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A “Zona de Desconforto" desta geração em trânsito

O melhor álbum de BD portuguesa do ano pela Amadora BD é um retrato de uma geração que está "pura e simplesmente a desaparecer". Em "Zona de Desconforto", dez autores relatam a sua experiência de estudar e trabalhar fora de Portugal

A dada altura, Marcos Farrajota, homem-chave da associação/editora/aventura Chili Com Carne, olhou à sua volta e reparou que uma série de pessoas — amigos, conhecidos, "mas sempre queridos" — estava "pura e simplesmente a desaparecer", conta ao P3. Apanhavam aviões para ir estudar, trabalhar, fazer alguma coisa, em busca de melhor condições de vida. "Isto fez-me ficar um pouco revoltado: o que é que estava a acontecer?".

Reza a história que, "frustrado e impotente em testemunhar a emigração, em alguns casos forçada, dos seus amigos e conhecidos", decidiu inventar um livro, entretanto eleito o melhor álbum de BD portuguesa pela Amadora BD. Editado em Abril, "Zona de Desconforto" é um retrato de uma geração que, diz o editor, está a ser empurrada lá para fora (um tema sério que não costuma ter eco na banda desenhada portuguesa, mas já lá vamos). Desde 2010, terão partido 200 mil jovens, entre os 20 e os 40 anos, segundo dados oficiais — e alguns deles estão aqui.

Para esta antologia, que integra a colecção de livros de viagem LowCCCost, Marcos recolheu relatos de autores de banda desenhada (BD) que foram estudar ou trabalhar para fora de Portugal. Única regra: o registo tinha de ser autobiográfico. Amanda Baeza e André Coelho foram de Erasmus para Bilbao e Barcelona, onde se confrontaram com 1001 questões nacionalistas; Christina Casnelie trocou a vida de "freelancer" no Porto por um estágio na Holanda (que se transformou num trabalho de 3 anos e numa pós-graduação em holandeses), enquanto que José Smith Vargas passou o Verão de 2007 a trabalhar na casa de tapas "Manolo", uma extensão do ideal pan-ibérico em Amesterdão; David Campos fez voluntariado na Guiné-Bissau (está tudo relatado em "Kassumai", lançado no ano passado); Tiago Baptista viajou para Berlim para uma residência artística; Ondina Pires trabalhou na área do ensino e do apoio social a deficientes em Londres, cidade onde se encontra Francisco Sousa Lobo, entre o doutoramento, o ensino e uma depressão (ver "O Desenhador Defunto"); e, por fim, do outro lado do Atlântico, Daniel Lopes no Brasil, país de um irónico "futuro", e Júlia Tovar a chegar a Buenos Aires, de armas e bagagens, para criar a sua família.

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Pormenor da BD de André Coelho

"Eu ando a viajar desde pequena", conta a arquitecta de 30 anos a partir da Argentina. Nascida em Coimbra, passou por Maputo, Porto, Lisboa, Roterdão, Barcelona, e, finalmente, Buenos Aires, onde chegou grávida de cinco meses, juntamente com o companheiro argentino que deixara a cidade em 2001 por alturas do "corralito". A sua "gravidez emigrada" tem sido a fonte de inspiração de um diário gráfico a que se dedica nas horas vagas há cerca de ano e meio — uma pequena amostra está, precisamente, em "Zona de Desconforto".

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Pormenor da BD de Júlia Tovar

É importante falar de "temas adultos"

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Neste "comic", duas personagens nuas ("mais expostas, mais vulneráveis") com um carrinho de bebé observam Buenos Aires, a sociedade argentina e as suas idiossincrasias. A dado momento, à mesa de jantar, discute-se as diferenças entre a crise na Europa ("Tudo nas esplanadas, nas lojas, ele é carro, ele é viagem") e na Argentina ("Falência económica real! Bancos fechados, revolta nas ruas, o presidente a fugir de helicóptero, mortos, feridos e caos!") na óptica dos locais. Para convencer a audiência que "Portugal está realmente nas lonas", Júlia intervém para dar conta do seu contexto familiar em Portugal: pai de 63 anos desempregado, sem subsídio de desemprego, a concorrer a trabalhos lá fora; mãe com reforma antecipada para se poupar a mais cortes orçamentais; irmã economista desempregada com uma filha de 8 anos emigrada em Moçambique.

A banda-desenhada em Portugal fala pouco de temas sociais, sublinha Marcos Farrajota

Para Júlia, a emigração foi uma opção. Poderiam ter ficado no Porto, mas escolheram não o fazer. É, diz, "importante" que se fale desta "geração em trânsito" como no livro — aligeirando a questão para não ser sempre algo "muito denso", em que se culpabiliza o outro ou o governo "que está a mandar pessoas embora". "É uma coisa real, sim, mas está a acontecer por diversos motivos. Às vezes é opcional, outras vezes não é. (...) E isso é muito descritivo da nossa geração. O 'Zona de Desconforto' ainda não é um livro de época, mas se calhar um dia vai ser."

Mesmo que algumas das situações contadas do livro tenham sido temporárias, o que é certo é que hoje, no mundo da geração Erasmus, "este ir e voltar está presente na sociedade". Marcos tem consciência que a antologia "ficou mais burguesa do que proletária", já que não inclui casos de saída por "necessidade extrema" (no plano inicial haveria pelo menos um, mas a autora não conseguiu cumprir o prazo), mas, ainda assim, "a intimidade que as pessoas colocaram nas BD é bastante desconfortável". É uma forma de "representar a realidade portuguesa". E aos quadradinhos, fora das amarras da cultura pop, Marvel, Disney e companhia. "Se podes falar de emigração na música, artes pláticas, cinema, teatro, porque não em BD? (...) Não há quase nada sobre temas sociais cá. Imagina olhar daqui a cem anos para a banda-desenhada portuguesa e perceber que nada representa a realidade."

"Estes temas não têm grande impacto em Portugal. E é importante falar de temas actuais e adultos em BD". Di-lo André Coelho, ele que costuma fugir do registo autobiográfico, e que abre o “Zona de Desconforto” com uma reflexão sobre a força da língua como “último bastião da defesa de uma cultura”, neste caso, o catalão. Dos dez autores presentes na antologia, é um dos poucos que não está emigrado. Não se sente em contraciclo, atenção. Mesmo como ilustrador: “Facilmente consegues trabalhar para fora estando cá. A internet ajuda.” “Claro” que já pensou em ir para fora, mas quando decidiu formar-se em Pintura sabia que iria estar “numa espécie de limbo durante muito tempo ou para sempre”.

Prémio não representa aumento de vendas

Com 30 anos, é um nome conhecido no universo do metal, punk, hardcore e da música experimental – desenha capas e cartazes para bandas e promotoras e é membro dos Sektor 304. E, claro, faz banda desenhada: o último livro, o apocalíptico “Terminal Tower”, feito a quatro mãos com Manuel João Neto, saiu em Junho. “Dificilmente” lhe chega para pagar as contas, por isso está agora novamente à procura de um trabalho fixo, “seja no que for”. No ensino, por exemplo. Já deu aulas de Artes Plásticas nas Actividades de Enriquecimento Curricular (AEC), de Geometria Descritiva ao ensino secundário, explicações; também já trabalhou profissionalmente como ilustrador, mas passava mais tempo atrás do cliente para receber do que propriamente a trabalhar nos projectos.

Diz Júlia Tovar que uma das coisas que mais a tem surpreendido em Portugal é que, com a crise, para além de “toda a gente estar voltada para o turismo”, o “único reduto de dinheiro que sobrou”, as pessoas também começaram a “montar as suas vidas de uma forma muito diferente”, em que o emprego institucional perdeu valor e “toda a gente faz coisas”: “O arquitecto dá aulas de ioga, o doutorado trabalha num ‘call center’ e vende umas coisas na Internet.” Ou, até, o licenciado em Pintura que dá aulas para conseguir fazer banda desenhada e ilustração.

André considera que o prémio na Amadora BD “não se vai traduzir num aumento de vendas” do “Zona de Desconforto”. “Porque não há um mercado em Portugal.” A distribuidora pediu mais livros para reforçar os locais de venda, mas não haverá reedição, garante Marcos. “Não temos dinheiro suficiente. Temos poucos livros, mas voltar atrás parece-nos demasiado arriscado.” Talvez o livro ganhe uma segunda vida. Nos planos da Chili com Carne está o lançamento de um “Zona de Desconforto 2” que irá mostrar a visão dos estrangeiros em Portugal, de pessoas que passaram pelo país ou que decidiram permanecer. Para quando? “Se calhar”, o que faria sentido seria lançá-lo no próximo ano na Amadora BD, mas “nunca se sabe”. “É tudo imprevisível porque este é um trabalho de voluntariado. Aqui é tudo muito orgânico, não há tecnocratas.”