Egipto e Marrocos proíbem Exodus: Deuses e Reis

Cairo acusa o filme de manipular o Corão e de divulgar várias “falácias” históricas. Rabat limitou-se a cancelar a exibição sem explicações.

Christian Bale é Moisés, num filme em que os judeus são apresentados como os construtores da esfinge e das pirâmides de Gizé, uma "falácia" histórica, diz o Egipto
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Christian Bale é Moisés, num filme em que os judeus são apresentados como os construtores da esfinge e das pirâmides de Gizé, uma "falácia" histórica, diz o Egipto DR

Exodus: Deuses e Reis, a mega-produção bíblica de Ridley Scott, bem ao gosto dos grandes estúdios de Hollywood, já não vai passar nos cinemas do Egipto e de Marrocos. As autoridades destes dois países proibiram a exibição do filme que recria a vida de Moisés e a libertação do povo hebraico no Antigo Egipto mesmo na véspera da estreia. Motivo? Rabat não se explicou, limitando-se a informar os proprietários das salas de que deveriam cancelar todas as sessões através do organismo estatal que controla a indústria cinematográfica, o Centro de Cinema Marroquino. No Cairo, o comité de censura do Ministério da Cultura baseou boa parte da sua decisão no facto de a nova produção ter Moisés como figura central. De acordo com a tradição islâmica, qualquer representação do profeta é considerada ofensiva, relembrava esta quinta-feira o jornal online The Cairo Post.

Num comunicado divulgado pela imprensa egípcia, o responsável por este comité de censura, Abdel Sattar Fathi, faz notar, no entanto, que a proibição não se deve apenas a motivos religiosos: “O filme contém falácias históricas. Foi por isso que tivemos de bani-lo sem consultar sequer qualquer outra entidade.”



Quem lê o documento do Ministério da Cultura egípcio percebe, sem esforço, que há um misto de razões por trás da decisão: as autoridades criticam Ridley Scott e a sua equipa por transformarem o profeta – nesta versão Moisés é interpretado por Christian Bale – num general; por atribuírem a separação das águas no Mar Vermelho - “um milagre mencionado no Corão e que não é negociável” – a um terramoto; e por apresentarem os escravos judeus como os construtores da grande esfinge e das pirâmides do planalto de Gizé, quando é aceite pela maioria que, historicamente, estes monumentos terão sido erguidos por volta de 2540 a.C., cerca de 500 anos antes de a tradição bíblica dar conta da existência de Abraão, o patriarca hebreu.

Abdel Sattar Fathi contesta ainda que o filme de Scott passe uma imagem “destorcida” dos egípcios, apresentando-os como “demagogos” apostados em perseguir e em torturar os judeus.

Esta decisão no Egipto era previsível, dizem os observadores, depois de, no início do ano, o mesmo comité ter impedido que Noé, filme realizado por Darren Aronofsky com Russel Crowe como protagonista, chegasse às salas.

Não seria de estranhar que a mesma representação de Moisés, figura importante também para os muçulmanos, estivesse na base da interdição decretada por Rabat. Em alguns casos, a proibição foi comunicada aos exibidores poucas horas antes da estreia e acompanhada de ameaças de encerramento das salas caso insistissem em passar o novo épico, noticia o jornal espanhol ABC.

Filme de controvérsias

Esta não é a primeira vez que Exodus: Deuses e Reis lança o debate. Nos dias que antecederam a estreia nos Estados Unidos, Rupert Murdoch, o patrão da distribuidora do filme, a 21st Century Fox, e o próprio Ridley Scott tiveram de vir a público defender as suas opções para o elenco.

É que um forte movimento nas redes sociais apelava ao boicote do épico pelo facto de todos os papéis de relevo – os principais dizem respeito a figuras do Médio Oriente e do Norte de África – terem sido confiados a actores brancos. Os intérpretes negros e asiáticos, defendia, podem encontrar-se apenas entre os figurantes, os criados e os escravos.

“O filme de Moisés foi atacado no Twitter por causa do seu elenco branco”, escreveu Murdoch em Novembro na sua conta desta rede social. “Desde quando é que os egípcios não são brancos? Todos os que eu conheço são.”

Na mesma altura, o realizador chegou a dizer que, se tivesse feito outras escolhas, dificilmente teria convencido os estúdios a investir na nova produção. “Não consigo montar um filme com este orçamento (…) e dizer que o meu actor principal é o Mohamed-não-sei-das-quantas de não-sei-de-onde. Simplesmente não o conseguiria financiar”, explicou à revista Variety.

Mas o movimento popular insistiu e lembrou a Scott e à indústria cinematográfica americana que não lhes passaria pela cabeça pegar em actores negros que habitualmente asseguram sucessos de bilheteira, como Denzel Washington e Will Smith, para interpretar Presidentes como Abraham Lincoln e George Washington. Porquê fazê-lo, então, com figuras bíblicas do Médio Oriente e do Norte de África?