Opinião

Factor “i”: o factor europeu que Portugal ignora

Para o nosso futuro político (europeu e português) tão importante como o factor “e” (economia) vai ser o factor “i” (imigração).

1. Quando comparado com o resto da Europa, seja mais rica, seja mais pobre, Portugal não sofre com o problema da imigração. Entendamo-nos. Há em Portugal sérios problemas sociais ligados às comunidades imigrantes, há também motivos para preocupação com o racismo e a discriminação, há seguramente questões ligadas à integração e ao respeito pela identidade, há relação do assunto com o desemprego e há fundados temores dos efeitos da concentração da população migrante em bairros periféricos.

Mas não há qualquer possibilidade de compararmos a dimensão, a profundidade e o enraizamento político deste fenómeno com o que se passa no resto da Europa. Não estou apenas a falar da Alemanha, da Holanda, da Suíça, da Bélgica, da Noruega, da Dinamarca, da Áustria, da Finlândia e da Suécia. Nem estou sequer a falar dos destinos crónicos do Reino Unido ou da França, onde o tópico está mais quente do que nunca. Basta olhar para o que se passa em Espanha, na Hungria, em Itália ou até na Grécia para compreender que o tema da imigração marca tão ou mais fortemente a agenda política do que o tema da crise económica e financeira. Não há, por isso, paralelo entre a percepção que em Portugal se tem desta realidade e o verdadeiro impacto que ela tem em grande parte dos países europeus.

2. O principal factor de crescimento e de reforço sustentado da direita radical, em muitos dos países europeus, não é propriamente o desemprego ou a crise económica que lhe anda associada. É justamente, ao invés do que muitos julgam e pensam, o confronto “civilizacional” com as comunidades migrantes – em particular, está bom de ver, com aquelas que mais distância têm dos padrões e tradições tipicamente ocidentais. É evidente que o efeito conjugado da crise com a afluência cada vez maior de populações “estrangeiras” potencia a dimensão e a gravidade dos problemas. Em países tantas vezes admirados pela sua tolerância e capacidade de acolhimento como a Suíça ou a Noruega, a direita mais radical já contribui directamente para as soluções de Governo (com todas as consequências que isso acarreta). Olhe-se também para o impasse político que vive a Suécia, hoje refém de uma direita xenófoba, que aumentou exponencialmente a sua representação nas eleições de Setembro, forçou uma demissão do novo Governo e ameaça replicar um resultado relevante nas eleições que vão agora repetir-se.

3. As notícias de ontem sobre as novas “segundas-feiras” alemãs em que os manifestantes saem à rua para gritar palavras de ordem contra os imigrantes e, em especial, os imigrantes de fé muçulmana são deveras inquietantes. Tanto mais que, ao contrário do que sempre tentou e jurou Angela Merkel, agora já há um partido – a Alternativa para a Alemanha (AfD) – que, de um modo mais ou menos velado, vai pegando nessas e noutras bandeiras. A situação da França é talvez a mais preocupante, dada a relevância que tem vindo a assumir um partido tão extremista e nacionalista como é a Frente Nacional e a visibilidade e aceitação que tem sido capaz de recolher a sua líder, Marine Le Pen. Mesmo assim, não deixa de ser altamente problemática a deriva do Reino Unido, alavancada pelo UKIP, pois contesta não apenas a imigração enquanto tal, mas a simples ideia de liberdade de circulação no espaço europeu. Ainda na semana passada a imprensa do Reino Unido se “escandalizava” com o recrutamento significativo de pedreiros portugueses a 1200 euros por semana, por manifesta falta de mão-de-obra britânica. O caso é especialmente grave porque já contaminou o discurso do Partido Conservador e até do Partido Trabalhista. E, por outro lado, tem vindo a dar alento a alguns sectores apoiantes do Governo alemão para revisitar o tema da liberdade de circulação de trabalhadores dentro da União Europeia. Ponto que, aliás, também tinha sido tocado e volta a ser – nesta segunda incarnação da liderança da UMP – por Nicolas Sarkozy.

4. Nos países do Sul, a situação pode ainda tornar-se mais explosiva. Com a perspectiva, agora tornada séria, de a extrema-esquerda poder vir a vencer eleições na Grécia, a radicalização do processo político pode acelerar-se. Com efeito, uma polarização declarada entre a esquerda radical do Syriza e a extrema-direita da Aurora Dourada pode levar a Grécia para um conflito político de natureza muito diferente daquele que é próprio das democracias europeias. A emergência do Podemos em Espanha, especialmente se alguma vez vencesse eleições, levaria os nossos vizinhos para uma deriva política altamente conflituosa. As forças mais conservadoras da velha Espanha levantar-se-iam, algumas das pulsões “independentistas” ganhariam fôlego e as condições para uma reabilitação de um direita radical instalar-se-iam. Na verdade, não é preciso reflectir muito para perceber que a extrema-direita e a extrema-esquerda são aliadas tácticas e que cada uma delas se alimenta mais facilmente, se a outra for uma ameaça real e efectiva.

5. Numa palavra, e em tempos em que andamos concentrados nas questões económicas e financeiras, no combate à corrupção e à fraude (bancária), convém não estar desatento ao factor que mais tem contribuído para o desgaste dos partidos tradicionais e da democracia liberal na paisagem política europeia. Sabemos que, ao contrário da América anglo-saxónica ou latina, a Europa não tem conseguido integrar os seus migrantes. Seja pelo multiculturalismo, seja pela assimilação, tudo tem falhado. Há motins nos arredores de Berlim e de Estocolmo como há nos arrabaldes de Londres ou de Paris. Morre gente todos os dias no Mediterrâneo em busca da Itália ou da Espanha. Temos de encontrar uma solução equilibrada, que respeite profundamente a dignidade dos migrantes, que não ponha em causa a liberdade de circulação e que crie perspectivas de segurança e de identidade aos povos de acolhimento. Para o nosso futuro político (europeu e português) tão importante como o factor “e” (economia) vai ser o factor “i” (imigração).