Eleições antecipadas empurram Grécia para escolha que preocupa a Europa

Primeiro-ministro diz que eleitores “não vão deixar que sacrifícios sejam desperdiçados”. Líder do partido de esquerda Syriza anuncia que “futuro já começou”. Comissão Europeia apela à continuidade, ao defender apoio nas legislativas a reformas “favoráveis ao crescimento”.

Foto
Líder da coligação de esquerda Syriza, Alexis Tsipras, acredita numa mudança política Alkis Konstantinidis

Mal a votação terminou, começaram nas televisões os ataques entre deputados do maior partido do Governo, a Nova Democracia, e da principal força da oposição, o Syriza. E será assim, ao longo das próximas semanas, até às eleições antecipadas na Grécia, previstas para 25 de Janeiro, que são muito mais do que um assunto unicamente grego. Com a dissolução do Parlamento, confirmada ontem, com o falhanço da eleição de um novo Presidente da República, a opção que se coloca aos gregos é entre um executivo liderado pelo partido que tem aplicado as políticas de austeridade ou por um que promete passar a austeridade à história.

O candidato Stavros Dimas, apoiado pela coligação governamental formada pela Nova Democracia e pelos socialistas do Pasok, não conseguiu os 180 votos de que precisava para suceder no cargo a Karolos Papoulias. E, tal como prevê a Constituição, o Parlamento é agora automaticamente dissolvido no prazo de dez dias. Era isso que verdadeiramente estava em causa: a continuidade ou não do Governo liderado por Antonis Samaras, que desde 2012 tem protagonizado as políticas de austeridade.

A Comissão Europeia está apostada na continuidade das políticas que têm sido seguidas pelo Governo de Atenas, como se confirmou pelas primeiras reacções à decisão do Parlamento de não eleger o candidato único à eleição presidencial, Stavros Dimas, precipitando as legislativas. O comissário europeu dos Assuntos Económicos, Pierre Moscovici, apelou imediatamente aos eleitores para apoiarem reformas “favoráveis ao crescimento”. Nada de novo, no fundo: o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, tinham já, ao longo do processo eleitoral presidencial, manifestado reservas à eventual chegada ao poder do Syriza (Coligação de Esquerda Radical), uma força política que cresceu com a contestação à austeridade.

Sem alternativa, diz Alemanha
Schäuble disse, ontem, que “as difíceis reformas produziram frutos e não têm alternativa” e que “novas eleições não mudam os acordos com o governo grego”. “Se a Grécia tomar outro caminho será difícil”, insistiu, antes de repetir uma ideia já antes adiantada – qualquer executivo está obrigado aos compromissos assumidos pelo Governo anterior.

A previsibilidade de eleições antecipadas – leia-se o cenário de uma vitória do Syriza – bem como o receio de instabilidade na zona euro motivaram uma subida das taxas de juro da dívida em todos os países da periferia da zona euro, incluindo Portugal. Ainda assim a subida foi relativamente moderada por ter já sido parcialmente incorporada pelos mercados a probabilidade de eleições. A Grécia foi o país que registou um agravamento mais forte das taxas, com os títulos de dívida a dez anos a aproximarem-se dos 10%. As bolsas europeias também registaram quedas, principalmente significativas em Atenas, onde chegaram a ser de 11%, baixando depois para 3,91%. 

Na terceira e última tentativa para eleger Dimas, a coligação governamental, com 155 deputados, não conseguiu alargar a base parlamentar de apoio ao seu candidato. O número de deputados que votou a favor da eleição do ex-comissário europeu para a chefia do Estado foi de 168, tantos quantos os que o haviam feito na segunda ronda, a 23 de Dezembro, e mais oito do que no primeiro escrutínio, no dia 17. Ainda que a fasquia de 200 votos, num Parlamento de 300 lugares, tivesse baixado para 180 no escrutínio de ontem, acabou por se confirmar um cenário tido já como provável nos últimos dias.

A confiança no triunfo foi traço comum nas reacções dos líderes dos dois principais partidos ao cenário de eleições antecipadas. “A vitória será nossa”, disse Antonis Samaras, da Nova Democracia. “As pessoas não vão deixar que os seus sacrifícios sejam desperdiçados”, afirmou também, citado pelo jornal Ekathimerini, num discurso que lançou o mote do que deverá ser o guião da campanha para as eleições que já começou a apresentar como “as mais decisivas das últimas décadas”.

O líder do Syriza, Alexis Tsipras, afirmou que se viveu “um dia histórico para a Grécia”. “Os deputados gregos, os partidos da oposição democrática, provaram que a democracia não pode ser chantageada”, disse. O dirigente de esquerda, que não se tem cansado de repetir que o seu partido é a favor da permanência da Grécia na União Europeia e na zona euro, mas defende uma renegociação da dívida, deixou também uma mensagem de crença na vitória. “Com a ajuda do povo grego, as políticas de austeridade do memorando [acordado com a troika em Maio de 2010] passarão à história. O futuro já começou.”

Syriza à frente, mas pouco
As mais recentes sondagens dão vantagem ao Syriza – 28,3% contra 25% da Nova Democracia, num estudo do Instituto Alco para o semanário Proto Thema; 27,2% contra 24,7%, numa pesquisa do Instituto Kapa para o jornal To Vima. Mas a corrida está longe de estar resolvida. Não só a vantagem do Syriza tem vindo a diminuir relativamente a estudos de opinião realizados nos últimos meses – em Novembro eram-lhe atribuídas vantagens de cinco a sete por cento nas intenções de voto – como também uma maioria de inquiridos manifestou durante o processo das presidenciais a preferência pela não antecipação de eleições.

As sondagens apontam também para o risco de quase irrelevância do Pasok, o histórico partido socialista, que venceu as legislativas de 2009  com 44% e maioria absoluta, mas em 2012 caiu para 12% – o que só lhe permitiram ser um parceiro menor da actual coligação. As sondagens actuais indicam que poderá ficar entre os 3% e os 5%. O líder, e vice-primeiro-ministro, Evangelos Venizelos –  que afirmou ter chegado o “momento da verdade” e que “os gregos têm o destino nas suas mãos” –  considera que o seu partido foi transformado em “bode expiatório” da crise.

O Pasok vê também com preocupação a intenção de George Papandreou, seu antigo líder, criar um novo partido, uma decisão que, segundo a estação privada Mega TV poderá ser anunciada no próximo fim-de-semana. O site Keep Talking Greece escreveu que, logo após a derradeira ronda da votação presidencial, um grupo de seis ministros e dirigentes socialistas se encontraram com o ex-primeiro-ministro, pedindo-lhe para reconsiderar.

Se o Syriza capitaliza os efeitos de uma austeridade que tem como um dos sinais mais visíveis um desemprego superior a 25%, Samaras aposta no receio de parte do eleitorado pelo desconhecido e num voto que, na hora da verdade, penda para o apoio às políticas que têm sido seguidas. Falta saber se será mesmo assim. “Samaras disse muitas vezes: vem aí o lobo. Invocar o medo da saída do euro pode não resultar desta vez com os deputados e com os votantes”, disse, citado pela Bloomberg, Dimitrios Triantaphyllou, professor de Relações Internacionais na universidade Kadir Has, em Istambul, ainda antes da derradeira votação que poderia ter salvado o Governo.