Opinião

O Natal e mais além

Eis-nos chegados a Dezembro, comprovadamente, o mês mais solidário do calendário.

Mal se anuncia o Natal, não há como fugir quanto a sermos relembrados dos problemas dos outros, apesar de existirem, para lá da época, todos os meses. E de se arrastarem todos os anos. A verdade é que, felizmente, as iniciativas da bendita sociedade civil estão aí em força, colmatando as falhas de um sistema social débil. Organizações não governamentais, associações religiosas (ou não), instituições de solidariedade, grupos de cidadãos empenhados: as organizações sem fins lucrativos multiplicam-se e são, para muitos, a réstia de esperança. Esta energia anda a par de um crescente activismo cidadão, muitas vezes sob a forma de um crescente e meritório voluntariado – já são dois milhões de portugueses.

Para questões de emergência social – ajuda humanitária em caso de catástrofes naturais, situações de pobreza, adensamento de conflitos, por exemplo – o apoio pontual é fundamental. É agir aqui e agora. Inadiável. Porém, em muitos outros temas (e são imensos) a ajuda pontual, que sentimos sobretudo nesta época do ano, alivia mas não resolve. É mais um penso rápido para estancar a ferida mas falta atacar a infecção que a provoca. Perante problemas sociais que nos tocam, contribuímos com alimentos, dinheiro ou até com o nosso tempo – mas o problema pode-se arrastar se a causa não for atacada. E assim vão passando os natais.

Dar para socorrer é importante mas tem de ser conjugado com outro verbo: dar para capacitar. Dar a cana e ensinar a pescar. Interromper o ciclo de pobreza. Este é, tendencialmente, o foco das organizações do terceiro sector ou, pelo menos, o que as boas práticas o recomendam: sem deixar de acudir, também pensar a longo prazo, inovando com projectos sociais que criem condições para que pessoas mais vulneráveis e grupos de risco ganhem força própria que lhes permita interromper o seu fado. Poderá ser pelo acesso à educação, pela aprendizagem de um ofício, por aprender a ler, ou até por ajudar a descobrir uma forma de subsistência (e de valorização pessoal). Melhorar a literacia na saúde ou na alimentação pode fazer muito por quem não percebe sequer uma bula ou uma indicação da segurança social. Basta pensarmos que não aceder à informação é uma forma de exclusão social. Enfim, tudo passa pela superação das debilidades individuais, diagnosticando contextos específicos, da saúde à educação passando pela dignidade.

Aqui, uma vez mais, todos podemos dar. Apoiando projectos inovadores mas também com um simples conselho, uma conversa, uma dica numa coisa tão óbvia que nem nos lembramos que pode fazer a diferença. Pode ser o nosso conhecimento numa área específica ou activação da nossa rede de contactos para ajudar a sair da situação. É generosidade? É mais do que isso, é disponibilidade. Por vezes, demora mais do que dar. E nem sempre tem tanto efeito imediato.

Pois bem, a boa notícia é que, a par das imprescindíveis iniciativas de doação pontual, existem projectos sociais sólidos, ancorados na inovação e com o fito da capacitação. Desenhados por organizações do terceiro sector mas também por empresas, ou por parcerias entre vários actores da sociedade, entre quem conhece o terreno e quem tem músculo para implementar programas sociais. É certo que implica seguir pelo caminho difícil mas, provavelmente, sustentável. Esta pode ser uma cintilante mensagem de Natal, sobretudo se acreditarmos que vai durar para além da época.

A autora é investigadora na Universidade do Minho e directora da b+ comunicação