Editorial

A culpa com Salgado não morre solteira

Ricardo Salgado ensaiou uma narrativa onde todos saem mal na fotografia. Menos ele.

"O leopardo quando morre deixa a sua pele e um homem quando morre deixa a sua reputação". Foi assim, citando um provérbio chinês, que Ricardo Salgado arrancou a sua audição esta terça-feira na comissão de inquérito ao caso BES. Salgado construiu e montou uma narrativa para defender a sua reputação, e não hesitou em tentar arrasar a reputação de outros intervenientes no processo, como é o caso do Banco de Portugal. Para o anterior presidente do BES o colapso da instituição aconteceu por culpa da crise, da troika, de Carlos Costa, do contabilista, de Álvaro Sobrinho, do Governo, etc…

A lista dos culpados é interminável. E nesta lista não consta o nome de Ricardo Salgado. Nem um acto de gestão menos conseguido, nenhuma decisão errada, nenhum balanço ou balancete trocado, nenhum passivo ocultado, nenhuma contabilidade criativa, nenhuma conivência. Ricardo Salgado, segundo Salgado, é vítima de um contabilista no Luxemburgo que terá manipulado as contas da holding ES International. Salgado, segundo o próprio, nunca deu instruções “a ninguém para ocultar passivos do grupo". E o contabilista, diz Salgado, até já “assumiu totalmente a responsabilidade dos seus actos". O Bloco colocou bem a questão: Ricardo Salgado que era o Dono Disto Tudo passou a ser a Vítima Disto Tudo.

Para o ex-presidente do banco, o “BES não faliu. O BES foi forçado a desaparecer”. E aqui, segundo a narrativa, entra o Banco de Portugal e o Governo. O Governo de Passos Coelho que não acudiu ao banco, como François Hollande acudiu à Peugeot. E o banco nem sequer precisava de ajuda pública; apenas de um crédito da CGD “em condições normais”. Carlos Costa também não colaborou: "A única coisa que pedimos ao Banco de Portugal foi tempo e tempo foi algo que não nos foi dado".

A propósito do Banco de Portugal, a audição desta terça-feira de Ricardo Salgado vem dar razão aos que defendiam que os responsáveis pela gestão do banco deveriam ter sido ouvidos antes dos supervisores. Ao dizer, um sem-número de vezes, que bastaria que Carlos Costa “fizesse um sinal para que me tivesse retirado", Salgado vem dar corpo à tese daqueles que defendem que o regulador pouco fez para afastá-lo da liderança de forma atempada. E Ricardo Salgado vai mais longe, sugerindo que Carlos Costa estava disposto a aceitá-lo como presidente do futuro Conselho Estratégico, um órgão social que a certa altura se chegou a pensar criar no banco para “arrumar” os membros da família Espírito Santo. Perante estas afirmações é incontornável a necessidade de os deputados terem de chamar novamente Carlos Costa à comissão para esclarecer a questão da idoneidade (ou falta dela).

As explicações de Salgado sobre o colapso do banco em Angola e sobre as actividades menos claras da Eurofin pouco acrescentaram. O antigo presidente do banco diz que “ninguém se apropriou de um tostão”, mas a verdade é que continuam muitos tostões por explicar nesta história. E é necessário explicar tudo, seja nesta comissão, seja noutras instâncias judiciais.