Esta erupção do vulcão da ilha do Fogo já é mais destrutiva do que a de 1995

Duas povoações estão destruídas. Receia-se que outras no caminho mais provável do rio de lava também sejam apanhadas, até porque o vulcão se mantém em actividade.

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Cratera principal do vulcão na noite de 28 de Novembro fotografada a 800 metros de distância José Madeira/FCUL/IDL
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A erupção a 28 de Novembro José Madeira/FCUL/IDL
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A erupção ao entardecer de 29 de Novembro José Madeira/FCUL/IDL
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A frente do derrame a 29 de Novembro, que viria a destruir as povoações da Portela e Bangaeira José Madeira/FCUL/IDL
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A erupção a 28 de Novembro José Madeira/FCUL/IDL
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A erupção vista da povoação da Portela a 29 de Novembro: a actividade eruptiva situa-se no sopé do grande cone, o Pico do Fogo José Madeira/FCUL/IDL
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A Casa Vulcão, na rua principal da povoação Portela, era de um funcionário do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica de Cabo Verde José Madeira/FCUL/IDL
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A Casa Amarelu, que era uma pousada e restaurante na povoação da Portela José Madeira/FCUL/IDL
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O geólogo português José Madeira José Madeira/FCUL/IDL
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O geólogo português Ricardo Ramalho José Madeira/FCUL/IDL
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A ilha do Fogo vista do espaço NASA

Em 1995, o vulcão da ilha do Fogo, em Cabo Verde, acordou e manteve-se durante um mês e 24 dias a deitar lava vinda das profundezas da Terra. Agora, passados 19 anos da erupção anterior, voltou a dar sinais de vida — e nos 19 dias em que tem estado a expelir lava já foi mais destrutivo do que em toda a erupção de há quase 20 anos.

A lava já destruiu duas povoações — a Portela e Bangaeira —, enquanto em 1995 atingiu uma meia dúzia de casas. Coladas uma à outra, a Portela e a Bangaeira ficam dentro da caldeira vulcânica da ilha do Fogo, conhecida por Chã das Caldeiras. Até há menos de um mês viviam ali cerca de 1300 pessoas, que tiveram de ser deslocadas para outros locais, a maior parte para o antigo liceu da cidade de Mosteiros. Outra parte foi para centros de acolhimento em Achada Furna e Monte Grande. Vítimas mortais não há.

Chã das Caldeiras, que é uma depressão plana a cerca de 1600 metros de altura, está em grande parte rodeada por uma escarpa, designada por Bordeira, e que na parte mais alta atinge um quilómetro acima do fundo plano. Aberta a leste, zona em que a escarpa já não existe, a caldeira vulcânica tem cerca de nove quilómetros de comprimento e dois de largura. Do fundo da caldeira ergue-se um grande cone — o Pico do Fogo, que é o vulcão e o ponto mais alto da ilha, com 2829 metros. Desde a erupção anterior, Chã das Caldeiras foi-se enchendo de gente.

O cultivo da vinha e a produção de vinho, num dos poucos locais em Cabo Verde onde isso é possível, e o turismo tornaram-se actividades económicas importantes que funcionaram como um chamariz para Chã das Caldeiras. “Desde 1995, a população mais do que duplicou”, refere José Madeira, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e do Instituto Dom Luiz (IDL), regressado há alguns dias a Portugal de uma missão científica ao vulcão. “Houve a cooperação com os italianos para se desenvolver a vinha e a área cultivada aumentou. A procura turística também aumentou. A população jovem da Portela e Bangaeira trabalha como guias — a fazer caminhadas, a ir ao vulcão, a subir a Bordeira.”

Mais gente num local perigoso pela presença de um vulcão activo, ainda que costume estar adormecido durante dezenas de anos, é sinónimo do aumento do risco associado a uma erupção. Esta foi uma das razões por que, desta vez, o derrame de lava chegou às casas e as engoliu. Primeiro à Portela, mais a sul, depois à Bangaeira, mais a norte.

Quando olhamos para fotografias que os jornais cabo-verdianos têm publicado, vemos que o derrame de lava envolveu as casas e prosseguiu caminho. Vista de cima, a crosta escura da lava surge pontilhada, aqui e ali, pelo topo claro das casas, sobressaindo como pepitas de chocolate branco numa bolacha. Além das casas, assim se perderam terras agrícolas, a adega de Chã das Caldeiras, o edifício do Parque Natural da Ilha do Fogo, estradas.

“Destruição muitíssimo maior”
Para José Madeira, tratou-se de um reencontro com o vulcão. A erupção anterior já o tinha levado até lá, agora foi com outro geólogo português, Ricardo Ramalho, da Universidade de Bristol (Reino Unido), revezados depois por outro geólogo da FCUL e dois geofísicos do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa. “O nosso principal objectivo era perceber como decorria a erupção, que tipo de produtos produzia, apanhar amostras de rochas e cinzas vulcânicas e documentar as observações em fotografia, vídeo e por escrito.”

Estes cientistas também apoiaram as equipas cabo-verdianas de monitorização sísmica do vulcão, baseada numa rede já instalada, e de protecção civil. Iam-lhes transmitindo informações sobre as suas observações e previsões para as horas seguintes. Ao terreno acorreu ainda outra equipa portuguesa, reunida num consórcio de instituições como o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, o Instituto Superior Técnico, a Universidade da Beira Interior ou o Laboratório Nacional de Energia e Geologia, para monitorização sísmica e geodésica do vulcão. Instalaram estações sísmicas, reforçando a rede existente, e estações geodésicas, para medir as deformações do terreno. Todas estas informações ajudam a perceber como poderá evoluir a erupção.

É pois muito do relato de José Madeira sobre o que conhece do vulcão e o que observou nos seis dias que esteve na ilha e nas oito ou nove vezes que subiu até Chã das Caldeiras, aproximando-se da erupção até a uns 800 metros, que aqui fica.

“Em 1995, o derrame de lava ficou relativamente próximo mas não destruiu nada na Portela”, conta o geólogo. “Essa erupção destruiu a estrada de entrada em Chã [das Caldeiras], meia dúzia de casas e o edifício da antiga adega de Boca Forte, que era uma pequena localidade onde havia nascentes [de água] e um sistema de cisternas”, relata. “Hoje, como a Chã cresceu e havia mais construção, a destruição foi muitíssimo maior.”

Em 1995, viviam ali cerca de 650 pessoas. Foi essa a população evacuada de Chã das Caldeiras pelas entidades cabo-verdianas, segundo uma descrição dessa erupção publicada logo nesse ano na revista portuguesa de geografia Finisterra, por Ezequiel Correia e Fernando Costa, do Instituto de Investigação Científica e Tropical, em Lisboa.

Dois ramos de lava
Outros factores contribuíram para a maior destruição provocada pela actual erupção. Tal como em 1995, a nova erupção começou no sopé do Pico do Fogo. “A lava de 1995 preencheu a zona mais deprimida da Chã, na proximidade do grande cone, e a erupção deste ano não tinha para onde se espalhar e deu origem a uma língua mais alongada e que chegou mais rapidamente à Portela.”

Logo no primeiro dia da erupção, na manhã de 23 de Novembro, o rio de lava ramificou-se em dois ramos: “Um foi para sul e morreu a um quilómetro e tal e o outro foi em direcção à Portela, passou por cima do derrame de 1995 e correu encostado a ele.”

Estas erupções são de tipo fissural: “Abre-se uma fissura no terreno, a lava jorra e organiza-se em bocas eruptivas — focos eruptivos — e é a partir daí que começa a ser construído um cone”, explica ainda o geólogo. “Inicialmente, esta erupção teve uns sete focos eruptivos ao longo da fissura e, progressivamente, alguns deixaram de estar activos. Nos últimos dias, mantiveram-se quatro focos.”

Três dos focos, situados em cotas mais altas, apresentavam uma actividade mais explosiva: além de cinzas, projectavam bombas vulcânicas, fragmentos de lava incandescente, a 300 ou 400 metros de altura. Depois de uma trajectória balística, essas bombas ou caíam nas proximidades da cratera ou a distâncias até a uns 500 metros. “É assim que o cone é constituído: resulta da acumulação desses materiais projectados de modo explosivo”, explica o geólogo. “O cone da erupção actual está a formar-se encostado ao cone de 1995, do lado sudeste. É a mesma estrutura que foi activada. O cone que está em construção está a sobrepor-se em parte ao cone de 1995.”

Quanto ao quarto foco eruptivo, está a originar o rio de lava que tem escorrido pela depressão de Chã das Caldeiras. Nesta actividade vulcânica dita “efusiva”, a lava corre líquida pelo chão. Nos últimos dias, tem avançado mais lentamente, mas encontra-se já a norte da Bangaeira, em direcção à encosta da ilha onde a Bordeira não existe e o caminho até ao mar tem assim a vida facilitada. “Continua a actividade explosiva, as cinzas e as bombas. Continua a haver derramamento de lava. As frentes estão estagnadas, mas não significa que não venham a ser reactivadas”, informa José Madeira.

Estão em risco outras povoações? “Há o perigo de o derrame de lava percorrer os dois quilómetros até à vertente que segue directamente para o mar”, responde o geólogo. “Se a lava continuar a avançar e seguir o trajecto mais plausível, a principal povoação que pode estar em perigo é Fonsaco, a sul da cidade de Mosteiros e já próxima do nível do mar”, acrescenta, dizendo que pelo caminho há várias casas dispersas.

Um dos jornais cabo-verdianos, A Semana, escrevia na quarta-feira que as autoridades cabo-verdianas tinham dado o alerta de que a lava podia atingir, além de Fonsaco, o povoado de Cutelo Alto. E que já havia moradores destas localidades no concelho de Mosteiros a transferir os seus bens para outros locais. “Prefiro jogar pelo seguro e não desafiar a natureza, porque ela é imprevisível. É preferível sair a tempo e salvar alguma coisa do que ficar à espera para a última hora”, disse ao jornal um dos moradores de Fonsaco, Bento Andrade.

Além de Cutelo Alto e Fonsaco, o presidente substituto da Câmara Municipal dos Mosteiros, Jaime Monteiro, adiantou ao mesmo jornal que os povoados de Monte Barro, Boca Curral e Queimada Trás também estavam em zona de risco. Neste caso, poderão ser afectadas cerca de 500 casas habitadas e 2100 pessoas.

E Mosteiros, a segunda maior cidade da ilha, está na rota do rio de lava? “Atingir Mosteiros é um cenário pouco plausível, quase impossível. Era preciso que a erupção se mantivesse durante muitos meses”, diz o geólogo português.

Pelos registos históricos, as erupções do vulcão do Fogo prolongam-se, em média, por dois meses. A partir de meados do século XV, quando Cabo Verde foi descoberto e povoado, há registo de umas 25 erupções. Algumas são meras referências em livros de bordo. A partir do século XVIII, os registos são mais completos, culminado com as erupções bem documentadas de 1951 (pelo geógrafo português Orlando Ribeiro) e de 1995.

Este é o único vulcão de Cabo Verde com actividade desde o povoamento das ilhas. “As ilhas de Santo Antão e Brava não têm erupções desde o povoamento, mas têm potencial para produzir erupções no futuro.”

E desta erupção que continua bem viva, José Madeira e o colega trouxeram na mala algumas das suas manifestações. “Colhemos uns 50 a 60 quilos de amostras.”