O ano de 2015 será o mais brando nos preços desde a troika

As perspectivas de uma retoma no consumo estão à mercê dos acontecimentos: basta uma má notícia para os portugueses colocarem um travão nos gastos.

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Para as empresas da indústria alimentar e o sector do comércio, muito dependentes do consumo das famílias, 2015 poderá transformar-se numa verdadeira montanha russa Nuno Ferreira Santos

O próximo ano não será marcado por fortes subidas de preços, um verdadeiro contraste com anos anteriores em que os portugueses enfrentaram “enormes aumentos de impostos” e reduções drásticas no rendimento. A inflação é uma das maiores razões para este fenómeno, já que deverá ser de apenas 0,7% no ano que vem, e, de acordo com as últimas estimativas, ficará nos 0% este ano.

E, embora o desemprego se mantenha em níveis elevados (a previsão do Governo é que desça para 13,4% da população activa em 2015), sem alívio nos impostos, há dois dados que vão ajudar ao aumento do rendimento disponível de algumas famílias: a reversão de 20% dos cortes salariais na função pública e o fim da contribuição extraordinária de solidariedade sobre as pensões (só quem recebe mais de 4611,42 euros brutos terá um corte no rendimento mensal).

Apesar da inflação muito baixa, há outros factores que influenciam os preços, como os impostos, pelo que 2015 não deixará de ser marcado por algumas subidas. Assim, em 2015, quando for às compras não deverá pagar mais pelo pão, mas terá de desembolsar dez cêntimos pelo saco de plástico se não tiver outra alternativa. Nos cigarros convencionais o imposto mantém-se, mas os cigarros electrónicos devem reflectir o duro aumento da tributação decidido pelo Governo.

No final do mês, conte com facturas mais pesadas de electricidade: mais 3,3%, o maior aumento desde 2012. Já na água tudo vai depender do concelho onde mora (em Lisboa conte com aumento; na Beira Interior uma descida. Se estiver a pensar comprar casa, não deverá encontrar preços muito diferentes dos de 2014, isto se morar fora dos centros urbanos de Lisboa e Porto, onde os valores tendem a crescer. Conte ainda com preços mais simpáticos nos combustíveis. E só não serão mais porque parte da descida que se perspectiva será absorvida pelos impostos da chamada “fiscalidade verde”. Andar de autocarro, comboio e metro não será mais dispendioso, tal como andar nas auto-estradas. As portagens permanecem iguais.

Na farmácia, a factura fica aliviada: os medicamentos comparticipados e os medicamentos prescritos pelo médico de família vão ser mais baratos. E nos hospitais, pagará menos uns simbólicos cinco cêntimos pelas taxas moderadoras.

Mas apesar da aparente brandura do sobe e desce de preços, certo é que as perspectivas de uma retoma no consumo estão à mercê dos acontecimentos. Basta uma “má notícia” para os portugueses darem um passo atrás nos gastos, fenómeno que já se verificou na segunda metade deste ano. O índice do consumo privado registado pelo INE esteve a subir desde Fevereiro, mas estagnou entre Junho e Julho, começando depois a cair consecutivamente até Outubro, apesar de se manter positivo. Já o da actividade económica seguiu a mesma tendência, mas chegou a terreno negativo em Agosto, ficando assim até Outubro.

Como notam as empresas da indústria alimentar e o sector do comércio, muito dependentes do consumo das famílias, 2015 poderá transformar-se numa verdadeira montanha russa. E a dinâmica do consumo privado tenderá a sofrer alterações, caso seja precisas novas medidas de austeridade por causa da meta para o défice orçamental para o ano que vem. O Governo afirma que este será de 2,7% do PIB, mas esse número tem sido rebatido por várias entidades, com destaque para a Comissão Europeia, que fala em 3,3%. Se não se cumprirem as previsões do Governo, num ano de eleições legislativas, a hipótese de um novo aumento de impostos volta a estar em cima da mesa. com Luís Villalobos