Sobrinho pergunta pelo “buraco” do BESA se o dinheiro ficou em Portugal

Ex-presidente do banco angolano assume parte da culpa sobre o que correu mal, sem deixar de imputar responsabilidades. A troika, diz, tinha informação sobre o BESA e o GES “nunca foi a Santa Casa da Misericórdia”.

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Álvaro Sobrinho começou a ser ouvido no Parlamento pouco depois das 16h desta quinta-feira Enric Vives-Rubio
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“O dinheiro ficou no BES em Portugal”, garantiu o banqueiro luso-angolano Enric Vives-Rubio
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Sobrinho diz que o “BESA nunca vendeu papel comercial do GES” Enric Vives-Rubio
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“O BES não foi uma torneira de liquidez para o BESA”, afirmou o gestor Enric Vives-Rubio
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Sobrinho foi accionista da ESI “a convite de um membro do Conselho Superior” do GES, mas diz ter saído “em finais de 2012, início de 2013” Enric Vives-Rubio
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Quando Álvaro Sobrinho entrou nesta quinta-feira na última sala do corredor da Assembleia da República tinha uma grande audiência à espera, apenas equiparável, mas ainda assim inferior, à que dias antes recebera naquele espaço Ricardo Salgado, que na mesma comissão de inquérito à gestão do BES, o acusou, entre outras matérias, de gestão danosa.

Tinha chegado o momento de Sobrinho, que liderou o Banco Espírito Santo Angola (BESA) durante uma década, dar a sua versão dos factos. E eram grandes as expectativas sobre qual seria a táctica de defesa do banqueiro luso-angolano: ou se resguardava com o argumento de que o tema BESA está resolvido (foi absorvido pelo Estado angolano) e, nesta matéria, não respondia perante as autoridades portuguesas; ou defendia-se, responsabilizando Salgado, as autoridades de supervisão e auditores, pois as contas do BES reflectiam a exposição ao BESA.

Sentado entre Fernando Negrão, o presidente da comissão de inquérito, e João Moita (ex-BES, com o pelouro do risco, e com trabalho realizado no quadro do Acordo de Basileia), Sobrinho arrancou com a audição lendo um curto depoimento que trazia consigo. A ouvi-lo, não muito longe, estava o seu advogado, Rogério Alves.

“Durante os dez anos em que estive à frente da gestão do BESA, mantinha-me informado, sabia o que lá se passava e decidia. Assumo todas as responsabilidades pelas minhas decisões. Tomá-las não era um privilégio, era a minha obrigação”.

Não foi preciso muito tempo para se ficar a saber qual a linha de orientação do banqueiro: um discurso cheio de tecnicidade, no qual assumiu o seu papel pelas decisões que tomou enquanto presidente do BESA, mas sem deixar de endossar responsabilidades. “Eu reportava a um conselho de administração e, ao contrário do que ouvi, eu não reportava ao dr. Ricardo Salgado. Eu, pelos estatutos, reportava ao conselho de administração do BESA, que tinha como presidente [chairman] o dr. Ricardo Abecassis Espírito Santo. Outra coisa é como é que o CEO do BESA se articulava com o accionista BES”.

E aí, relatou, relacionava-se com Salgado a um ritmo mensal e a relação “era muito próxima”. Mas disse mais: as contas do BESA estavam reflectidas nas do BES, que, por sua vez, reportava ao Banco de Portugal. A informação era pública, conhecida dos “auditores”. Ao fim de várias horas de depoimento, fez questão de dizer que a auditora “KPMG Angola” e “KPMG Lisboa” são “quase a mesma coisa”. E mostrou-se disponível para fazer chegar aos deputados a informação entregue à troika sobre o BESA.

Quando o deputado do PS Pedro Nuno Santos o inquiriu sobre os mecanismo de financiamento do BES ao BESA (que atingiram 3300 milhões de euros), sendo que parte serviu para adquirir dívida pública angolana, disse: “Se calhar foi para passar proveitos para o BES”. “Os créditos foram dados, mas tivemos um custo financeiro nesta operação gigantesco”, que em três anos foi de 700 milhões de euros. “Este valor entrava directamente no BES.” E clarificou que o “BESA nunca vendeu papel comercial do GES”. Uma parte substancial “desta linha [ao BESA] foi para trade finance, para o apoio às relações comerciais de empresas portuguesas com Angola”, mas muitos destes clientes eram importadores e exportadores. “O crédito ficava no BESA e recebiam no BES esse dinheiro”. E repetiu: “O dinheiro ficou no BES em Portugal”. Mais à frente, diria: “Tenho sempre ouvido falar do buraco, do buraco”. Sobrinho invoca a sua formação financeira para desafiar os deputados: “Apresentem-me números do buraco. O buraco, o buraco, o buraco...”.

Sobrinho estranha, aliás, que se tenha descoberto um buraco de um dia para o outro. À pergunta do deputado do PSD Carlos Abreu Amorim, se “está alicerçada em factos” a ideia de que Salgado não sabia de nada, Sobrinho responde que não. E ironizou: “Se a surpresa é tão grande, somos incompetentes. Descobriu-se em dois meses o que não se descobriu em 12 anos. E num período de férias.” Mais à frente, diria: “Podem dizer que o BESA usou mal [o crédito dado pelo BES ao BESA], que eu não devia ter feito, mas não podem dizer que eu sou responsável [por tirar o dinheiro do BES e pô-lo em Angola]”.

Voltar atrás
O banqueiro por várias vezes recusou estar a vitimizar-se. “Eu sou culpado, sou. Sou e tenho responsabilidades”. Se pudesse, voltava atrás. Mas o que fez enquanto foi presidente do BESA, diz tê-lo feito “em consciência”. E diz que o financiamento do BES ao banco angolano engrossou em mais de 1000 milhões de dólares depois de ter deixado a liderança da instituição.

O banqueiro também não se cansou de lançar farpas a Salgado. “O Grupo Espírito Santo, para mim, nunca foi a Santa Casa da Misericórdia”, afirmou. “O BES não foi uma torneira de liquidez para o BESA”.

Álvaro Sobrinho contou ainda que foi accionista da Espírito Santo International (ESI) “a convite de um membro do Conselho Superior”. Mas diz ter saído “em finais de 2012, início de 2013”. Foi nesta fase que o banqueiro assumiu a ruptura com Ricardo Salgado e com Amílcar Morais Pires, braço-direito do ex-presidente do BES.

“O banco não dava crédito ao regime angolano, dava crédito a clientes”, garantiu o ex-presidente do BESA, afirmando que, “se pudesse ir mais longe, podia fazer uma discriminação de quem utilizou a linha [de crédito dada pelo BES ao BESA], até para dar um maior conforto aos próprios contribuintes”.

O gestor respondeu a quase todas as questões dos deputados, raramente se esquivou a dar esclarecimentos, mas quando o tema era o BESA e Angola alegou muitas vezes o sigilo bancário. E irritou-se quando a deputada do BE Mariana Mortágua perguntou detalhes sobre os seus rendimentos pessoais: “Há relevância nisto?”. Depois, contestou o facto de na comissão as mesmas interrogações não terem sido colocadas a outras pessoas, “que têm exactamente as mesmas [posses] ou se calhar até mais”.

Questionado pelo deputado do PSD Carlos Abreu Amorim sobre o relato de ameaças a quem ia para Angola tentar perceber o que se passava no BESA, Álvaro Sobrinho reagiu a esta acusação de Ricardo Abecassis Espírito Santo com ironia. “Se ele diz isso, uma coisa que é preciso analisar é a psicanálise. O dr. Ricardo Abecassis foi presidente [não executivo] do BESA desde o início”.

Sobrinho contrariou a versão de ex-administradores do BES e do próprio Salgado, de que o BESA tinha autonomia informática, mas acabaria por não esclarecer totalmente a questão. Quando Pedro Nuno Santos pergunta como é que o BES fazia o acompanhamento do crédito concedido pelo banco angolano, Sobrinho disse que tal acontecia “através dos reports mensais”. E sabia o BES dos créditos concedidos? Resposta do banqueiro: “Os grandes riscos, sim”. “Contradições vamos encontrar muitas”, sintetizou o deputado socialista.

O caso Monte Branco
“A Akoya não é o Monte Branco”, clarificou Sobrinho, accionista da Akoya, notando ainda que a gestora de fortunas, que “está em liquidação”, “é uma pequeníssima parte da Akoya, representando apenas 2,3% do Monte Branco”. O banqueiro sublinhou ainda que antes dos dois gestores da empresa terem sido detidos (Nicolas Figueiredo e Michel Canals) a sociedade tinha sido submetida “com distinção” à fiscalização “das autoridades suíças”. E disse que depois da detenção dos dois gestores, os accionistas da Akoya pediram às autoridades suíças “uma nova inspecção” que voltou a ser positiva. A Akoya está agora em fase de liquidação, mas “os sete colaboradores” da sociedade gestora de fundos, “estão todos a trabalhar” noutras empresas na Suíça, disse.

Sobre a prenda dada pelo empresário José Guilherme a Ricardo Salgado, o ex-presidente afirmou: “A operação de 14 milhões foi realizada e eu executei-a por ordem do senhor José Guilherme”.