"Eu sou culpado e tenho responsabilidades”, diz Álvaro Sobrinho

O ex-presidente do Banco Espírito Santo Angola (BESA) está a ser ouvido no Parlamento e garante que os 3300 milhões de euros de financiamento do BES ao BESa não saíram de Portugal.

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Álvaro Sobrinho Enric Vives-Rubio
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Logo a abrir a audição parlamentar, o ex-presidente do Banco Espírito Santo Angola (BESA) Álvaro Sobrinho fez questão de salientar o papel da instituição no apoio à economia angolana, “transversal a todos os sectores, embora com mais ênfase em investimentos públicos e empresariais”.

“Durante os dez anos quem que estive à frente da gestão do BESA, mantinha-me informado, sabia o que lá se passava e decidia. Assumo todas as responsabilidades pelas minhas decisões. Tomá-las não era um privilégio, era a minha obrigação”.

Eram 16h06 quando o ex-presidente do BES Angola, Álvaro Sobrinho, entrou na sala 6 da Assembleia da República, onde decorrem os trabalhos da comissão de inquérito à gestão do BES-GES, para dar a sua versão sobre o colapso do grupo.

O banqueiro luso-angolano chegou acompanhado de João Moita, do grupo BES, e de um advogado, Rogério Alves.

Depois de ler uma declaração escrita, Sobrinho manifestou-se disponível para responder “com factos” às questões dos deputados e afirmou que se absterá de responder a comentários "que lhe tenham sido dirigidos” e que não entrará em “achincalhamentos pessoais”. Para responder aos deputados, promete respeitar as suas obrigações de sigilo perante as autoridades portuguesas e angolanas.

A um pedido de esclarecimento de Cecília Meireles, deputada do CDS-PP, sobre a exposição do BES ao BESA, de 3000 milhões, o banqueiro luso-angolano explicou: "Diria que obedecia a regulamentos próprios de concessão de crédito" e que "havia uma metodologia" de concessão de crédito rigorosa. A linha de crédito do BES ao BESA iniciou-se em 2008 com um financiamento de "1500 milhões" para apoiar o Estado angolano, comprando obrigações públicas com maturidade a 10 anos. Um dos "detalhes da operação" é que o Estado angolano pagou ao BES cerca de 700 milhões de dólares de juros em três anos", mas "o capital é para ser reembolsado em 2018". "Outra parte da linha serviu para apoiar as empresas exportadoras portuguesas." 

Todos os créditos dados pelo BESA, nomeadamente a empresas, "eram reportados ao BES”, que os reportava ao Banco de Portugal, afirmou Álvaro Sobrinho. “Todo o crédito foi reportado sempre às instituições superiores”. “Tínhamos uma base mensal em que reportávamos toda a carteira de crédito”.

Uma parte substancial "desta linha [de financiamento do BES ao BESA, no valor de 3300 milhões de euros] foi para trade finance, para o apoio às relações comerciais de empresas portuguesas com Angola", mas "muitos destes clientes eram importadores e exportadores. O crédito ficava no BESA e recebiam no BES esse dinheiro". E repetiu: "O dinheiro ficou no BES em Portugal."

E à questão da deputada Cecília Meireles se de facto foram levantados do BESA 525 milhões de dólares por sociedades, respondeu: “Olhe, eu vou dizer o seguinte: nem bancos americanos têm tanto cash… É um absurdo”.

A deputada do CDS-PP inquiriu Sobrinho sobre se o BESA tinha alguma conta ou várias contas no BES, tendo o banqueiro explicado que "o BESA só tinha um banco correspondente que era o BES”. E “todas a funcionalidades” de operacionalidade do BESA eram controladas pelo banco depositante, “neste caso o BES”, garantiu o gestor.

À pergunta da deputada centrista sobre se conhece parte do negócio da Escom e se confirma que foi dado um sinal de 85 milhões de dólares pela venda de 100% desta sociedade (venda que não chegou a concretizar-se), Sobrinho respondeu: “Confiro com certeza”. E quem recebeu o sinal? “Quem recebeu, posso dizer, o destino não sei. Quem recebeu foi a Espírito Santo Resources”.

Polémica com salário
Mariana Mortágua, deputada do Bloco de Esquerda, começou por questionar o depoente sobre quanto auferia quando era quadro do BES, tema que Sobrinho contestou por estar a ser levantado na comissão de inquérito. Onde trabalhou Sobrinho antes de ir para o BESA? “No BES”. Que funções desempenhou? Técnico “sempre na área de activos financeiros”, nomeadamente na área de fundos de pensões – Esaf. Que salário recebia? “Ó senhora deputada, isso não me lembro”. “Posso ver, mas não me recordo”. E é verdade que recebia da Esaf um salário superior a dois milhões por ano? Foi então que Álvaro Sobrinho se insurgiu: “Há relevância nisto?”. E contestou o facto de estas questões não terem sido também colocadas a outras pessoas ouvidas na comissão, que “que têm exactamente as mesmas [posses] ou se calhar até mais”.

Sobrinho procura afastar-se da ideia de que Ricardo Salgado não estava a par da situação no banco angolano. Em resposta ao deputado do PSD Carlos Abreu Amorim, que recordou o que Salgado dissera na sua audição da semana passada, Sobrinho respondeu: “Eu reportava a um conselho de administração e, ao contrário do que ouvi, eu não reportava ao dr. Ricardo Salgado. Eu, pelos estatutos, reportava ao conselho de administração do BESA, que tinha como presidente [chairman] o dr. Ricardo Abecassis Espírito Santo. Outra coisa é como é que o CEO do BESA se articulava com o accionista BES”. E aí, disse, relacionava-se com Salgado de uma forma mensal e a relação “era muito próxima”.

O banqueiro luso-angolano estranha que se tenha descoberto de um dia para outro um buraco. À pergunta de Abreu Amorim se “está alicerçada em factos” a ideia de que Ricardo Salgado não sabia de nada, Sobrinho responde que não. E ironiza: “Se a surpresa é tão grande somos incompetentes (…) Descobriu-se em dois meses o que não se descobriu em 12 anos. E num período de férias…”.

Esse tema "eu posso comentar e podem-me levantar o segredo profissional pois vou falar" de actividade em Portugal, observou Sobrinho, para logo perguntar: "Mas digam-me se é uma boa prática emprestar 1500 milhões de euros sem contrato? Foi o dr. José Maria Ricciardi que aqui disse que a operação de 1500 milhões nem foi a conselho de crédito."

"O banco não dava crédito ao regime angolano, dava crédito a clientes", garantiu o ex-presidente do BESA. " Se pudesse ir mais longe, podia fazer uma discriminação de quem utilizou a linha [de credito dada pelo BES ao BESA], até para dar um maior conforto aos próprios contribuintes", concedeu o banqueiro.,

Questionado pelo deputado do PSD Carlos Abreu Amorim sobre o relato de ameaças a quem ia para Angola tentar perceber o que se passava no BESA, Álvaro Sobrinho reagiu a esta acusação de Ricardo Abecassis Espírito Santo com ironia. “Se ele diz isso, uma coisa que é preciso analisar é a psicanálise. O dr. Ricardo Abecassis foi presidente [não executivo] do BESA desde o início”.

Álvaro Sobrinho contraria a versão de ex-administradores do BES e do próprio presidente do banco português, Ricardo Salgado, de que o BESA tinha autonomia informática. Quando o deputado do PS Pedro Nuno Santos pergunta como é que o BES fazia o acompanhamento do crédito concedido pelo banco angolano, Sobrinho diz que tal acontecia “através dos reports mensais”, que se disponibilizou para dar à comissão de inquérito. E sabia o BES dos créditos concedidos? Resposta do banqueiro: “Os grandes riscos, sim”. “Contradições vamos encontrar muitas”, sintetizou Pedro Nuno Santos.

O banqueiro insistiu que “quem controlou todo o sistema informático do BESA foi Portugal”, uma empresa do Grupo Espírito Santo. “As máquinas estavam aqui em Portugal”, assegurou, sublinhando que em Angola não havia capacidade para o fazer.

A cunhada de Sobrinho
O banqueiro contestou também a declaração de Salgado segundo a qual a cunhada do banqueiro luso-angolano era responsável pela concessão do crédito do BESA. “A minha cunhada não era responsável de crédito”, contrapôs, dizendo que havia um comité a quem cabia decidir a concessão do crédito. A única alteração que houve foi a expansão da área comercial do banco “para encaixar as pessoas que vinham de Portugal”, assegurou. O banqueiro luso-angolano considerou a declaração de Salgado “no mínimo deselegante”, alegando que o ex-presidente do BES “sempre soube” que a cunhada trabalhava no banco angolano.

Álvaro Sobrinho contraria ainda a versão de ex-administradores do BES e do próprio presidente do banco português, Ricardo Salgado, de que o BESA tinha autonomia informática, mas acabaria por não esclarecer totalmente a questão. Quando o deputado do PS Pedro Nuno Santos pergunta como é que o BES fazia o acompanhamento do crédito concedido pelo banco angolano, Sobrinho diz que tal acontecia “através dos reports mensais”, que se disponibilizou para dar à comissão de inquérito. E sabia o BES dos créditos concedidos? Resposta do banqueiro: “Os grandes riscos, sim”. “Contradições vamos encontrar muitas”, comentou Pedro Nuno Santos.

O banqueiro insistiu que “quem controlou todo o sistema informático do BESA foi Portugal”, uma empresa do Grupo Espírito Santo. “As máquinas estavam aqui em Portugal”, assegurou, sublinhando que em Angola não havia capacidade para o fazer. No entanto, Sobrinho afirmou que este “nunca foi um sistema informático comum" ao BES e ao BESA.

“O Grupo Espírito Santo, para mim, nunca foi a Santa Casa da Misericórdia”, afirmou o banqueiro luso-angolano, a propósito das relações entre o BES e o BESA, na sequência de uma pergunta da deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua. “Tenho sempre ouvido falar do buraco, do buraco….”. Sobrinho invoca a sua formação financeira”, para desafiar os deputados: “Apresentem-me números do buraco. O buraco, o buraco, o buraco…”.

O banqueiro por várias vezes fez questão de dizer que não veio à comissão de inquérito para se vitimizar. “Eu sou culpado, sou. Sou e tenho responsabilidades”. Mas o que fez enquanto foi presidente do BESA, diz tê-lo feito “em consciência”.

Sobrinho concede que, se pudesse, voltava atrás. Frisa, porém, que o financiamento do BES ao banco angolano engrossou em mais de 1000 milhões de dólares depois de ter deixado a liderança da instituição. “Não estou a fazer isto para me vitimizar, mas também tenho de me defender”, disse.

A troika tinha toda a informação sobre o BESA
"Se calhar foi para passar proveitos para o BES", concluiu Álvaro Sobrinho numa resposta ao deputado do PS, Pedro Nuno Santos, que o inquiriu sobre os mecanismo de financiamento do BES para o BESA (que atingiram 3300 milhões), sendo que parte serviu para adquirir dívida pública angolana. “Os créditos foram dados, mas tivemos um custo financeiro nesta operação gigantesco", que em três anos foi de 700 milhões de euros. “Este valor entrava directamente no BES.” E clarificou que o "BESA nunca vendeu papel comercial do GES."

A deputada do CDS-PP Cecilia Meireles questionou o banqueiro sobre se o BESA informou a troika, tendo este dito que “sim”. E que irão ver o "nível de informação que foi enviada" que fará chegar à comissão de Inquérito.

Nas reuniões do Conselho de Administração do BESA," eram feitas apresentações detalhadas sobre a actividade do banco havendo encontros com periocidade trimestral", explicou Sobrinho, recordando que Rui Guerra participava desde 2006 no órgão liderado por Ricardo Abecassis. 

“Podem dizer que o BESA usou mal [o crédito dado pelo BES ao BESA], que eu não devia ter feito, mas não podem dizer que eu sou responsável [por tirar o dinheiro do BES e pô-lo em Angola]”, afirmou.