Grécia indignada com empréstimo de escultura do Parténon à Rússia

É a primeira vez desde que recebeu os Mármores de Elgin, em 1816, que o British Museum empresta uma dessas peças. A decisão não ajuda à disputa com a Grécia pela posse das antigas esculturas do Parténon.

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A escultura do deus Ilissos já está em exposição no Museu Hermitage, em São Petersburgo. Grigory Dukor/Reuters

Apesar da polémica internacional, quem este sábado entre no site do Museu Hermitage e navegue pela secção dedicada às exposições temporárias encontrará ainda um anúncio vagamente misterioso: entre os títulos das várias mostras que assinalam os 250 anos da inauguração do museu, surge a dada altura a indicação “Uma obra-prima do Museu Britânico” acompanhada pelas datas de início e fim desta mostra: 6 de Dezembro 2014, 18 de Janeiro de 2015. E carregar no botão “ler mais” não se torna especialmente esclarecedor – o link abre uma página com apenas uma frase: “Por ocasião do 250º aniversário do Hermitage, o British Museum empresta uma obra-prima.”

A obra que a Rússia não divulga está já em exposição em São Petersburgo. É uma escultura do deus Ilissos, um dos Mármores de Elgin, o conhecido conjunto proveniente da Acrópole de Atenas por cuja restituição a Grécia se vem batendo internacionalmente há décadas – desde há um mês com a ajuda do escritório de advocacia de Amal Alamuddin, a nova mulher de George Clooney.

Foi a 20 de Novembro, diz o diário britânico The Times, que técnicos do British Museum embalaram a escultura de cerca de 1200 quilos e supervisionaram a sua transladação até ao aeroporto de onde viajou no porão de um avião de passageiros em direcção a São Petersburgo. Ao contar esta história, esta sexta-feira, o The Times revelou o primeiro empréstimo de sempre – até então mantido em segredo – que o British Museum faz de uma das centenas de peças que em 1816 o Parlamento britânico comprou ao aristocrata escocês Thomas Bruce, sétimo conde de Elgin.

Este sábado, a AFP sublinhava como enquanto Mikhaïl Piotrovski, director do Hermitage, falava num "gesto comovente e importante ", testemunho "do alto nível de confiança entre os dois museus", Atenas denunciava o que o primeiro-ministro Antónis Samarás definiu como uma "provocação ao povo grego".

"O Parténon foi objecto de uma pilhagem. Nós, os Gregos, identificamo-nos com a nossa história e a nossa cultura. Estas esculturas não podem em caso algum ser separadas, emprestadas ou dadas!”, fez saber Samarás num comunicado replicado depois pelo ministro da Cultura Kostas Tasoulas.

Algures entre 1801 e 1805, quando entrou na posse do conjunto de centenas de peças que, antes, compunham um friso ornamental de 75 metros num dos templos da Acrópole, Lorde Elgin era embaixador da corte britânica em Istambul. Nessa altura, a Grécia estava sob domínio otomano. E nos quase 200 anos decorridos desde que recebeu os mármores, o British Museum recusou todos os pedidos de empréstimo das 17 esculturas de figuras, 15 métopas e diversos outros elementos arquitectónicos em pedra. Recusou empréstimos à própria Grécia, que recentemente remodelou o Museu da Acrópole de forma a poder acolher o conjunto.     

Depois de em Agosto a Grécia ter lançado a campanha “Revolver, Restaurar, Recomeçar”, impulsionada por Marianna Vardinoyannis, embaixadora da boa vontade da Unesco, Dimitris Pandermalis, o director do Museu da Acrópole, veio agora a público lamentar a atitude do British Museum e recordar as negativas de Londres com que antes se confrontou. Isto depois de em Outubro Antónis Samarás ter reunido com Amal Alamuddin e ter admitido recorrer aos tribunais internacionais caso Atenas não consiga um acordo extra-judicial com a Grã-Bretanha.

Face à reacção grega ao empréstimo, Neil McGregor, o director do British Museum, explicou à imprensa britânica considerar ser esta uma boa forma de celebrar os 250 anos do Hermitage, um dos museus mais importantes do mundo. “Os nossos colegas do Hermitage pediram-nos se podíamos fazer um empréstimo importante para celebrar o seu 250º aniversário e o conselho respondeu imediatamente que sim. Nenhum empréstimo poderia assinalar mais adequadamente a longa amizade entre ambas as casas do que uma escultura do Parténon”, disse McGregor citado pela imprensa internacional.   

E Richard Lambert, presidente da administração do museu, também já se fez ouvir: “O dever dos administradores é permitir aos cidadãos de tantos países quanto possível partilhar a sua herança comum”, declarou.

Questionado pela BBC sobre os motivos por que um empréstimo semelhante nunca aconteceu com a Grécia, McGregor respondeu que a vontade dos administradores “sempre foi emprestar”. Porém, não incondicionalmente: “Na condição de que as peças aguentem a deslocação, sejam expostas em local seguro e sejam restituídas.” Segundo este responsável, “o governo grego sempre recusou este tipo de empréstimo". À Grécia, disse, “um empréstimo tornar-se-ia num endosso à propriedade de Londres sobre os mármores do Parténon”.

Mais de 30 anos volvidos sobre a primeira campanha grega pela restituição dos Mármores de Elgin, lançada pela actriz Mélina Mercouri, depois ministra da Cultura, a posição oficial britânica mantém-se, portanto. Tal como as explicações de sempre do British Museum. No seu site, o museu sublinha que muitos dos achados do Parténon foram “dispersos antes do tempo de Elgin” e que “o que resta das esculturas sobreviventes que não estão em Atenas estão em museus com localizações várias pela Europa”. “O British Museum também tem outros fragmentos do Parténon adquiridos a colecções sem qualquer ligação a Lorde Elgin”, lê-se ainda na entrada dedicada aos mármores, numa referência a peças vindas de outros edifícios da Acrópole, entre eles o Templo de Atena. 

O Governo de Samarás, no entanto, vê no “caso Hermitage” um ponto positivo e de mudança: “Este empréstimo torna caduca a posição intangível do lado britânico de que as esculturas não sairiam jamais da Grã-Bretanha.” 

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