 milhões, através de um PER aprovado em Maio de 2014. Mas quem pensava que o pesadelo havia terminado, rapidamente se desenganou perante a demissão de vários elementos dos órgãos sociais, a entrada no tribunal de um segundo PER e de uma luta judicial pela clarificação sobre a propriedade dos 84,9997% do capital da SAD.

No meio desta turbulência, uma assembleia-geral envolta em polémica veio adensar ainda mais esse clima, nomeadamente quando a direcção do clube votou favoravelmente a entrega da gestão da SAD aos elementos representativos da 32Group, manifestando de certa forma uma memória curta quando refere que tal investidor está aberto a uma nova parceria que respeite os compromissos passados. A verdade é que o passado recente da 32Group na gestão da Beira-Mar SAD e do Servette FC (Suíça) levanta as maiores dúvidas quanto à sua capacidade de se constituir como solução para o desenvolvimento de um projecto desportivo e financeiro credível, voltado para os beiramarenses e para a cidade de Aveiro. Sendo certo que a admissão de um parceiro é inevitável, esta solução tem que passar por quem esteja realmente apostado em investir na SAD a longo-prazo e seja portador de uma visão estratégica geradora de cash-flows que possam reverter para o investidor e para a construção de infra-estruturas desportivas que beneficiem os sócios do clube e o desporto em Aveiro.

O Beira-Mar vive tempos conturbados e a SAD, passados que estão mais de três anos da sua constituição, encontra-se à beira da falência. Daí a urgência de uma nova estratégia que transforme radicalmente a gestão da SAD tal como ela tem vindo a ser desenvolvida, uma nova estratégia a implementar com dedicação, profissionalismo e ambição, no sentido de fazer emergir de novo o orgulho dos adeptos do Beira-Mar. Esta é uma condição imprescindível para resolver a situação de asfixia em que o clube se encontra e são as forças vivas da cidade e da região que têm que encontrar soluções para a materializar. Caso contrário, o desfecho do intricado processo que o Beira-Mar tem vivido será inexoravelmente o desaparecimento.

Professor no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG)