Entrevista

Sérgio Rodrigues e um livro que demorou 18 anos: “Nunca nada me deu tanto trabalho”

Sérgio Rodrigues, fotografado em casa, no Rio de Janeiro
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Sérgio Rodrigues, fotografado em casa, no Rio de Janeiro Nelson Garrido

Em Janeiro, o PÚBLICO entrevistou o escritor Sérgio Rodrigues, para um trabalho que foi publicado em Março, no âmbito do Ano Grande do Brasil. Nessa altura, o romance O Drible já era uma das grandes sensações do ano. Agora, foi premiado com o Grande Prémio Portugal Telecom, vencendo ainda a categoria romance.

O PÚBLICO edita agora na íntegra a parte da conversa sobre o livro que lhe valeu um dos mais importantes prémios em língua portuguesa.

Nascido em 1962 em Muriaé (Minas Gerais), Sérgio Rodrigues foi um pouco de tudo no jornalismo brasileiro. Correspondente do Jornal do Brasil em Londres, repórter desportivo no Mundial de 1986 e na Fórmula 1, repórter da Folha de São Paulo, editor da revista Veja e do Segundo Caderno, do jornal O Globo e chefe de redacção da TV Globo. Agora, acumula a literatura com artigos nos jornais e o blogue Todo Prosa.

Uma das coisas que me surpreenderam é que demorou quase 20 anos entre a ideia inicial e a publicação deste livro. Porquê?

Foram 18 anos, mas não foram 18 anos de trabalho contínuo. A primeira ideia foi um conto que escrevi há 18 anos, sobre um jogador que tinha poderes sobrenaturais, que teria sido melhor do que o Pelé se a carreira dele não fosse interrompida tragicamente. Esse conto está inteirinho dentro do romance, mas demorei 18 anos para criar a história maior. O conto quase saiu no meu primeiro livro [
O Homem que Matou o Escritor], mas depois retirei-o, porque achei que ele merecia crescer. Mas não foi trabalho contínuo. Nesses 18 anos, publiquei seis livros, mas essa ideia nunca foi embora, começou a virar uma obsessão. Fiz algumas tentativas, devo ter escrito umas mil páginas, que joguei fora. Mas de cada uma dessas tentativas alguma coisa ficava e o romance foi-se sedimentando. Em Outubro de 2012, tirei férias do trabalho de jornalista e fiz um ultimato a mim próprio: ou encaminhava e estruturava o romance naquelas férias, para terminá-lo em breve, ou desistia para sempre dessa ideia. E deu certo. Voltei das férias com o livro muito bem encaminhado e poucos meses depois estava pronto. O meu processo de escrever é meio caótico, mas nunca nada me deu tanto trabalho.

Tem a ver com o tema?

Sim, tem a ver com o tema. É um tema notoriamente complicado. É muito comum ouvir críticos dizendo que a literatura brasileira não está à altura do futebol, porque não consegue abordar o futebol brasileiro. É um livro muito ambicioso, no sentido em que cobre 50 ou 60 anos da história brasileira. Procura traçar um painel histórico não só apenas do futebol, mas também político e cultural. A ambição desse livro contribuiu para esse trabalho todo que tive. Quando comecei, não estava pronto. Era novo e inexperiente de mais. Precisei de escrever outras coisas.

É por isso que este livro é diferente dos outros? Porque houve maior pressão e se tornou uma obsessão escrever um romance sobre futebol?

É o meu terceiro romance e quinto livro de ficção. É um livro mais ambicioso e acredito que mais bem realizado.

O jornalista João Máximo disse que é o melhor romance sobre futebol alguma vez escrito e o ex-futebolista Tostão afirmou que é este o livro que gostaria de ter escrito…

São duas opiniões que me deixaram muito feliz. Tostão é meio personagem do livro, naquele início dá o passe para o Pelé. Eu era muito fã do Tostão desde pequeno. Sou de Minas e ele é de Minas, do Cruzeiro. Era o meu grande ídolo, embora o Pelé fosse o maior, e acabou tornando-se um excelente jornalista. João é um grande entendedor do futebol. Quando mandei o livro para ele, pensei que ele ia encontrar vários erros factuais e fiquei muito feliz com essa opinião, que é uma opinião em que a amizade conta um pouco. A recepção tem sido boa com pessoal do futebol e a crítica literária também tem tratado o livro muito bem.

Uma das partes mais aclamadas do livro é a descrição do lance que o Pelé falha. Nove segundos em seis páginas. É a prova de que o tempo da literatura e do futebol são diferentes? Qualquer adepto que olha para aqueles dez segundos não os descreveria em seis páginas…

O tempo da literatura com certeza é outro. Agora tem também o tempo histórico e o tempo mítico. Queria que aquele lance saísse da história e fosse projectado num tempo mítico, em que o tempo é eterno, circular, não vai parar de se repetir. Que é o tempo onde esse lance chegou, porque virou um dos mais famosos de todas as Copas do Mundo. É curioso, mas até pelo facto de não ter feito golo, a frustração, contribui para aquele lance fique a ressoar ainda mais.

Um dos grandes problemas da literatura ao abordar o futebol é que este já é uma narrativa pronta. A história de uma partida já está escrita, já chegou ao final, já provocou a emoção de vitória ou de derrota. Como é uma linguagem muito fechada, é difícil trabalhar em cima disso. Quando você quebra esse tempo e transforma oito segundos em seis páginas está-se apropriando de uma realidade que é difícil de se apropriar. Se você narra um jogo na velocidade que um locutor de TV ou de rádio narra esse jogo, estamos apenas a repetir uma linguagem cristalizada, que todo o mundo conhece. Senti que para entrar nisso, precisava de antes de quebra essa lógica e essa linguagem cristalizada.

Quando se fala de futebol e literatura, lembramo-nos de uma série de cronistas de primeira linha (Nelson Rodrigues, Jorge Valdano, Camilo José Cela, Eduardo Galeano) e muita produção de qualidade. Mas quanto a romances é mais difícil. Acha que há incompatibilidade entre futebol e literatura?

Olha, não sei dizer. O
Febre de Bola, do Nick Hornby, é um romance muito legal. É mais um romance sobre o torcedor, o acto de torcer, do que sobre futebol. No caso do Brasil, as tentativas de romance que houve me pareciam muito marcados por lógica não desportiva, uma lógica social. Falava-se do jogador, mas era uma metáfora do jogador dominado pelo clube, do operário dominado pelo capitalista. O futebol acabava não sendo muito respeitado na sua lógica própria, de paixão. Não sei se pode chamar de incompatibilidade. Incompatível não é, mas com certeza não é fácil, talvez por causa da linguagem muito cristalizada que cerca o jornalismo e a narração desportiva.

Já se disse que os intelectuais não gostam de futebol, mas isso é facilmente desmentível…

Facilmente. Já houve esse momento, mas é tão antigo. Desde criança que vejo que os intelectuais brasileiros adoram futebol, escrevem artigos sobre isso. Não é esse o problema. Uma vez ouvi o Roberto da Matta dizendo que o que futebol é popular e que os intelectuais são elitistas, pelo que não dão importância ao futebol. Não acho que seja isso. Dá-se muita importância. Há contos excelentes, do Rubem Fonseca, do Sérgio Sant’Anna. No mundo do romance é que faltava. Lembro-me de um livro do José Lins do Rego, que não é um dos melhores dele, que tem muito essa lógica social, em que o futebol acaba ocupando lugar de outra coisa. É futebol, como podia ser uma fábrica ou uma fazenda.

Nem todo o futebol é arte, mas há momentos ou personagens artísticos. Isso dificulta que a literatura se debruce sobre isso?

Pelo contrário. Acho que isso é a porta de entrada. Pelo menos para mim foi. É literalmente a portas de entrada. É um momento de arte e é ali que tento entrar nesse universo. há bons romances sobre música, pintura, por que não futebol. É fácil romancear sobre o futebol-arte do que sobre o futebol-jogo.

Quando se fala de escrita sobre futebol, Nelson Rodrigues e Mário Filho são nomes de referência, embora o primeiro seja bem mais conhecido na Europa…

Aqui também. Tenho uma enorme admiração pelo Nelson. O Nelson é um cara que me influenciou como escritor. O primeiro conto do meu primeiro livro [
O homem que matou o escritor] tem o Nelson como personagem e não é à toa. É porque estava querendo conversar com uma herança que ele tinha deixado, do dramalhão trágico, rasgado. No caso de O Drible, essas minhas juras ao Mário, tem a ver com um livro extraordinário, que é O Negro no Futebol Brasileiro, um livro de repórter, que conta o desenvolvimento do futebol brasileiro desde que os primeiros ingleses chegaram aqui. É um livro pouco lido e tomei como missão fazer as pessoas conhecerem esse livro. Passou anos sem poder ser encontrado e no início dos anos 2000 houve edição da editora Mauad X. Ainda se encontra em livrarias virtuais. As pessoas não estão interessadas, mas ele escreve muito bem, contando histórias de jogadores. É um belo livro.

Que outros livros sobre futebol destacaria?

Gosto muito do
Anatomia de uma derrota, de Paulo Perdigão, que é sobre a derrota na Copa 1950. É um livro de cortar os pulsos. O Paulo Perdigão estava no Maracanã, era um garoto e nunca mais pisou no Maracanã. Se transformou num trauma estruturante da vida dele. Não é ficção, mas acaba por ser uma mistura de jornalismo, com memória, acabando por ter uma profundidade de romance. E tem os livros de crónicas do Nelson, do Paulo Mendes Campos, João Máximo, João Saldanha [Subterrâneos do Futebol], que é interessante. João não era um estilista da língua, escrevia de forma um pouco tosca, mas é um livro interessante.