Padre Joaquim Carreira vai ser “Justo entre as Nações” por salvar judeus em Roma

Antigo reitor do Colégio Pontifício Português da capital italiana vai integrar a mesma lista onde está Aristides de Sousa Mendes.

Joaquim Carreira chegou a Roma com 31 anos
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Joaquim Carreira chegou a Roma com 31 anos DR

Será o quarto português a entrar na lista do Yad Vashem, o Memorial do Holocausto de Jerusalém. O padre Joaquim Carreira abrigou judeus durante a ocupação nazi de Roma, entre Setembro de 1943 e Julho de 1944, quando era reitor do Colégio Pontifício Português da capital italiana. No colégio estiveram dezenas de pessoas e, pelo menos numa ocasião, o edifício foi alvo de buscas dos militares alemães.

A decisão de atribuir ao português o título de “Justo entre as Nações” foi tomada em Setembro mas só agora foi divulgada e noticiada pelo jornalista António Marujo, especialista em Vaticano, no blogue Religionline. Aliás, foi uma investigação de António Marujo, publicada na revista 2 em Dezembro de 2012, que permitiu ao Yad Vashem iniciar o processo de designação.

Nascido em 1908 numa aldeia da região de Fátima, o padre Carreira morreu a 7 de Dezembro de 1981 na casa Madonna di Fatima, em Roma, cidade onde chegou com 31 anos. No Colégio Pontifício Português esteve entre 1940 e 1954, primeiro como vice-reitor, depois como responsável máximo da escola que até hoje recebe os padres portugueses que estudam na cidade.

No texto publicado há dois anos, António Marujo cita vários testemunhos que corroboram os esforços do padre para proteger a vida de judeus ameaçados — para o Yad Vashem, “Justo entre as Nações” são não-judeus que “tenham não só salvado judeus como arriscado a sua vida para o fazer”.

Há um Departamento dos Justos que analisa cada caso e o título só pode ser atribuído se a pessoa se “tiver envolvido directamente no resgate de um ou mais judeus ameaçados de morte ou de deportação para os campos da morte”, arriscando “a sua vida, liberdade ou posição” e com a intenção “de ajudar judeus perseguidos” sem receber nada em troca. É ainda necessário a existência de "testemunhos dos ajudados ou pelo menos documentação inequívoca que estabeleça a natureza dos resgates e as suas circunstâncias”.

Para além dos testemunhos escritos, incluindo várias cartas de agradecimento de antigos refugiados enviadas ao longo dos anos ao padre Carreira, o antigo jornalista do PÚBLICO ouviu nessa reportagem o judeu italiano Elio Cittone, que tinha 16 anos quando passou um mês e meio no colégio português, acompanhado por um tio. “Nunca mais o vi, mas estou-lhe muito grato”, diz Cittone, cujo testemunho perante o Departamento dos Justos foi fundamental para a decisão.

Pelo menos 40 pessoas passaram pelo colégio durante os meses que durou a ocupação nazi de Roma. Num relatório escrito pelo próprio padre sobre o ano lectivo de 1943-44 (citado pela primeira vez na reportagem de Dezembro de 2002), Carreira refere 40 foragidos e regista o nome de 39 pessoas. Alguns eram judeus, outros resistentes antifascistas. Há depoimentos de refugiados que apontam números superiores, 42, ou mesmo 50.

O relatório do padre português descreve as dificuldades em continuar os estudos no meio da ocupação, assim como “o problema grave” que constituía encontrar alimentos para todos os que então viviam no colégio e garantir uma alimentação saudável aos alunos. “A hospitalidade que está na base dos princípios da caridade cristã e a exemplo de todas as comunidades religiosas de Roma, achei que a devia oferecer a pessoas que eram perseguidas na base de leis injustas e desumanas”, escreve Carreira.

Antes do antigo reitor, já três portugueses tinham sido declarados "Justos" pelo Yad Vashem, numa lista com mais de 25 mil nomes. Para além de Aristides de Sousa Mendes, o cônsul que em Bordéus atribuiu vistos a mais de dez mil judeus em fuga (e cuja história é a única de um português contada no site do Yad Vashem), está lá Carlos Sampayo Garrido, embaixador em Budapeste que deu documentos portugueses a centenas de judeus e os colocou em residências da embaixada.

Um terceiro nome aparece listado como francês — trata-se do operário português que salvou uma menina judia em França, José Brito Mendes, e que tinha dupla nacionalidade.

Os “Justos” recebem uma medalha cunhada com o seu nome e um certificado de honra, para além de terem os seus nomes acrescentados ao Mural de Honra do Jardim dos Justos do Memorial do Holocausto. O Yad Vashem pode ainda “conceder a cidadania honorária ou a cidadania póstuma se já tiverem morrido”.

A cerimónia de entrega da medalha e do certificado a familiares do padre Carreira ainda não está marcada, mas deverá acontecer na primeira metade de 2015, na embaixada de Israel em Lisboa.