Recuperação russa irá demorar dois anos no máximo, diz Putin

Presidente russo recusa-se a qualificar de "crise" a actual situação económica da Rússia e está confiante numa retoma "inevitável".

Putin responde a perguntas de centenas de jornalistas
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Putin responde a perguntas de centenas de jornalistas Maxim Zmeyev / Reuters

Em plena crise do rublo, o Presidente russo, Vladimir Putin, mostrou-se confiante numa recuperação económica, mas admitiu que a actual conjuntura possa durar dois anos. No plano externo, o líder russo acusou o Ocidente de querer construir um “muro” na Europa. Ao longo de mais de três horas, Putin respondeu a perguntas de dezenas de jornalistas que cobriram a economia, a diplomacia, a política interna e até a sua vida pessoal.

A situação económica russa era o tema que compreensivelmente recolheu mais atenção. Putin, sem recorrer a quaisquer notas, dirigia-se a mais de mil jornalistas russos e internacionais, na conferência de imprensa anual de fim de ano em Moscovo – um evento sem limite temporal e que no ano anterior tinha durado mais de quatro horas. Desde o início do ano, o rublo caiu 50% face ao dólar, os preços disparam e as taxas de juro foram subidas pelo banco central de 10,5% para 17%. No entanto, Putin recusa a classificar de crise o momento actual vivido pela economia russa: “Não acho que se possa chamar de crise, podem chamar o que quiserem.”

  


 
Putin manifestou-se confiante na recuperação “inevitável” da economia russa. “No cenário mais desfavorável para a conjuntura internacional, a situação pode durar dois anos, mas pode corrigir-se antes”, afirmou. Tanto o governo como o banco central “actuaram correcta e adequadamente”, defendeu Putin, apesar de admitir que a resposta poderia ter sido mais rápida.

A contribuir para a situação actual concorrem a queda acentuada do preço do petróleo e a aplicação das sanções internacionais como resposta à intervenção russa na crise ucraniana. O Presidente russo estima que as sanções – que mais tarde disse terem sido impostas “de forma ilegal e ilegítima” – tenham contribuído entre “20 a 30%” para o estado actual da economia.

Quase ao mesmo tempo que Putin falava, a União Europeia aprovava um novo pacote de medidas para proibir investimento europeu na Crimeia, como retaliação pela anexação russa em Março. As empresas europeias ficam assim impedidas de comprar imóveis na península do Mar Negro, os bancos não podem financiar empresas locais e até as paragens de navios de cruzeiro europeus são suprimidas.

Um “novo muro” na Europa

Confrontado com a situação na Ucrânia – que enfrenta uma guerra civil entre o exército e as forças separatistas pró-russas –, Putin criticou a “operação punitiva” lançada pelas autoridades no Leste do país. Ainda assim, Putin disse acreditar que “o Presidente ucraniano, Petro Poroshenko, quer honestamente resolver este conflito”, acrescentando não estar sozinho nesse desejo.

A Rússia é acusada pelo Ocidente de apoiar as milícias pró-Moscovo e de ter enviado forças militares para o território ucraniano para combater o exército e Putin veio negar novamente essas acusações esta quinta-feira. Respondendo a uma pergunta de um jornalista ucraniano, Putin negou que os soldados que foram encontrados no território ucraniano sejam mercenários, mas sim “voluntários” e aplaudiu aqueles que “seguem o apelo da sua consciência, cumprem o seu dever como voluntários a combater no Leste da Ucrânia”.

Sobre a crescente tensão entre o Ocidente e a Rússia, Putin criticou aquilo que considera um “novo muro” em construção na Europa. “Trata-se de um muro virtual, mas já começa a ser construído”, explicou, dando o exemplo do sistema antimísseis da NATO posicionado perto das fronteiras russas. “Os nossos parceiros decidiram que foram os vencedores, que continuavam a ser um império e que os outros eram os seus vassalos que era preciso fazer andar ao seu passo”, disse ainda.

Nos últimos tempos esta tensão tem sido manifestada através das manobras militares da Força Aérea russa no espaço aéreo europeu, que tem deixado algumas capitais em sobressalto. Para Putin, a postura russa não é agressiva – “estamos apenas a proteger os nossos interesses”, referiu destacando a hipocrisia americana. “Temos apenas duas bases militares no exterior (…) enquanto os EUA têm bases em todo o mundo, e é a Rússia que está a ser agressiva?”, questionou.

A quatro anos das próximas eleições, Putin disse ainda ser cedo para pensar numa possível recandidatura à presidência. Antes disso, um jornalista tinha questionado se Putin teria tempo para ter uma vida pessoal, e este aproveitou para recordar um diálogo que teve. “Um dignitário da Europa perguntou-me (…) ‘amas alguém?’, e eu respondi-lhe ‘sim’. ‘E essa pessoa ama-te também?’. ‘Sim’” “Tudo corre bem, não se preocupem”, garantiu Putin, perante as gargalhadas gerais.

De uma forma geral, foi uma conferência de imprensa “estranha”, notou o jornalista do The Guardian, Shaun Walker, que esteve presente. Putin “disse o que era esperado sobre a política externa, defendendo vigorosamente a Rússia sem ser demasiado agressivo (...). É improvável que as suas palavras aterrorizem os mercados, mas provavelmente também não vão tranquilizá-los-los de forma significativa”, analisou.