Opinião

Parabéns e obrigada

Ama o seu país com a mesma força com que detesta os intelectuais que falam das nossas desgraças do cimo da sua pretensa sabedoria. E, como ama o seu país, não consegue aceitar o estado em que ele se encontra.

1. Mário Soares já tem o seu lugar na História. Sem ele e o seu combate visionário, tantas vezes solitário, podíamos ter perdido a liberdade e a democracia no grande confronto do PREC, que extravasou o âmbito nacional para se inscrever no grande combate ideológico entre o Mundo Livre e a União Soviética. Kissinger (mas também muito boa gente em Portugal) estava disposto a cruzar os braços perante a ofensiva comunista. A América estava na defensiva depois do Vietname. A União Soviética ocupava terreno. Soares nunca desistiu: Portugal seria uma democracia ocidental e manter-se-ia do lado certo da Guerra Fria.

Foi Soares igualmente que decidiu o nosso destino europeu, que não era na altura tão óbvio como hoje muita gente quer fazer crer. Ainda me lembro dos comentários jocosos de muitos dirigentes políticos quando Soares garantiu, numa célebre cimeira europeia em Dublin, que fosse aprovado um “constat d’accord” sobre a adesão portuguesa. Vinculou-os a uma decisão. Os sonhos africanos ou latino-americanos ainda dominavam alguns espíritos, à direita como à esquerda. Foi a sua crença profunda, epidérmica, na liberdade que alimentou sempre a sua determinação. Aprendi muito do que sei com ele. E se houve uma coisa que aprendi há muito tempo foi que tem, muitas vezes, razão antes de tempo.

Só volto a Mário Soares, depois do seu aniversário magnífico, porque li algures que uns senhores do CDS-PP, creio que membros da Assembleia Municipal de Lisboa, não querem que a câmara lhe entregue a chave da cidade. Ou se querem apenas pôr em bicos de pés, ou representam uma direita que nunca conseguiu perdoar a Soares ter sido ele a salvar Portugal do comunismo, como escreve Carlos Gaspar num artigo certeiro publicado neste jornal na quarta-feira passada. Ou então, mais prosaicamente, imaginam que podem garantir mais uma mão-cheia de votos, não apenas das velhinhas mas também entre aqueles que ainda hoje acusam Soares de ter vendido as colónias.

2. Já muita gente deu o seu testemunho pessoal da sua relação com Mário Soares. Na televisão, nos jornais (incluindo o meu, num excelente trabalho). Melhor do que qualquer ensaio académico, foi a maneira perfeita de retratar a dimensão do político e do homem. Algumas dessas histórias conto-as na biografia que escrevi dele em 1987, percorrendo o caminho que o levou da oposição a Salazar até à eleição presidencial. Uma delas, que nunca esqueço, foi-me contada por Lopes Cardoso (já falecido). O Partido Socialista tinha vencido por uma larga maioria (38 por cento) as eleições para a Constituinte de 25 de Abril de 1975, negando nas urnas o aparente domínio político do Partido Comunista. O segundo partido mais votado foi o PPD de Sá Carneiro (24 por cento), mostrando claramente para onde se inclinava a maioria. Os comunistas (incluindo o MDP) ficaram-se nos 14 por cento. Cunhal não aceitou o resultado, como já tinha anunciado (“Nunca haverá uma democracia parlamentar em Portugal”) e transferiu o combate para as ruas, onde contava com um partido capaz de mobilizar milhares de pessoas.

Para Soares era óbvio que o PS tinha de encarar o repto e vencê-lo também na rua. Era preciso convocar um grande comício para mostrar que Lisboa não era a “Comuna de Paris”. O secretariado socialista reuniu-se para decidir o que fazer. Soares, reclinado na cadeira, com os dedos nos suspensórios e os olhos semicerrados, ouviu-os em silêncio. Uns diziam que era mais prudente ser num recinto fechado, caso não houvesse grande mobilização. Falava-se no Pavilhão dos Desportos. Outros diziam que o Rossio talvez fosse fácil de encher. De repente, Soares acordou da sua letargia e disse: “É na Alameda”. Seguiu-se um silêncio profundo. Sabemos o que foi o comício da Alameda: um dos momentos decisivos para virar a maré até ao 25 de Novembro. Soares, como outros grandes líderes mundiais, teve o seu encontro com a História e esteve à altura. Fez a História mudar de sentido. Como Churchill, quando esteve quase sozinho a enfrentar o nazismo. Tinha imensos defeitos. Chegou-lhe uma profunda convicção na liberdade e uma total confiança em si próprio. Soares partilha das mesmas características. Uma vez, estava eu no Vau a gravar mais umas horas de entrevista, a conversa evoluiu para a sua coragem. Estava atrás da secretária, de pé. Pensou um pouco. “Olhe, isto deve ser uma coisa mental. Se entrasse aqui alguém empunhando uma pistola e me dissesse: ponha-se debaixo da mesa, eu não punha”.

3. Só lhe devo atenções, mesmo quando ele me dizia que Tony Blair era um desastre. “Lá vem você com as suas blairsisses”. Nunca isso mudou a sua simpatia e a sua disponibilidade. Tem uma maneira de ser solar e a sua imensa curiosidade é em primeiro lugar pelas pessoas. Conviveu com grandes líderes políticos e a maneira como os descreve dá-nos outra imagem deles. Sabia sempre o que queria. Quando, num célebre jantar dos líderes da Internacional Socialista presidido por Willy Brandt para debater a instalação dos misseis de cruzeiro na Alemanha, Neil Kinnock, líder do Partido Trabalhista britânico, disse que iria defender o desarmamento unilateral do seu país, Soares disse-lhe: “Então o meu desejo é que você perca as eleições”. Houve uma enorme discussão à volta da mesa, até Brandt conseguir restabelecer a ordem. Em Lisboa chamavam-lhe “pró-americano”. Nunca se preocupou com isso.

Quando era primeiro-ministro do bloco central e teve de aplicar um duríssimo programa de austeridade imposto pelo FMI, não havia dia sem uma manifestação à porta de São Bento. Eu tinha um programa na RDP que Adelino Gomes me encomendou e que consistia em fazer três perguntas, o mais incómodas possível, aos responsáveis políticos. Quando cheguei a São Bento para fazê-las a Soares, ele reagiu veementemente a todas. Levava um daqueles gravadores de fita muito antigos e quando cheguei à Rádio, no Quelhas, verifiquei que não gravara nada. Qualquer um pode imaginar como fiquei. Telefonei-lhe. Confessei-lhe o sucedido. “Não se aflija, resolvemos isso. Volte cá. Vou tentar manter a irritação com as suas perguntas”.

Ama o seu país com a mesma força com que detesta os intelectuais que falam das nossas desgraças do cimo da sua pretensa sabedoria. E, como ama o seu país, não consegue aceitar o estado em que ele se encontra.

4. A primeira vez que o vi foi em Paris, onde estávamos exilados, em 1973. Eu era maoista, ele um “burguês social-democrata”. Tinha convocado um comício para a Mutualité. Estávamos em plena guerra do Yom Kippur. A extrema-esquerda foi lá para acusá-lo de ser amigo de Golda Meir. Levou sempre as críticas a bem e até simpatizava bastante connosco. Vi os esforços que fez, numa célebre reunião da IS no Algarve (Abril de 1983), para tentar sentar à mesma mesa o seu amigo Shimon Peres e o enviado da OLP, Issam Sartawi, um moderado que acabou por ser assassinado durante a cimeira. Foi terrível. Antes disso, Willy Brandt tinha-o incumbido de uma missão ao Médio Oriente para encontrar a melhor maneira de obrigar as partes em conflito a dialogar. Soares fez o que sempre tinha feito: quis falar de viva voz com as duas partes. Estávamos em plena guerra do Líbano, Beirute era uma cidade destruída. Arafat estava instalado num bunker do outro lado da “linha verde” que definia a frente de batalha. Contra todos os avisos, meteu-se num carro e disse aos seus assessores que iria mesmo até bunker do líder palestiniano. Atravessaram a “linha verde” debaixo de fogo. Uma bala entrou pelo vidro da frente e alojou-se nas costas da cadeira do pendura, ocupada por Bernardino Gomes. A IS não funcionava assim. Mas era assim que ele funcionava. Parabéns e obrigada, dr. Soares.