Morreu o almirante Vítor Crespo, militar de Abril

Esteve no posto de comando das operações do 25 de Abril e foi o único oficial da Armada que subscreveu o Documento dos Nove de Melo Antunes.

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Vítor Crespo, ao centro, numa fotografia de 2004 com Vítor Alves (à direita) e Meneres Pimentel Pedro Cunha/Arquivo

O almirante Vítor Crespo, 82 anos, morreu esta quarta-feira, divulgou a Associação 25 de Abril, da qual o militar era presidente do conselho de presidência.

Vítor Manuel Trigueiros Crespo foi um dos principais dirigentes da Marinha do Movimento das Forças Armadas (MFA) e integrou a equipa do posto de comando sediado na Pontinha em 25 de Abril de 1974, liderada pelo então major Otelo Saraiva de Carvalho.

Vítor Crespo, membro da comissão coordenadora do MFA, foi o único militar da sua arma, a Marinha, que subscreveu o Documento dos Nove de Melo Antunes, opondo-se, assim, ao sector mais radical do MFA durante o PREC [Processo Revolucionário em Curso, no Verão de 1975]. Foi então que abandonou o Conselho da Revolução.

Depois do 25 de Abril, foi nomeado Alto-Comissário para Moçambique, cargo em que permaneceu até à independência daquela ex-colónia. Foi também ministro da Cooperação durante o VI Governo provisório, chefiado pelo almirante Pinheiro de Azevedo, e fez parte do primeiro Conselho de Estado após o 25 de Abril de 1974.  

Militares de Abril foram autores de "estrutura democrática"
Em entrevista concedida à agência Lusa por ocasião do 40º aniversário da revolução, em conjunto com outros três militares de Abril, o antigo oficial da Marinha lamentou também que não tenha sido criado "um clima de responsabilidade equivalente à estrutura democrática que foi criada".

"A Constituição tem uma estrutura democrática avançada para a época. Penso que não é por razão dela que o país tem passado as vicissitudes que tem passado, mas pelas pessoas que integram essa estrutura. Isto é, não se tem criado aqui um clima de responsabilidade equivalente à estrutura democrática que foi criada, e da qual eu me orgulho muito", referiu o almirante, que fez parte do Conselho da Revolução.

Comentando as bases programáticas da revolução de 1974, Vitor Crespo admitiu que o documento final acabou por ser um compromisso "cozinhado, com anotações", relativamente ao qual as principais cedências se prenderam com a descolonização.

"O MFA entendia que se devia reconhecer o direito dos povos à autodeterminação, conforme a carta das Nações Unidas e todos os esforços internacionais que tinham sido feitos nesse sentido, e o general e a sua linha defendiam outras teses de ligação", disse o almirante.

Vitor Crespo não foi o único oficial da Marinha a participar no golpe de estado de Abril de 1974, mas foi um dos que mais se notabilizou, tendo marcado presença no posto de comando do MFA (Movimento das Forças Armadas) na Pontinha.

Em 1983 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade e em 2005 com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. com Lusa