Reportagem

“Sou directora desta escola há 26 anos e não me lembro de um início de ano tão conturbado”

Na EB 2.3 do Monte de Caparica, uma das centenas de escolas afectadas pelo problema da colocação de professores, já se respira de alívio. Os alunos já têm aulas, os professores trabalho e a directora já não passa dias ao telefone a chamar os docentes. No fim do primeiro período, a rotina voltou às salas de aula, mas ninguém se esqueceu deste arranque do ano lectivo.

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Marilyn Marques/Arquivo

Para alguns alunos da Escola Básica 2/3 do Monte de Caparica, em Almada, o dia de aulas chegou ao fim. Para outros, começa o desporto escolar. Nesta tarde fria de Outono, os miúdos estão encasacados e de mochila às costas. Sentam-se nos muros, conversam, riem-se alto. O ambiente é tranquilo, mas nem sempre foi assim.

No início deste ano lectivo, com os sucessivos problemas com a Bolsa de Contratação de Escola (BCE), houve reboliço no recreio: alunos com furos, sem ter o que fazer. A escola não conseguia assegurar aulas de substituição para todos.

O concurso, que serve para colocar os professores contratados nas 304 escolas TEIP (Território Educativo de Intervenção Prioritária) e com contrato de autonomia, decorreu este ano pela primeira vez de forma centralizada e ficou marcado por vários sobressaltos: uma fórmula de ordenação dos professores errada, que os colocou indevidamente, problemas com a plataforma informática, atrasos no calendário escolar. A 20 de Outubro, o Ministério da Educação e Ciência (MEC) passou a responsabilidade de chamar os docentes para as mãos dos directores.

Inês de Castro é directora desta escola, agora do agrupamento, há 26 anos: “Não me lembro de um início de ano lectivo tão conturbado.” Passa a mão pela cabeça e acrescenta: “Ultrapassou tudo.”

A Escola Básica (EB) 2/3 do Monte de Caparica é TEIP e com contrato de autonomia. “Tem uma população heterogénea, uma parte significativa de alunos provém de famílias de fracos recursos económicos, é uma escola multicultural e tem resultados escolares insuficientes”, resume Inês de Castro. As escolas TEIP “são penalizadas duas vezes”, porque, além dos problemas com a contratação de professores, “têm uma fragilidade, dadas as características da população escolar”, acrescenta. Com 520 alunos, do 5.º ao 9.º ano, a escola tem à volta alguns bairros sociais, de habitação cooperativa. Segundo uma escala definida pela Universidade Católica Portuguesa para o PÚBLICO, quando são feitos os rankings das escolas, esta escola  pertence ao grupo mais desfavorável, o que tem alunos mais pobres e famílias menos escolarizadas.

A situação nesta EB 2/3, bem como no agrupamento de que faz parte, só ficou totalmente normalizada há cerca de três semanas. Na última fase, ficaram sobretudo situações de baixas por doença ou licenças de maternidade por resolver. No final de Novembro ainda chegaram professores. 

A 20 de Outubro, quando as escolas passaram a ter a responsabilidade de telefonar aos docentes, Inês de Castro diz que montou “um call center”: “Passei dois dias inteiros ao telefone a chamar candidatos. Depois um dizia-me para esperar um bocadinho, que tinha outra proposta, que ia ver qual escolhia. Foi um call center intenso, durou três dias, o terceiro já foi mais leve. Mas nesses dias conseguimos a maioria dos docentes em falta.”

Medo da indisciplina
Nesta escola, cerca de 30% dos professores são contratados através da BCE. No 2.º e 3.º ciclos, um mês depois do arranque do ano lectivo, o cenário era este: em 25 turmas, a 22 ainda faltavam alguns professores. No 5.º e 6.º anos, havia alunos que ainda não tinham docente a Português, ou a Inglês, a Ciências Naturais. Do 7.º ao 9.º, aconteceu o mesmo nas disciplinas de Inglês, Francês, História, Ciências Naturais, Física e Química e Educação Física. Nem sempre se conseguiu assegurar aulas de substituição: “Havia vezes em que os alunos ficavam sem aulas. Mas tiveram um comportamento bastante razoável”, diz a directora, aliviada.

Chegou a temer o pior. “Uma manhã inteira lá fora, os alunos ficam um pouco desorganizados. Tive receio que houvesse um aumento da indisciplina, mas eles colaboraram, perceberam que era um problema grave. Este tipo de coisas não ajuda, daí a minha aflição no início do ano. Podia ter dado para o torto.”

Gonçalo, 14 anos, no 9.º ano, esteve cerca de um mês e meio sem professor de História. “Nos furos, às vezes tínhamos aulas de substituição com outros professores, outras não.” O que é que faziam? “Íamos dar uma volta, para o recreio.”

Ana Paula Barroso é mãe de uma criança de 10 anos que frequenta a escola. Abana a cabeça, quando se recorda dos dias em que o deixava à porta: “Foi um início de ano péssimo, não me lembro de um como este. As crianças andavam sem saber o que fazer. Era um reboliço. Nunca vi tanta agitação junto ao portão da escola, foi mesmo muito complicado. As próprias crianças ficam instáveis sem que a escola tivesse culpa, que tentava fazer o melhor.”

Para compensar os alunos houve duas soluções – usar as aulas de apoio e voltar a planificar algumas disciplinas. “No 2.º ciclo, para evitar que os alunos tivessem sobrecarga horária, aproveitámos as horas do apoio ao estudo para fazer a compensação das aulas em falta”. Tudo foi acordado com os encarregados de educação: os alunos começaram a frequentar as aulas de apoio neste regime no princípio de Novembro e assim deverão permanecer enquanto necessário.

No 3.º ciclo, optou-se por “fazer uma reprogramação” das aulas. Um exemplo: na disciplina de Francês, depois de se dar o vocabulário da roupa, há um certo número de aulas para revisão da matéria. O que se fez foi tirar algumas dessas horas de revisão e afectá-las a outras matérias. Fez-se o planeamento ano a ano, mas tendo em conta o conjunto dos programas do 7.º, 8.º e 9.º: “Conseguiu-se, sem anular matérias”, garante a directora.

Neste momento, “subsiste o problema” dos alunos que ficaram sem aulas de Inglês no 3.º ciclo: “Estamos a ver com o ministério a melhor forma de colmatar isso. É uma disciplina com muito peso e sequência.” Foram seis as turmas afectadas. A ideia em discussão poderá passar por contratar um professor por um tempo limitado para fazer coadjuvação dentro da sala de aula. Só neste caso foi necessário pedir recursos ao MEC.

Francisco Almeida, professor contratado (colocado através da BCE), tem 43 anos e 15 de serviço. Demorou uma semana a reorganizar o planeamento das aulas de Francês. “Os alunos do 7.º ao 9.º ficaram sensivelmente sem um mês de aulas a Francês.” Tudo feito para não excluir nenhuma matéria. “Como nunca falto, é possível recuperar as aprendizagens.” Agora já há ânimo e vontade de voltar a pôr tudo a funcionar, mas assim que a pergunta é sobre o que se passou, a resposta é a mesma: “Foi dos inícios de ano lectivo mais atribulados de que me lembro.”