Crítica

Natureza viva

Kevin Morby pega numa minúscula raiz do folclore americano e faz coisas grandes

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E se de repente um desconhecido pega numa guitarra para fazer canções então isso é folk. No caso, folk que tanto ecoa os Walkmen (no dedilhado melancólico deBloodscuker ou na rasgadinha The Ballad of Arlo Jones) como os saudosos The Clean (nas guitarrinhas desafinadas da deliciosa balada indie Motors runnin’) ou os Silver Jews (na espantosa The jester, the tramp & the acrobat). Kevin Morby pega numa minúscula raiz da imensa floresta do folclore americano e o que faz com ela, sendo simples, é admirável: como a fantástica Courtney Barnett, Morby tem um talento danado para, munido quase só de uma guitarra, encontrar o arranjo mais eficaz (a linha de baixo e os coros de Drowning, a título de exemplo), a linha melódica mais doce, o truquezinho que vira uma canção (exemplo: em All my life, é a entrada do órgão e dos pratos que enche a canção e a conduz ao arrepio). Não é um génio, note-se, apenas um daqueles sujeitos que vós ireis querer impingir aos vossos amigos naquela secção do jantar caseiro em que já se vai adiantado no Dimple de 15 anos. Still Life significa “natureza morta”, mas não se enganem: está tudo bem vivo, aqui.