Opinião

“Miguel, porque escreves?”

“Porque escreve?” Esta pergunta entrou no repertório dos tópicos da instituição literária desde que em 1919 uma revista surrealista solicitou a uma série de escritores uma resposta a essa magna questão. Em 1985, o jornal francês Libération resolveu fazê-la a 400 escritores do mundo inteiro (as respostas foram posteriormente reunidas num volume hors-série). E, entre todas as respostas que obteve, uma se impôs, perdurou e muito deu até hoje que pensar: “Bon qu’à ça” (“só sei fazer isto”, ou “só sou bom nisto”, ou ainda “não sirvo para mais nada”). Esta resposta lacónica, concentrada, explosiva e capaz de suscitar uma problemática fundamental da modernidade literária foi dada por Beckett. Por uma entrevista a Miguel Sousa Tavares, na SIC, feita por Raquel Marinho (e publicada também no site do Expresso com o título: “Porque escreves, Miguel?”), fiquei a saber que o seu último livro começava com uma resposta a esta questão. Quem a si próprio a coloca com o objectivo de tornar pública a resposta ou é muito temerário ou ridiculamente ingénuo nas coisas literárias. A pergunta “porque escreves?” ou vem do exterior de quem escreve ou só pode ser tematizada enquanto questão imanente àquilo que se escreve — como problema e não como fórmula de um questionário. O “bon qu’à ça” de Beckett significa que se escreve por uma razão que está toda no interior da própria escrita. E que ela é sem “porquê”. Reparemos agora nas respostas de Miguel Sousa Tavares a Raquel Marinho: “É uma necessidade enquanto forma de expressão”; “É a forma que eu gosto mais para me exprimir, contar as coisas, registar aquilo que aconteceu”, “Eu acho que há uma obrigação do escritor de pensar no leitor”; “Eu acho que a única obrigação de quem conta histórias é testemunhar”. Exprimir, comunicar, testemunhar podem ser tarefas muito dignas e necessárias, mas nenhuma delas é um atributo da escrita literária e, podendo muito embora fazer parte dela, nunca é o seu critério primeiro. Até um poema lírico, se for ditado em primeiro lugar pela vontade e pela ideia de “exprimir”, não é certamente um bom poema. E contar uma história para “testemunhar” é fazer reportagem. No início dos anos 60 do século passado, Roland Barthes estabeleceu uma diferença fundamental entre écrivains (escritores) e écrivants (escreventes). O escritor, dizia ele, “cumpre uma função”, enquanto o escrevente “cumpre uma actividade”, na qual a palavra é um mero instrumento, um veículo. E, definindo os escreventes como “transitivos”, na medida em que colocam ao seu trabalho um fim (testemunhar, exprimir, etc.) para o qual a palavra é apenas um meio, Barthes dizia que o “projecto de comunicação dos escreventes é naïf”. O que é próprio de um escrevente é a vontade de responder publicamente à pergunta “porque escreves?”, mesmo que ninguém lha tenha feito. Sobretudo, quando são muitas as probabilidades de ela ecoar nas televisões e nos jornais desta forma: “Porque escreves, Miguel?”. E o Miguel, que nestas coisas da literatura é tão ingénuo, nunca perceberá porque é que quanto mais se reivindica como escritor (oportunidades não lhe faltam) mais se enterra como um banal escrevente. Quanto mais pergunta “porque escrevo?”, mais a resposta é implacavelmente hostil às razões da escrita de um escritor que não é escrevente. O “bon qu’à ça” de Beckett significava algo vindo de outro lado. Significava a possibilidade de escrever para não dizer nada, a possibilidade de apagar o leitor e de apagar o escritor diante do leitor. “Miguel, porque escreves?”.