Fazer a consoada em restaurantes de hotéis deixou de ser uma originalidade

Alguns hotéis do Porto e de Lisboa esgotaram a lotação nos restaurantes onde servem a consoada e o almoço de Natal. Procura tem vindo a crescer de ano para ano.

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A companhia ainda é quem mais ordena, mas as casas de família estão a perder cada vez mais protagonismo quando se trata de escolher o local onde juntar todos à mesa. Numa ronda por alguns hotéis do Porto e de Lisboa, sobretudo naqueles que ostentam mais estrelas, verifica-se que a lotação já está esgotada para a ceia de Natal de dia 24, e também para o almoço/buffet/brunch de Natal de dia 25. 

Passar a noite de Natal no restaurante de um hotel já não é visto como um acto solitário, mas antes “como algo cómodo, confortável e elegante”, sintetiza Maria Manuel Ramos, Directora Comercial do Crowne Plaza Porto. Apesar da insígnia recente, esta unidade hoteleira está há 30 anos a receber hóspedes na Avenida da Boavista, no Porto. E é, por isso, um bom testemunho do que tem vindo a mudar. Se há alguns anos “a noite de Natal era a única em que o hotel apenas necessitava de assegurar os serviços mínimos”, actualmente, é uma noite normal de trabalho com grande afluência de clientes. “É habitual hoje em dia recebermos pedidos de reservas para a ceia de Natal ou para o almoço uma vez que o tipo de cliente também mudou”, afirma Maria Manuel Ramos, num depoimento enviado por e-mail.

Joana Almeida, directora do Sheraton Porto, outra unidade de cinco estrelas, e que desde que abriu, há dez anos, tem sempre tido procura para a ceia de Natal, explica as mudanças no tipo de cliente: “Enquanto no início eram sobretudo famílias monoparentais – pai ou mãe e filhos – ou famílias mais pequenas que não queriam passar o Natal em casa sozinhos, agora temos famílias inteiras, com avós, pais, filhos, netos, sobrinhos, que procuram o Porto Novo para a sua ceia e almoço de natal.”

Mariana Gandra pertence a uma dessas famílias alargadas que procura o Sheraton para as festas de Natal. “Começámos a fazê-lo por ser mais prático e por haver sempre lugar para quem se quiser juntar a nós, sem dar trabalho a ninguém. Os meus tios trabalham no dia 24 até tarde, juntaram-se os meus sogros e esta foi a solução perfeita para juntar toda a gente”, relata a empresária. O filho, com seis anos, passou sempre o Natal assim. E gosta.  

“Tem muitos meninos para brincar e está com toda a família reunida, tal como estaria se estivesse em casa”, sublinha Mariana. Mas, acrescenta, há uma outra vantagem no facto de as refeições serem feitas no hotel: “Não há a vertente super consumista do Natal, porque estamos centrados nas refeições, no facto de estarmos juntos. As prendas acabam por ser o nosso último pensamento, já que só as distribuímos lá para meio/fim da tarde de dia 25, já em casa.”

Passar a Consoada no hotel não significa passar a noite de Natal hospedado — apesar de quase sempre as famílias voltarem para o almoço do dia seguinte. Todos os hotéis consultados pelo PUBLICO referiram que mais de metade dos clientes não fica alojado. Só o hotel Four Seasons Ritz, em Lisboa, referiu que a grande maioria dos comensais que previsivelmente iriam esgotar o restaurante “são clientes do hotel, turistas estrangeiros”, sintetiza Diana Castello Branco.

O Intercontinental - Palácio das Cardosas também referiu a presença de muitos turistas, nacionais e brasileiros (“um mercado em franco crescimento na cidade do Porto”). Ana Espergueira Mendes, directora comercial deste hotel localizado em plena Avenida dos Aliados, refere vários perfis de clientes que fazem as suas reservas “com meses de antecedência, porque gostaram da experiência do ano anterior”. Por exemplo, “as famílias locais que, apesar de fazerem a ceia de Natal em casa, reúnem a família no dia seguinte para o buffet de almoço sendo esta uma forma mais prática de celebrarem o dia”.

Todos estes hotéis de cinco estrelas já estavam habituados a muita procura para a passagem  de ano. Nas respostas enviadas ao PÚBLICO, sublinharam o facto de a procura para a noite de Natal se estar a acentuar nos últimos dois anos, e de as reservas serem feitas cada vez mais cedo. E foi generalizada a referência de que muitos clientes voltam todos os anos, por gostarem da forma como são tratados. 

“Acaba por ser um ambiente muito familiar. Os empregados são por norma os mesmos (já nos conhecem) e as outras famílias também costumam ser habituais”, afirma Mariana Gandra. E se admite que passar as festas natalícias num hotel pode parecer “estranho”  — “a primeira vez, parece que falta alguma coisa, nem que seja estar de pantufas!”  —, logo acrescenta que “o ambiente é tranquilo e sem ‘frescuras’”. “Sente-se e vive-se o Natal na mesma,  porque o importante é quem se senta naquela mesa e estarmos todos juntos, sem stresses para ninguém. E o Natal é bem propício a stresses por parte de quem compra comida e bebida, cozinha, arruma. Aqui estamos sem televisão e sem distrações, só a desfrutar da companhia uns dos outros”, argumenta. 

Esta nova tendência, de procurar hotéis no centro da cidade — não só os das grandes cadeias, mas também Hoteis-Boutique como, por exemplo, o Bairro Alto Hotel, cuja lotação para almoço, no restaurante Flores do Bairro está prestes a esgotar — vem somar-se àquela que leva algumas famílias a aproveitar a época para fazer “escapadinhas” fora da cidade. 

É o caso de Pedro Coelho dos Santos, um profissional de relações públicas que desde há sete anos marca estadia e refeição numa das Pousadas de Portugal, com um dos irmãos e alguns amigos. “É muito menos stressante. Sou filho de pais separados e no Natal há sempre várias visitas aos dois ramos da família que se tem de fazer, muitas vezes por obrigação. Se estiveres fora, o assunto está resolvido”. A vertente gastronómica também é importante: “Tens sempre bons chefs de cozinha a fazer as refeições”. “Quando quase toda a gente sai da época natalícia de rastos, com a trabalheira e correria desses dias, quem tira férias está impecável, com as baterias carregadas e pronto para o novo ano!”, argumenta.