"Assinei muitos documentos na base da confiança", diz ex-chairman da Rioforte

Manuel Fernando Espírito Santo, um dos primos de Ricardo Salgado, revelou ter ficado “surpreendido” com a situação do grupo.

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Ricardo Salgado apresentou resultados Rui Gaudêncio

Manuel Fernando Espírito Santo Silva, membro do Conselho Superior do Grupo Espírito Santo (GES), admitiu nesta terça-feira no Parlamento que assinou muitos documentos na base da confiança e que desconhecia a situação do grupo, que entrou em colapso: “Não sou um financeiro, nunca fui membro dos Conselhos de Administração do BES, da Espírito Santo Financial Group e da Rioforte.” Esta é a versão deste membro do Conselho Superior do GES, onde representava, desde 1995, o seu ramo da família, um dos cinco com poder de decisão.

Quando os problemas começaram a revelar-se, Manuel Fernando Espírito Santo mostrou-se empenhado na sua resolução: “Acreditei e comprometi-me na reestrututuração.” Aliás, já em 2014, revelou aos deputados, contraiu um empréstimo de “três milhões de euros”, para comprar acções da Espírito Santo Control (ESC), a holding familiar que detinha o poder final no GES: “Dei como garantia a minha casa.”

Foi uma decisão cuja racionalidade não conseguiu explicar aos deputados, porque a principal linha da sua argumentação é o “desconhecimento” quase absoluto que tinha da situação do grupo. “As contas da ESI [Espírito Santo International] eram-nos apresentadas apenas para efeito de aprovação.” Ou: “Não tinha relações com a Eurofin. Sei que era uma boutique financeira. E que havia alguma relação em termos de investimentos em Portugal em alguns sectores.”

Quando chega à cadeira de presidente não-executivo da Rioforte, a holding não financeira, que tinha os negócios fora do sector bancário (saúde, turismo, entre outros), Manuel Fernando Espírito Santo sabia que a empresa anterior, que também integrou, a ES Resources, era para “acabar”. “Quando criámos a Rioforte, o objectivo era fazer o fase out da ES Resources.” Mas não foi... "Só em 2013/14 percebi que a ESR tinha servido para comprar fundos financeiros da Eurofin e projectos imobiliários em Angola."

A razão de ser deste deconhecimento? Ricardo Salgado: “Mereceu sempre a plena confiança da família, porque era um membro sénior da família, era competente e experiente e sempre fora capaz de ultrapassar todas as dificuldades que foram surgindo.”

Por isso, apenas três pessoas geriam as contas de todo o grupo, passando por cima das responsabilidades de todos os outros administradores e gestores: “O grupo tinha uma tesouraria central: Ricardo Salgado e José Castella, com o apoio de Machado da Cruz [o contabilista].”

Para Manuel Fernando Espírito Santo Silva, "a ESI [de que o gestor era administrador] era gerida pelo dr. Ricardo Salgado, pelo dr. José Castela, com a colaboração do dr. Machado da Cruz" e "bastavam duas assinaturas para comprometer a sociedade."

O antigo presidente da Rioforte explicou que, no final de 2013, "a consolidação do grupo todo, com as imparidades, ESI mais Rioforte, dava um nível de endividamento de 8 mil milhões de euros."

"Mas eu não era responsável pelas contas da ESI e não tinha conhecimento dessas matérias [ocultação de 1300 milhões de euros de passivo desde 2008]. Não sei se o dr. Ricardo Salgado tinha conhecimento das matérias, mas elas estão a ser investigadas pelas autoridades do Luxemburgo que ajudarão a esclarecer rapidamente a situação."

Dada a dimensão do que foi ocultado, Manuel Fernando Espírito Santo Silva admite ser "estranho" que o contabilista fosse o único a saber que as contas da ESI não estavam certas.

"Foi na primeira reunião do Conselho de Administração da ESI de 2014, que se realizou no Luxemburgo, que os nossos advogados nos informaram que era necessário consolidar as contas no Luxemburgo, pois até aí tinham-nos dito o contrário", salienta Manuel Fernando Espírito Santo Silva, afirmando que, ao contrário de Salgado que era o líder, nunca teve “responsabilidades na área financeira", e, por isso, não tinha “qualquer ligação com o BdP [Banco de Portugal] e com a CMVM [Comissão do Mercado de Valores Mobiliários]". "Eu apenas fui ao BdP três vezes, uma delas para apresentar uma carta sobre o plano de desalavancagem, estava lá o governador e o vice-governador." O BdP "não se exprimiu, mas não estava muito contente."

Na semana passada, nesta comissão, Ricardo Salgado afirmou que "havia debilidades evidentes no ramo não financeiro" do GES, o que mereceu o comentário de Manuel Fernando Espirito Santo Silva: "As debilidades estavam na ESI, que era a detentora dos ramos financeiros e não financeiros. Debilidade na Rioforte? Não havia. Diria até que tinha uma governação impecável."

"A situação do GES em Dezembro de 2013 mudou com a situação da ESI, e um dos nossos problemas era parar com os encargos financeiros que vinham de trás", explicou o gestor, afirmando que "foi isto" que levou a avançar com um programa de venda dos activos não financeiros até 2016. Só que em 2013 "Portugal estava ao desbarato", o que mudou "este ano", como se constata com "as vendas dos activos que decorreram" já na fase de liquidação. "A estratégia era sairmos da área não financeira e concentrarmo-nos no BES."

O ex-presidente da Rioforte admitiu ainda que "as conversas nas reuniões do Conselho Superior do GES [onde tinham assento os representantes dos cinco ramos accionistas do GES] eram gravadas: "As conversas começaram a ser gravadas a partir do momento em que o Conselho Superior foi alargado" às gerações mais novas, o que aconteceu no final de 2012.

"Não acho normal" prenda de 14 milhões

Manuel Fernando Espírito Santo Silva teceu comentários sobre a luta pelo poder no GES, observando: “Subescrevi o documento apresentado no final de Outubro pelo doutor José Maria Ricciardi”, onde este pedia mudanças na governação do BES e GES. “Dias depois, a 7 de Novembro, dei o meu apoio a Ricardo Salgado e nunca pus em causa a sua competência, a sua liderança e a sua gestão”.

Segundo Manuel Fernando Espírito Santo, o chefe do clã terá dado justificações credíveis às perguntas que lhe foram dirigidas. “Dei-lhe o meu voto de confiança com duas condições: que houvesse de imediato [o início do] processo da sua sucessão no BES e que se iniciasse um novo modelo de governação no GES. Todos demos o nosso voto de confiança, com excepção do dr. José Maria Ricciardi, que pediu para pensar. No dia seguinte, saíram uma série de notícias que foram desmentidas pelo dr. José Maria Ricciardi”.

Manuel Fernando Espírito Santo alegou também que houve várias tentativas para encontrar consensos, mas os acontecimentos posteriores não o permitiram.

“Acreditei sinceramente que a Rioforte era a solução para salvar o grupo. Quando apresentámos o plano de reestruturação do GES, a Rioforte surgia a liderar o grupo, pois era auditada e consolidada" e estava saudável, defendeu o gestor, insistindo no desconhecimento de certos pormenores.

“[Quando a] Rioforte tinha necessidade de emitir divida, eles contactavam os bancos e nós nem sabíamos quem era o cliente final. E o reinvestimento de 900 milhões de euros da PT na Rioforte era para ser a um ano, reinvestido de três em três meses." O ex-presidente da Rioforte declarou ainda que nunca teve contactos com a PT, "a não ser em Junho" de 2014, quando foi dizer que a Rioforte não pagava a divida à operadora de telecomunicações.

Mas para Manuel Fernando Espírito Santo Silva "a génese do problema do GES estava no facto de ter sido construído com pouco capital”: “Alguns dos nossos negócios correram bem, outros mal. Mas o corolário disto é negativo”, apontou, recusando, no entanto, “fazer uma análise do colapso do BES".

A deputada do PP Teresa Anjinho perguntou a Manuel Fernando Espírito Santo se "considera que 14 milhões [a prenda que Salgado diz que recebeu do construtor José Guilherme] é proporcional ao vocábulo liberalidade?”. O gestor respondeu: “Não, não acho normal. E nunca recebi nenhum valor desses. Fizemos perguntas ao dr. Ricardo Salgado no tal Conselho Superior [de 7/11/2013] e ficámos esclarecidos."

Teresa Anjinho quis saber o que o levou a não submeter à votação do Conselho Superior o documento apresentado por Ricciardi em Outubro de 2013 a pedir esclarecimentos a Salgado (assim como mudanças na gestão), pois "passou de um estado de quase censura, para um voto de confiança" ao ex-banqueiro. E Manuel Fernando Espírito Santo explicou que "o documento [aprovado numa reunião onde Salgado e José Manuel Espírito Santo não estiveram presentes] só era distribuído se tivesse havido acordo de todos os subscritores. Não havia esse acordo e nunca foi apresentado", pois os temas abordados [BESA, comissões pagas a Salgado, mudança de governação] foram "justificados" por Salgado. Depois, como reconheceu, esqueceu-se do documento, que só voltou a aparecer em Junho de 2014, quando foi enviado ao BdP. O gestor admitiu que assinou muitos documentos de cruz: "Assinei muitos documentos na base da confiança."

O negócio dos submarinos
Instado a pronunciar-se sobre o negócio de venda da Escom, que nunca foi consumado, apesar de ter sido pago um sinal de cerca de 60 milhões de dólares (parte do qual desapareceu), Manuel Fernando Espirito Santo Silva explicou que não acompanhou o processo: “E, por isso, não sei por que correu mal. A Escom era da Rioforte, mas o negócio de venda foi liderado pelo dr. Ricardo Salgado e pelas autoridades angolanas e sempre ouvi dizer que o comprador era a Sonangol, mas não sei o que se passou".

Ainda sobre o negócio de compra de dois submarinos alemães pelo Estado português, em 2004, por cerca de mil milhões de euros, que resultou no pagamento de cinco milhões de euros aos membros do Conselho Superior, dado que a Escom assessorou o consórcio vendedor, Manuel Fernando Espírito Santo Silva avançou que houve "uma retribuição especial das empresas do GES aos membros do Conselho Superior" e tratou-se do "pagamento da sociedade pelos resultados cobrados resultantes dessa operação", mas disse que não interveio “nesse negócio." "Quem interveio foi a Escom e do que eu sei foi um concurso ganho pelas contrapartidas, mas decidimos nunca mais nos associarmos a esses negócios."

O gestor garante que declarou [ao fisco] o que recebeu “[uma comissão de um milhão] em 2005 ou 2006, recorrendo ao RET para regularizar a situação." E insistiu em qualificar esse valor não como uma comissão, mas como "retribuição pelos resultados obtidos". Afirmou também "não saber “quem era o sexto homem" -  nas transcrições de uma acta de uma reunião do Conselho Superior do GES, que decorreu no Verão de 2013, Salgado surge a revelar existir uma sexta pessoa, para além dos 5 membros do CS, que auferiu uma comissão pelo negócio dos submarinos,

As respostas de Manuel Fernando Espírito Santo, levaram o deputado do PS José Magalhães, a observar: "A imagem que resulta desta intervenção é terrível". "Ninguém sabe de nada "e todos assinavam de cruz." "A ideia de que morre o leopardo para que tudo fique na pele da ovelha" é uma má ideia, disse ainda o socialista, para quem "estamos perante uma testemunha difícil", que "nada sabe, nada viu, não estava na parte má do grupo, mas recebeu uma comissão de um negócio ruinoso para o Estado português" – a venda de submarinos.