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Megafone

Olha lá, este é o mês de quê?

O poder de tornar esta vida única é apenas nosso. E se tudo o resto falhar, pelo menos teremos sempre tema de conversa, porque, afinal, este foi “o mês de…”

Há cerca de dois anos, inspirada numa conferência TED, comecei a fazer “desafios de 30 dias”. O conceito é simples: durante 30 dias (um mês, vá) tenta-se incluir um novo hábito ou evitar uma rotina que a pessoa gostasse de eliminar da sua vida. Aparentemente, existem estudos que indicam que cerca de 20 dias é quanto tempo é necessário para uma determinada prática ser assimilada no nosso quotidiano; mas, sobretudo, 30 dias são uma quantidade pequena o suficiente para se conseguir dizer: “É só um mês, também não é nada de especial” – mas não deixa de ser um mês inteiro em que se está a fazer qualquer coisa de diferente e fora da rotina.

De entre os vários desafios de 30 dias que já fiz incluem-se 30 dias sem facebook, 30 dias "vegan", 30 dias sem séries da TV, sem usar o sofá, a meditar, com menos 30 coisas, a enviar postais, a usar apenas transportes públicos… E a lista continua.

A experiência é invariavelmente enriquecedora, mesmo que depois se decida não manter a rotina criada nos tais 30 dias.

Em primeiro lugar é uma forma simples de fugir da rotina: todos os meses passam a ser “o mês em que…”; e depois há aqui um elemento de crescimento pessoal muito interessante, porque todos temos ideias e projetos que “um dia” e “quando tivermos tempo” vamos fazer – o que nunca acontece, porque quanto mais se adia, mais se vai adiando. Pelo menos naquele mês, há um passo na direção da pessoa que queremos ser, e isso é um ego "boost" bestial (mesmo que depois não se mantenha; ora perguntem-me lá se eu me mantive longe do açúcar depois do meu desafio de 30 dias sem doces?).

Nem todos os desafios de 30 dias precisam de ser no sentido de sermos mais a pessoa que queremos ser; alguns desafios de 30 dias podem simplesmente ajudar-nos a perceber melhor os outros, especialmente as pessoas que são importantes para nós. Os meus 30 dias sem glúten trouxeram-me uma solidariedade imensa para com a minha prima que é celíaca e para toda a comunidade celíaca em geral.

E este exemplo aplica-se a várias outras realidades; desafiei os meus estudantes da Licenciatura em Fisioterapia há uns tempos a fazerem durante uma semana a técnica de fisioterapia que recomendariam a uma pessoa com uma lesão vertebro-medular para ganhar força muscular suficiente para sair da sua cadeira de rodas – “fácil”, responderam-me. O desafio era de apenas uma semana – mas depois de uma semana, a sua capacidade de "insight" sobre as dificuldades dos seus futuros pacientes e de como os ajudar a aderirem ao tratamento foi absolutamente incrível (ajuda ter alunos excecionais, claro). Tudo passou de “fácil” e “simples” a um pouco mais profundo e muito mais empático.

O importante é continuar

Mais importante que tudo, não se conseguem cumprir todos os desafios de 30 dias: uns apenas por uma ou outra falha em que se prossegue face ao objetivo final (às vezes considero estes desafios conseguidos à mesma, admito), outros são um fracasso rotundo. Não faz mal. É apenas a vida a acontecer. O importante é continuar: se este desafio não é para mim, será que o seguinte é?

Há pequenas coisas no nosso quotidiano que moldam as nossas atitudes e a nossa resiliência. O dia-a-dia não precisa de ser aborrecido, por muito rotineiro que seja: o poder de tornar esta vida única é apenas nosso. E se tudo o resto falhar, pelo menos teremos sempre tema de conversa, porque, afinal, este foi “o mês de…”

Assim, lanço já aqui o desafio às leitoras e leitores: em 2015 desafiem-se a fazer coisas novas, sejam desafios de um dia, de uma semana, de um mês ou mais.

Afinal, 2015 vai ser o ano de quê?