Opinião

Instalação de jovens agricultores é vital para o futuro do sector

Nota prévia: Em artigo recente (16 de Dez.), o PÚBLICO deu ênfase ao problema dos jovens agricultores mal sucedidos, que se instalam, muitas vezes em resultado do assédio de empresas ética e profissionalmente pouco escrupulosas que, mecanicamente fazem projectos em série. Chegam a anunciar os seus serviços em enormes placards nas auto-estradas, da mesma forma que outras empresas vendem sabonetes. Alguns jovens, enfrentando dificuldades de emprego, encantam-se com a actividade agrícola que lhes é apresentada como fácil e lucrativa e arrependem-se amargamente quando enfrentam a realidade.

Espero que o artigo do PÚBLICO, sendo oportuno e verdadeiro, não dê apoio excessivo aos “Velhos do Restelo”, que aproveitam todas as oportunidades para pôr em dúvida o apoio público e a importância atribuída à instalação dos jovens agricultores. Ela é, de facto, vital para o futuro da nossa agricultura. Além disso, por cada caso infeliz, haverá certamente dez que terão sucesso.

Aproveito, por isso, no espaço de que disponho, para sintetizar um texto que escrevi sobre o assunto, em meados deste ano e que, para além de ter sido publicado no portal oficial do PRODER, também o foi na revista da AJAP (Associação dos Jovens Agricultores de Portugal).

Um novo agricultor que se instala assume sempre uma grande responsabilidade. Responsabilidade para consigo mesmo, para com a sua família e para com a sociedade em geral, cuja importância pode determinar o seu futuro.

A agricultura não é uma actividade fácil. Exige conhecimentos, capacidades específicas e determinação, e está, como nenhuma outra actividade, rodeada de incertezas, quer naturais, quer de mercado.

Os candidatos a jovens agricultores, devem estar conscientes da dedicação e sacrifícios que lhe vão ser exigidos e preparados para muitas deceções que nem sempre serão compensadas pela formidável energia positiva associada a uma das mais nobres, livres e independentes, actividades humanas, inseridas no processo produtivo.

O apoio e colaboração familiar é normalmente muito importante, às vezes até indispensável, desde que associado ao propósito de um afastamento progressivo e à consequente abertura de espaço, de independência, de iniciativa e de responsabilidade, para o jovem agricultor.

Em primeiro lugar, os jovens deverão estudar atentamente a legislação aplicável, designadamente à instalação e ao investimento de jovens agricultores (acessível no site do PRODER: www.proder.pt; para o futuro, no www.pdr-2020.pt )

Em segundo lugar, deverão procurar pôr-se ao corrente das diferentes actividades, agrícolas, pecuárias ou florestais, que isoladamente ou de forma combinada, tenham adequação agronómica à sua região. Deverão também trocar impressões com agricultores experimentados, beneficiando criticamente da sua experiência. Devem, no entanto, proteger-se daqueles que pensam que só uma longa experiência pode formar um bom agricultor.

Mas devem também estar seguros das vantagens associadas à sua condição de jovens, quer na quebra de rotinas viciosas, na abertura a novos métodos e espírito de iniciativa, nas suas capacidades de trabalho, no acesso ao conhecimento e aos mercados, no âmbito de uma visão actualizada do mundo e do seu funcionamento.

Em terceiro lugar, uma vez pré-selecionada, uma ou várias actividades/culturas, deverão estudar os seus mercados, as previsões disponíveis relativas à evolução da oferta e da procura, quer mundiais, quer internas, canais de escoamento, disponibilidade de conhecimentos especializados, a nível nacional e regional, evolução e volatilidade dos preços de mercado, ajudas públicas disponíveis, etc.

Em quarto lugar, deverão determinar o percurso técnico mais rigoroso possível de cada actividade, desde a obtenção da semente/planta/animal, até à sua entrada em plena produção. A seguir, atribuirão o valor de mercado a cada operação e calcularão, ao longo dos anos de duração do projecto, as despesas e receitas previsíveis. É absolutamente indispensável fazerem uma análise de sensibilidade aos resultados. Só assim se pode verificar o nível de resistência dos respectivos resultados económicos finais.

Em quinto lugar, deverão verificar se na região em que se pretendem instalar, existem, ou não, prestadores de serviços de qualidade adaptados às actividades previamente escolhidas. Igualmente, no que respeita a Associações, Cooperativas ou Agrupamentos de Produtores. Se existirem, poderá ser preferível o recurso a serviços externos em oposição à aquisição de algumas máquinas e equipamentos.

Em sexto lugar, deverão verificar se necessitam ou não de mão-de-obra exterior e, caso necessitem, se ela estará disponível no mercado de trabalho local. Quanto ao custo do trabalho, quando fizerem as contas, nunca se esqueçam de incluir no ordenado de um eventual contratado, todos os custos adicionais.

O mesmo acontecerá com o vosso próprio ordenado se tiverem necessidade de o estabelecer, como será aliás aconselhável.

Em sétimo lugar, devem ter sempre em consideração que o desenvolvimento real de um projeto nunca corresponde ao que é previsto “no papel”. Há inúmeras contingências, geralmente desfavoráveis, quer porque a evolução climática não deixou executar atempadamente as necessárias operações ou obrigou a fazer outras não previstas, quer porque apareceram doenças ou pragas, ou reparações de equipamentos, não considerados nos projetos. Devem por isso fazer sempre uma reserva para imprevistos.

Em oitavo lugar, uma vez informados sobre os pontos anteriores, chega a altura em que já decidiram sobre o que querem fazer e passam à elaboração do projeto, que deverá aliás ser a consequência de um plano estratégico de exploração. É essencial que evitem “martelar” os resultados económicos para apresentarem taxas de rentabilidade fictícias.

Em nono lugar, deverão assegurar-se que terão acesso, não só ao montante financeiro necessário para a componente de auto financiamento do projeto de investimento, como até a um pouco mais (20 a 40%), quer para os gastos relativos aos períodos intercalares entre reembolsos das ajudas públicas.

Em décimo lugar, na execução do projeto é fundamental que comecem sempre pelo elemento mais direta e rapidamente produtivo, nunca por aquele de que só mais tarde necessitarão. As colheitas e a transformação, vem sempre depois da produção.

Em décimo primeiro lugar, é essencial que planeiem com rigor a sequência da execução/pagamento/reembolso, de modo a conseguirem minimizar ao máximo a utilização de capital próprio (que normalmente é alheio e bastante caro).

Uma vez instalados e iniciadas as actividades, insiste-se na prudência dos gastos e na necessidade de se relacionarem cordialmente com os colegas de profissão e com as populações locais. É indispensável fazerem-se membros ativos das organizações de produtores apropriadas, analisarem toda a informação técnico/científica e económica, a que possam ter acesso, de modo a que estejam permanentemente atualizados e bem inseridos no meio profissional que escolheram. Além disso, é muito importante que instalem um sistema de contabilidade de gestão pessoal.

Dito tudo isto, não se assustem, não se deixem intimidar, aprendam com os vossos erros, sigam os vossos sonhos e intuições, sejam sérios, rigorosos e trabalhadores e o futuro se encarregará de vos compensar com a possibilidade única de viverem com dignidade, através de uma das nobres, úteis e gratificantes profissões: a de agricultor.

Engenheiro agrónomo (ISA)