E se a doença de Creutzfeldt-Jakob esporádica vier das ovelhas?

Pela primeira vez, uma experiência mostrou que a encefalopatia espongiforme das ovelhas pode saltar a barreiras das espécies e infectar proteínas humanas existentes no cérebro. A experiência foi em ratinhos modificados para produzirem essas proteínas humanas.

Mesmo que os priões das ovelhas passem para os humanos, os cientistas não consideram que isso seja uma grande ameaça sanitária
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Mesmo que os priões das ovelhas passem para os humanos, os cientistas não consideram que isso seja uma grande ameaça sanitária Enric Vives-Rubio

O estranho mundo dos priões tornou-se notícia frequente em 1996, quando apareceram os primeiros casos da doença das vacas loucas, em Inglaterra. Prião, do inglês “prion”, é uma conjugação das palavras “proteína” (protein, em inglês) e infecção” (“infection) e revela uma ideia bizarra – a de que as proteínas podem adquirir a capacidade de infectar animais e pessoas e de se multiplicarem, causando uma doença neurodegenerativa. Até ali, pensava-se que só os vírus, as bactérias e outros parasitas poderiam causar infecções.

Mas a encefalopatia espongiforme bovina – o nome oficial da doença das vacas loucas, mostrou o perigo deste fenómeno biológico e assustou os governos devido às suas consequências sanitárias – já terá estado na origem da morte de mais de 170 pessoas no Reino Unido e pelo menos duas em Portugal. Os priões que existiam nas vacas estavam a infectar pessoas que ingeriam carne e outros produtos contaminados, saltando a barreira das espécies, e causando uma variante da doença de Creutzfeldt–Jakob, descrita em 1920 pelos neurologistas alemães Hans Gerhard Creutzfeldt e Alfons Maria Jakob. Há também uma variação desta doença em ovelhas e cabras, chamada “scrapie”, já conhecida há três séculos, mas até agora pensava-se que não poderia saltar para os humanos. Uma experiência em ratinhos geneticamente modificados com a versão humana da proteína normal dos priões mostrou que os priões das ovelhas e cabras podem passar para aqueles roedores. A descoberta, publicada na revista Nature Communication, obriga a “reconsiderar a possibilidade” de a forma mais comum da Creutzfeldt–Jakob ter origem na scrapie.

A versão mais frequente da doença nos seres humanos – a Creutzfeldt–Jakob esporádica – aparece entre os 40 e os 70 anos. Os primeiros sintomas da doença passam pela mudança nos comportamentos das pessoas. Depois, os doentes sofrem de demência progressiva, com alucinações e movimentos involuntários. Um ano após o início dos sintomas, as pessoas morrem e não há nenhum tratamento.

No cérebro, o que está a acontecer é uma degeneração do tecido nervoso com a morte de neurónios. A culpa é dos priões. Na sua forma saudável, estas proteínas estão nas membranas das células do sistema nervoso e são degradadas normalmente.

No entanto, há uma variante desta proteína que tem uma forma tridimensional diferente. Nessa forma, o corpo não consegue degradar a proteína, e esta acumula-se. Pior, a proteína deformada – o prião – é capaz de alterar proteínas do prião saudáveis e transformá-las em priões com a forma não degradável. Este processo faz aumentar a quantidade de priões no cérebro, que se acumulam em placas fora das células, causando a degenerescência do tecido.

Nos cortes histológicos dos cérebros das pessoas que morreram, o tecido cerebral aparece com buracos microscópicos, dando-lhe um aspecto esponjoso.

A doença Creutzfeldt–Jakob esporádica, responsável por 85% dos casos, não está ligada a nenhuma mutação do gene humano que comanda o fabrico da proteína do prião (o PRNP) e, segundo o que se sabe, surge espontaneamente. Na forma genética da Creutzfeldt–Jakob, uma mutação no gene pode desencadear esta doença.

Quando a doença das vacas loucas surgiu, as pessoas afectadas tinham uma média de idade de 28 anos. Os priões das vacas, ingeridos na carne, foram capazes de transformar as proteínas saudáveis humanas em priões, saltando assim a barreira das espécies e causando a doença.

Há outros animais que têm doenças semelhantes, como os veados. No caso das ovelhas e cabras, a doença faz com que estejam sempre a raspar a pele devido à comichão, por isso o nome scrapie.

Até agora, pensava-se que a scrapie não conseguia saltar a barreira das espécies. Mas a experiência da equipa de Olivier Andréoletti, do Instituto Nacional de Investigação Agronómica de França, aponta no sentido contrário.

Os cientistas injectaram diferentes tipos de priões, que causam a scrapie, em ratinhos com o gene humano PRNP. Deste modo, queriam testar se estes ratinhos ficavam infectados e se a proteína humana era vulnerável aos priões vindos de ovelhas.

Das seis estirpes de priões de ovelhas, quatro acabaram por infectar alguns dos ratinhos. “As experiências mostram que os priões das ovelhas propagam-se em ratinhos com a variante humana da proteína do prião”, lê-se no artigo.

Mais: os cientistas mostraram que os sintomas que estes ratinhos desenvolvem são semelhantes aos sintomas da Creutzfeldt–Jakob esporádica, o que leva a hipótese de poder haver uma ligação entre as duas doenças. “A nossa informação não estabelece de uma forma inequívoca uma ligação causal”, defendem os autores. “No entanto, aponta claramente para uma necessidade de reconsiderar esta possibilidade.”

Estabelecer essa ligação vai ser difícil, considera Olivier Andréoletti. “Já que a doença de Creutzfeldt–Jakob esporádica é rara, com cerca de um caso por um milhão de pessoas por ano, e os períodos de incubação são longos – de várias décadas –, é extremamente difícil os estudos epidemiológicos tentarem encontrar esta ligação”, disse o investigador, num comunicado. Mas tendo em conta que o contacto entre ovelhas e humanos é antigo e a frequência da doença é baixa, os autores não consideram que seja “uma grande ameaça sanitária”.