Entrevista

“Este é um filme de urgência, que pode ajudar a transformar um bocadinho o mundo”

José Miguel Ribeiro é o realizador de Papel de Natal, uma média-metragem de animação que é um libelo ecológico em defesa do planeta. Estreia-se esta quinta-feira no circuito comercial, com mais duas curtas-metragens animadas.

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José Miguel Ribeiro Enric Vives-Rubio
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Papel de Natal, de José Miguel Ribeiro DR
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Papel de Natal, de José Miguel Ribeiro DR
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Ivo Canelas em Papel de Natal, de José Miguel Ribeiro DR
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Dodu, o Rapaz de Papel, de José Miguel Ribeiro DR
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O Gigante, de Júlio Vanzeler e Luís da Matta Almeida DR

Papel de Natal, de José Miguel Ribeiro (n. Amadora, 1966), uma média-metragem de temática ecológica que associa animação e imagem real, é o filme de fundo de um conjunto que inclui mais duas curtas animadas – Balão Lua, também de José Miguel Ribeiro; e O Gigante, de Júlio Vanzeler e Luís da Matta Almeida –, e que esta quinta-feira tem estreia numa dezena de salas do país.

Este projecto produzido pela Praça Filmes (Montemor-o-Novo) foi concretizado com o envolvimento da Câmara de Almada – é nesta cidade que, no próximo dia 21, no Teatro Joaquim Benite, tem lugar uma sessão especial onde será apresentado o making of de Papel de Natal, bem como uma aplicação com um livro digital sobre o projecto.

Papel de Natal é um filme com uma mensagem claramente ecologista. Como surgiu o projecto?
É um filme que surge do encontro de dois projectos em que me envolvi. Um deles, enquanto cidadão, nos vários natais que fui vivendo, pela consciência que tive da quantidade de papel e de lixo que é acumulado nas noites de Natal. É uma coisa que achei sempre um bocadinho non-sense, porque aquele papel que de repente estava nas nossas casas, no dia seguinte ia todo parar ao lixo. E é papel novo, enquanto normalmente o lixo tem coisas sujas e gastas. Sempre me pareceu um bocadinho perverso estar a desperdiçar tanto papel valioso. É uma preocupação também com o planeta e com o futuro das gerações. Depois, deu-se o encontro dessa consciência com a circunstância de, na minha vida profissional, estar a desenvolver o projecto de uma série, Dodu, o Rapaz de Papel.

É um projecto que vem já de 2009, e de que tinha já feito um filme-piloto...
Exactamente, que acabou por ser distribuído pela Agência [da Curta-Metragem], e foi a única coisa que ficou visível desse projecto, que quase teve financiamento montado, mas acabou por sucumbir também com a queda do FICA [Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual]. Liguei as duas coisas, e tenho que confessar que também me decidi a fazê-lo quando percebi que a série não iria avançar.

Esta média-metragem surgiu, então, como alternativa à série?
É verdade. Senti que se o Dodu tiver de ficar por aqui, pelo menos dei-lhe a oportunidade de ter o seu momento neste projecto um bocadinho mais longo.

A série está definitivamente posta de parte?
O projecto está a afastar-se tanto, que não sei se o conseguirei fazer. Também já me sinto tão longe e diferente de quando o pensei. Isto não significa que não gostaria de o ver feito. É uma questão que a [produtora] Praça Filmes terá de pensar no futuro. Mas, na verdade, acho que o Dodu tem o seu lugar, e reuniu um interesse enorme nos vários festivais por onde passou. Para o tamanho que tinha, teve o seu pequeno reconhecimento, com pessoas a ligarem-me e a dizerem-me que gostavam de ver a série.

Disse que este projecto esteve no congelador quatro anos. Por que é que não avançou antes?
São dois projectos que surgiram quando eu ainda estava na [produtora] Sardinha [em Lata]. Metemos um projecto ao FICA, que incluía um conjunto de vários filmes. Quando o FICA caiu, os projectos ficaram todos comprometidos. E o Papel de Natal também. Já tínhamos começado a filmar a animação, estávamos quase no final, em Montemor-o-Novo, e ficámos com a sensação de que o projecto não iria ser concretizado.

Como é que finalmente reuniu as condições para concluir o projecto?
Foi um milagre, com a descoberta do interesse do Departamento de Gestão Ambiental da Câmara de Almada. E do entusiasmo da pessoa que o gere, a engenheira Catarina Freitas. Já tínhamos trabalhado com eles, com a encomenda de um filme pequenino que foi levado ao Rio de Janeiro, A Energia na Terra Chega para Todos. A entrada no projecto da Câmara de Almada, financeiramente, em termos logísticos e inclusivamente com contributos na escrita do guião, foi fundamental.

Qual foi o orçamento do filme?
A imagem em animação deve ter andado nos 150 mil euros, a parte de imagem real perto dos 40 mil, o que no final andará à volta dos 200 mil euros…

A montagem deste programa com três filmes e a distribuição comercial em várias cidades foi difícil?
Este é um filme de urgência, que acredito que pode ajudar a transformar um bocadinho o mundo, e que esta transformação é necessária neste momento. Tentámos a distribuição através da Nos, que não se mostrou interessada. Tentámos a Midas, que também não quis distribuir – apesar de ter disponibilizado o Cinema Ideal [em Lisboa], para passar o filme. Então decidimos ser nós, a Praça Filmes, a distribui-lo. Fizemos o contacto com o grupo dos cinemas City, que correu muito bem. E com a UCI, que garante a única sala que temos no Porto, o Arrábida Shopping [em Gaia]. A pouco e pouco fomos juntando salas, e conseguimos reunir dez no país, incluindo Leiria, Setúbal, a Grande Lisboa...

Por que razão, na sequência dos filmes, o piloto do Dodu está separado do Papel do Natal, tendo no meio O Gigante, uma animação totalmente diferente?
A razão é que houve uma grande distância entre os dois projectos. Um deles está na génese da personagem Dodu, que era o sonho da série. Mas, pelo meio, passou muito tempo, e são duas linguagens diferentes. Esta sequência foi a forma de marcarmos este tempo que passou, e a diferença entre os dois filmes. O primeiro é mais poético, menos descritivo e objectivo. Apesar de terem o mesmo personagem. É como um actor representar com o Hitchcock e, a seguir, entrar num filme totalmente diferente…

Não temeu que, no confronto com o Dodu de Balão Lua, o Papel de Natal surja demasiado restringido a um público muito infantil e a uma época específica do ano?
Admito que há o perigo de que isso aconteça. Mas, estando nós a falar do Natal, estamos a falar dum momento onde o consumo atinge níveis e proporções gigantescas, mas este problema afecta a sociedade durante o ano todo. Do que estamos a falar no filme é mais da sustentabilidade do planeta do que propriamente do Natal.

Quem acompanha a sua obra, desde A Suspeita até Viagem a Cabo Verde, reconhece a sua figura novamente na do pai em Papel de Natal. Continua a ser o seu alter ego?…
(Risos) O Victor Andrade aparece a fazer o papel depois de o Nuno Lopes ter saído do projecto. Foi com ele que começámos a filmar, em 2011. Mas quando voltámos a falar em 2014, o Nuno estava indisponível para fazer a parte da imagem real, e andámos desesperadamente à procura do pai da Camila, quando já estávamos a aproximarmo-nos vertiginosamente da altura final das filmagens. Então descobrimos o Victor: quando vimos a fotografia dele – era só preciso deixar crescer a barba –, percebemos que era exactamente o “boneco”. Foi uma grande satisfação, e o Victor fez o papel bem.

O Ivo Canelas já fazia parte do elenco inicial?
Sim, ele esteve desde o início e até ao fim. Envolveu-me muito no projecto. E foi ele mesmo que criou um bocadinho a personagem, depois de lhe darmos algumas indicações. Foi para casa e, numa noite de inspiração, fez aquelas transformações físicas todas. Cortou o cabelo e apareceu na rodagem a dizer: “Zé Miguel, tenho uma surpresa p’ra ti”. Tirou o chapéu e estava meio careca. E foi daí que apareceu aquela personagem, que é o Pai Natal de todos os dias.
Está garantida a exibição do filme na televisão e/ou a edição em DVD?

Este conjunto dos três filmes foi criado propositadamente para fazer uma sessão de cinema de perto de uma hora. Depois da distribuição este ano, para o próximo temos já prevista a estreia na RTP2, ou mesmo na 1 – eles são nossos parceiros e estão interessados em passá-lo. É também possível que passe noutros canais de televisão, como o Panda-Portugal. O que vamos começar a fazer, a partir de agora é, por um lado, a distribuição pelos festivais, através da Agência, e depois encontrar também um distribuidor internacional de conteúdos para crianças. E existem muitos. Para ter uma ideia, neste momento, em França, há estúdios que passaram a fazer só filmes para crianças. E existe um movimento muito grande de sessões de filmes alternativos de curtas-metragens, que preenchem uma sessão e passam nas salas de cinema. Há também uma procura – e acredito que noutros países comece também a existir – de circuitos alternativos aos filmes puramente comerciais, que normalmente invadem as salas e as televisões.

Acredita que isso pode também acontecer em Portugal?
Já está a acontecer. A Zero em Comportamento criou uma distribuidora que está já a distribuir curtas-metragens para crianças. A Monstra já faz isso há algum tempo. A Casa da Animação também… Parece-me que começa também a existir, por parte dos pais destas novas gerações, um nível de exigência que faz com que eles já não aceitem, conformados, só aquilo que os grandes distribuidores querem mostrar. A exigência subiu, e acredito claramente que isso pode também acontecer em Portugal. Há público para isso começar a acontecer, pelo menos nas grandes cidades.

Como vê a situação da animação portuguesa, que está a viver a ressaca da suspensão, em 2012, dos apoios do ICA? Mas, no último Cinanima, em Espinho, foi estreada uma dezena de novos filmes…
Eu não vi todas as sessões do Cinanima. Tivemos aquela lufada de ar fresco com o filme do Vasco Sá e do David Doutel, Fuligem, de que gosto muito, e que ganhou o Grande Prémio. Mais uma vez, temos o cinema de animação em Portugal a regenerar-se e novas gerações a aparecer. Não foi um acidente geracional, que aconteceu ali com duas ou três pessoas. Começam a surgir novos criadores nacionais, com cada vez mais qualidade, o que me deixa muito satisfeito. Sinto que rapidamente eles nos ultrapassarão a nós, que andámos nisto há já mais tempo. Mas, dos outros filmes que apareceram no Cinanima, não me recordo de ver nenhum com a qualidade do Fuligem.

Estamos a sentir, acima de tudo, que no cinema de animação em Portugal faltou a consistência e a continuidade de investimento. O FICA foi uma miragem. Acenaram-nos com um apoio que podia chegar aos 10 milhões de euros para a animação, mas o único financiamento que houve foi para uma produtora que nem sequer produzia animação em Portugal, era uma distribuidora de DVD. Foi um flop. A criação nacional não beneficiou nada, e isso tem consequências. Mas agora temos de olhar para a frente e ver o que é que a nova lei e algumas mudanças que estão a ser feitas poderão trazer de volta ao cinema de animação, que precisa de mais apoio. Temos muitos cursos de animação espalhados pelo país. Eu estou a dar aulas em dois deles – na Lusófona em Lisboa e no Politécnico de Portalegre –, mas há mais, no Algarve, no Porto, em Guimarães, Portalegre... Entre os meus alunos, sinto que há pessoas muito motivadas e interessadas, e com muito talento. Só espero que elas também tenham a sua oportunidade, e que os apoios sejam reforçados. No último concurso, já foi para 750 mil euros, mas o ideal é chegarmos ao milhão de euros. Estamos a falar de curtas-metragens cujo apoio ronda os cem mil euros por filme. Um milhão dará perto de dez filmes por ano. Não é assim tanta coisa, se tivermos em conta os realizadores que já realizam e as novas gerações que precisam de renovar a produção.

Continua à frente da Casa da Animação, com sede no Porto. Qual é a situação actual, e que perspectivas vê para o futuro?
Neste momento, estamos [com sede] no Teatro do Campo Alegre, temos uma programação regular, com sessões uma vez por mês. Mas temos que crescer e arranjar outras formas de existência, que nos garanta a sobrevivência. Temos o apoio do ICA, que é importante, mas não chega. E neste momento é muito difícil, em Portugal, arranjar apoios alternativos, porque as empresas e instituições que o podiam fazer estão muito limitadas. A Câmara do Porto, apesar das limitações que tem, está a tornar-se de facto num apoio que não existiu nos últimos dez anos. Com essa dinâmica, tendo a sede no Porto, mas sabendo que é a Casa da Animação do país inteiro, e com uma dimensão internacional, tudo será mais simples a partir de agora. Mas está tudo em aberto. As coisas não estão feitas, vai ser preciso trabalhar muito e envolver as novas gerações de criadores.